O município de Buriti dos Montes, no Piauí, vem desenhando, com passos firmes, uma mudança que começa cedo, ainda nos primeiros anos da escola e se estende para dentro dos lares. Na Escola Municipal Tia Deca, esse movimento ganha rosto e histórias que ajudam a explicar por que o estado tem se destacado nacionalmente na alfabetização infantil.
É no meio desse cenário que a trajetória de Josenete Alessandro se encaixa. Agricultora, acostumada ao ritmo da roça e às demandas de uma renda que precisa ser constantemente complementada, ela viu a própria vida tomar outro rumo com o passar dos anos. O Bolsa Família entrou na rotina logo após o nascimento do primeiro filho. Desde então, passou a cumprir um papel específico dentro da casa.
"A gente trabalha, tem o nosso complemento. Na roça, eu faço outras coisas também, não fico só nisso. E assim a gente consegue completar a renda pra roupa, calçado... essas coisas básicas que a gente precisa. Vamos trabalhando por fora, à parte. O Bolsa Família é unicamente exclusivo só pra alimentação", contou.
Josenete Alessandro projeta novos caminhos par a família a partir da educação (Eliaquim de Paula/ Meio News)
Com o tempo, a prioridade deixou de ser apenas manter a casa funcionando. Um novo plano começou a ganhar espaço: o de se tornar professora. A decisão não surge como ruptura, mas como continuidade de uma lógica que já existe ali - a de melhorar de vida sem perder de vista quem ainda precisa.
"Se eu terminar minha faculdade e conseguir um trabalho melhor, lógico que eu vou ganhar melhor. A partir daí eu posso deixar, né, pra uma outra pessoa que realmente precisa. Porque aqui na cidade, por mais pequena que ela seja, sempre tem uma pessoa que precisa mais do que a gente. Então liberando pelo menos um, já ajuda uma pessoa lá na frente”, completou.
Entre a rotina no campo e a sala de aula, Josenete constrói uma nova etapa da própria trajetória (Eliaquim de Paula/ Meio News)
A escola como ponto de equilíbrio
Na prática, o acesso ao benefício está diretamente ligado à presença dos filhos na escola. A exigência de matrícula e frequência regular funciona como uma ponte entre o apoio financeiro imediato e um investimento mais duradouro: a educação.
Na Escola Tia Deca, essa relação aparece nos números e no cotidiano. Dos 218 alunos matriculados, 166 fazem parte de famílias atendidas pelo programa. A frequência mínima de 75% não é apenas um dado burocrático - ela interfere diretamente na rotina das famílias e na organização da escola.
A presença constante dos alunos em sala faz parte de uma rotina acompanhada de perto pela escola e pelas famílias (Eliaquim de Paula/ Meio News)
O acompanhamento é constante. A cada período, a presença dos alunos é registrada e enviada para controle, criando uma espécie de pacto silencioso entre escola e responsáveis: a criança precisa estar ali.
Dentro da escola, esse compromisso se traduz em acompanhamento próximo. A diretora, Liamara Sousa, explica como essa engrenagem funciona no dia a dia.
"Se a família garantir que a criança está na escola, com certeza a escola faz sua parte. A cada dois meses, a gente recebe essa frequência escolar e coloca como é que tá essa criança. Essa criança não pode estar abaixo de 75% de frequência escolar, porque prejudica diretamente o Bolsa Família. A mãe é notificada. Então por isso a importância da frequência escolar.”
A Vida Mudou: Bolsa Família transforma educação em Buriti dos Montes, no PI
Quando a presença vira aprendizado
A permanência em sala de aula começa a mostrar resultados concretos. O Piauí aparece entre os destaques nacionais no Indicador Criança Alfabetizada, com diversos municípios alcançando altos índices de alunos alfabetizados ao final do 2º ano do ensino fundamental.
Buriti dos Montes está entre aqueles que ultrapassam 95% de alfabetização nessa etapa. Na Escola Tia Deca, há turmas que chegaram a 100% de alunos alfabetizados na idade certa.
