Criada em uma comunidade vulnerável próxima a um aterro sanitário, em Teresina, a advogada Lélia Caroline cresceu em meio à fome, ao preconceito e à instabilidade financeira. Foi nesse cenário que o programa social Bolsa Família, se ajudou a garantir sua permanência na escola e alimentar a esperança de uma vida diferente daquela que parecia já determinada.
Hoje, aos 30 anos, Lélia é advogada previdenciária, primeira da família a concluir o ensino superior e também a conquistar a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A antiga rotina marcada pela escassez deu lugar a audiências, processos e ao propósito de defender pessoas em situação de vulnerabilidade - justamente aquelas com quem sempre se identificou.
A rotina de Lélia começa cedo, na sede da Justiça Federal, ao lado do marido, Hélio, que também trabalha com ela. Entre atendimentos, petições e audiências, ela conduz uma carreira construída com esforço e marcada por um percurso que ainda permanece muito vivo na memória.
“Gosto de ajudar aquelas pessoas que precisam, as pessoas mais vulneráveis. E eu vi que, no Direito, eu teria essa oportunidade de estar fazendo essa defesa, defendendo aquelas pessoas que são desassistidas pela sociedade”, contou, ao explicar a motivação por trás da escolha da graduação.
Lélia Caroline é a primeira advogada da família e transformou a própria história por meio da educação (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)
Luta diária
Dona Rita de Cássia, mãe de Lélia, trabalhava como empregada doméstica e criou a filha praticamente sozinha. Durante a infância, a realidade da família era atravessada pela ausência de estabilidade financeira e pela luta diária para garantir o básico dentro de casa. A alimentação muitas vezes dependia do que era descartado ali.
O que para muitos era apenas lixo, para aquela família representava a possibilidade de colocar comida na mesa. Quando o caminhão chegava, era preciso correr para conseguir pegar primeiro aquilo que ainda poderia ser aproveitado.
“A gente morava perto de um aterro sanitário e algumas pessoas da comunidade se acostumavam com o que ia para ali. A gente pegava na hora. Se tivesse um cheiro bom, a gente levava para casa, limpava arroz, feijão, os lanches, por exemplo, biscoito, massa de milho… a gente levava para casa, comia, e durava muito tempo. Quando chegava o carro de lixo, a gente corria, porque quem ficasse ali na frente pegava as melhores coisas”, relembrou.
Mais do que o valor financeiro, o benefício chegou como a chance de continuar estudando sem que a sobrevivência diária interrompesse completamente os planos para o futuro.
Da infância marcada pela vulnerabilidade à conquista da carteira da OAB, Lélia construiu uma trajetória de superação (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)
Conquista
Chegar à universidade parecia uma realidade distante. Ainda assim, Lélia decidiu insistir. Ingressou no curso de Direito por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), já que não tinha condições de arcar com as mensalidades da graduação.
A conquista da graduação, no entanto, esteve longe de ser um percurso simples. A falta de recursos impactava diretamente a rotina acadêmica.
“Na faculdade, eu entrei como aluna do Fies, porque não tinha condição de pagar. Não tinha material, por exemplo, o Vade Mecum, o dicionário, que é a bíblia do Direito, né? Eu só vim ter contato com ele quando passei para a segunda fase da OAB”, relembrou.
O sonho da formação acadêmica precisou ser sustentado muito mais pela persistência do que pelas condições ideais.
Hoje advogada previdenciária, a profissional atua na defesa de pessoas em situação de vulnerabilidade social (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)
Resistir também é estudar
As dificuldades iam além da sala de aula. O deslocamento até a faculdade e compromissos acadêmicos também se transformava em obstáculo. Muitas vezes, não havia dinheiro suficiente nem para o vale-transporte do casal, e era preciso escolher quem seguiria viagem.
Na maior parte das vezes, Lélia ia sozinha, porque interromper os estudos nunca foi uma opção.
“Meu esposo não conseguiu nem me acompanhar, porque a gente não tinha dinheiro do vale-transporte para ir. Eu era quem ia, era ele que não conseguia”, contou.
Ela lembra das longas caminhadas, da chuva no caminho, dos ônibus perdidos e até dos momentos em que precisou pedir dinheiro emprestado apenas para conseguir completar o trajeto até a faculdade. Pequenos episódios que, somados, revelam o tamanho do esforço invisível por trás de uma graduação.
Até mesmo a formatura aconteceu de forma diferente do roteiro tradicional. Sem recursos para cerimônia, vestido ou ensaio fotográfico, a lembrança que ficou foi uma foto simples, tirada por uma amiga no gabinete onde trabalhava.
“Ter uma formatura, toda aquela encenação que a gente tem normalmente… eu peguei minha foto no gabinete. Eu não tinha nem roupa direito. Essa foto quem tirou foi uma amiga minha”, relatou.
A ausência da celebração convencional não diminuiu o significado daquele momento, mas o tornou ainda mais simbólico.
Beneficiária do Bolsa Família na infância, Lélia trocou o cartão do programa pela carteira da OAB (Foto: Bruna Alencar/ Meio News)
Quebrando ciclos
Em 2024, ao receber a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Lélia oficializou aquilo que por muitos anos parecia improvável. A estudante que não tinha acesso ao próprio Vade Mecum agora passava a exercer a profissão que escolheu ainda pensando em quem mais precisava de defesa.
A trajetória de Lélia ajuda a ilustrar uma transformação social que vai além da história individual. Segundo o estudo “Filhos do Bolsa Família: uma análise da última década do programa”, apresentado em 2025 pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mais de 70% dos adolescentes que viviam em lares beneficiários em 2014 deixaram de depender do programa até 2025.
Entre jovens de 15 a 17 anos, 28,4% já possuem emprego com carteira assinada. A pesquisa mostra que a combinação entre transferência de renda, permanência escolar e acesso a oportunidades tem sido decisiva para interromper ciclos históricos de pobreza entre gerações.
Lélia faz parte dessa mudança. O Bolsa Família, que um dia representou segurança alimentar e permanência nos estudos, hoje divide espaço com outra conquista simbólica: a carteira da OAB.
Ao olhar para trás, ela não trata o passado com vergonha, mas com consciência de tudo o que precisou atravessar para chegar até aqui.
“Tudo que eu passei me trouxe aonde eu estou hoje. Eu tenho orgulho de que tudo que eu passei me trouxe até aqui. Isso vai estar registrado na minha história, vai estar sempre guardado na minha memória”, destacou.
A mudança de realidade pode até ser resumida em uma frase simples, mas carregada de significado.
“Troquei o cartão do Bolsa Família pela carteira da OAB. E eu tenho orgulho de ter recebido o Bolsa Família, viu”, afirmou.
"A VIDA MUDOU"
O Grupo Meio Norte de Comunicação inicia a exibição da série especial “A Vida Mudou – Histórias Reais de Transformação”, um projeto jornalístico que mostra como piauienses estão mudando de vida por meio da educação, do empreendedorismo e do acesso a programas sociais, com exibição no programa Agora – Jogo do Poder e nas múltiplas plataformas do Meio Norte.