Frequência e acompanhamento pedagógico caminham juntos no dia a dia (Eliaquim de Paula/ Meio News)
Na sala do terceiro ano, o avanço deixa de ser estatística e se transforma em prática. Leitura fluente, interpretação e segurança ao lidar com os conteúdos fazem parte da rotina dos alunos.
Entre eles está Enrico Emanoel, que cresceu dentro desse ambiente de acompanhamento. Filho da coordenadora Dilma Araújo, ele representa, ao mesmo tempo, o olhar técnico da escola e a vivência de casa.
"O Enrico saiu do segundo ano como leitor fluente, lê todo tipo de texto. É uma maravilha. Eu não estou aqui falando como coordenadora, eu estou falando como mãe”, disse.
O envolvimento das famílias reforça o aprendizado e sustenta a rotina escolar das crianças (Eliaquim de Paula/ Meio News)
O papel que vem de casa
Se a escola organiza, a família sustenta. O envolvimento dos responsáveis aparece como uma das bases para os resultados alcançados.
Égila Daiana da Silva vive essa dupla função de perto. Além de mãe, participa ativamente da rotina escolar, acompanhando tarefas e ajudando no processo de aprendizagem. O benefício social e o apoio financeiro que recebe da escola ajudam a manter esse equilíbrio.
"Quando eu tive ele, aí eu pensei: como eu vou cuidar do meu filho? Então eu recorri ao Bolsa Família, que foi o que veio me ajudando, e ainda hoje me ajuda muito. Eu recorro pra casa, alimentação, e o dinheiro que eu recebo aqui da escola já é pra manutenção de roupa, de sandálias, pra sustentar ele”, contou Égila.
Ao lado do filho Pedro Rômulo, Égila acompanha a rotina escolar e participa ativamente do processo de aprendizagem (Eliaquim de Paula/ Meio News)
Em muitos casos, a rotina não permite vínculos formais de trabalho. A necessidade de cuidar dos filhos, somada às demandas da casa, leva muitas mães a buscarem alternativas mais flexíveis, quase sempre informais.
Inclusão que exige presença
Para algumas famílias, o desafio vai além da adaptação escolar. Alessandra Barbosa reorganizou completamente o próprio dia para acompanhar o filho, Luan, dentro e fora da escola.
A presença dela em sala não é ocasional, faz parte do processo de aprendizagem. Luan é uma criança não verbal, e a comunicação exige tempo, paciência e estratégias específicas.
“Ele é uma criança não verbal. Aí poucas pessoas entendem o que ele fala. Eu entendo tudo, né, lógico. Aí eu venho todos os dias com ele. Daqui eu levo ele pra terapia.”
A escola também se adapta. Atividades personalizadas, uso de figuras e materiais visuais fazem parte das estratégias para ampliar o aprendizado. O acompanhamento contínuo só é possível porque a família conta com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a pessoas com deficiência.
"Não tem como eu manter ele sem esse benefício. Eu comecei a trazer ele, ele nem caminhava. Eu trazia das terapias, vinha direto pra cá. Nunca desisti dele. Sempre tive aquela fé que ia dar certo. E tá dando, graças a Deus”, disse.
Uma mudança que começa cedo
Em Buriti dos Montes, os resultados da alfabetização não aparecem isolados. Eles estão ligados a uma rede de fatores que se cruzam: a presença diária na escola, o envolvimento das famílias, o acompanhamento pedagógico e o suporte financeiro que garante o mínimo dentro de casa.
Mais do que números, o que se constrói ali é uma sequência de pequenas mudanças - algumas discretas, outras visíveis - que, juntas, alteram trajetórias inteiras.
Na Escola Tia Deca, aprender a ler e escrever é apenas o começo.
Alunos compartilham um ambiente de acompanhamento contínuo (Eliaquim de Paula/ Meio News)
"A VIDA MUDOU"
O Grupo Meio Norte de Comunicação inicia a exibição da série especial “A Vida Mudou – Histórias Reais de Transformação”, um projeto jornalístico que mostra como piauienses estão mudando de vida por meio da educação, do empreendedorismo e do acesso a programas sociais, com exibição no programa Agora – Jogo do Poder e nas múltiplas plataformas do Meio Norte.