O dia começa cedo na comunidade indígena Nazaré, em Lagoa de São Francisco, no Piauí. Entre o verde da plantação e o ritmo da roça, o trabalho é contínuo - plantar, cuidar, colher. É dessa rotina que muitas famílias tiram o sustento e constroem suas histórias.

Lúcia Maria Pereira, de 60 anos, conhece esse caminho desde a infância. Foi ali mesmo, na terra onde nasceu e cresceu, que aprendeu a trabalhar ao lado do pai, ainda criança. Ao longo dos anos, viu a roça se transformar em base para tudo. A mudança está ligada ao acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que passou a integrar a rotina de produtores locais.



Por meio da iniciativa, alimentos cultivados pelas próprias famílias são adquiridos e destinados a outras comunidades em situação de vulnerabilidade. Assim, a estabilidade do lar e a alimentação da casa tem uma fonte de renda garantida. Hoje, mãe de 11 filhos, Lúcia Maria continua no mesmo ofício, cultivando hortaliças, legumes e frutas em um pequeno espaço onde nada se perde.


Lúcia Maria Pereira aprendeu ainda criança a trabalhar na roça, atividade que sustenta sua família há décadas (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)

“É mamão, milho, feijão, macaxeira, cheiro-verde, couve, pimenta-de-cheiro. Nós criamos todos com o dinheiro da roça”, disse.

Na comunidade, a produção segue um fluxo direto: o que é colhido já tem destino certo. A venda, que antes era incerta e dependia de oportunidades esporádicas, passou a ganhar mais estabilidade nos últimos anos.

A produção de hortaliças e legumes faz parte do dia a dia das famílias (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)


Produção que gera renda

O PAA, fortaleceu não apenas a comercialização, mas também incentivou a ampliação da produção. Na Nazaré, além das hortaliças, a criação de galinhas ganhou espaço e se tornou uma das principais atividades.

Na mesma comunidade, Maria Helena também construiu sua trajetória a partir do trabalho no campo. Indígena Tabajara, ela cresceu em meio à rotina rural, aprendendo desde cedo a lidar com a terra, quebrar coco, tecer redes e acompanhar os ciclos de plantio e colheita. 

A trajetória seguiu por anos nesse mesmo ritmo, até que novas possibilidades começaram a surgir dentro da própria comunidade. Hoje, é na criação de aves que ela concentra sua produção.

Maria Helena cuida sozinha de cerca de 130 aves, acompanhando todas as etapas da criação (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)


Sozinha, cuida de cerca de 130 galinhas. Organiza a alimentação, acompanha o crescimento e mantém uma rotina que exige dedicação diária.

“Individual não dá pra gente conseguir vender um lote desse, porque vem uma pessoa hoje comprar, amanhã vem outra… a gente vende duas pra comprar um saco de ração. Tiramos mais pra venda do PAA indígena, né? Que é uma entrega muito boa. Graças a Deus, tá dando certo. É por isso que a gente vem se mantendo.”

Maria Helena buscou força para continuar a produção nos filhos e, mesmo nos períodos mais difíceis, encontrou formas de seguir. Hoje, considera sua maior realização ver os dois formados - Otoniel, em Química, e Vanessa, em Contabilidade. Uma vitória possibilitada pela renda obtida por meio do PAA.

A criação de galinhas ganhou espaço e se tornou uma das principais atividades produtivas na região (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)


Protagonismo feminino

Entre quem participa do Programa de Aquisição de Alimentos, a maioria é do sexo feminino - mais de 80%. Grande parte é responsável pelo sustento da casa e organização da rotina. Na Associação Kolping Nazaré, esse perfil também se repete.

Esse cenário acompanha uma tendência maior. Dados do Censo Demográfico, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o número de lares chefiados por mulheres cresceu de forma significativa entre 2010 e 2022. No Piauí, esse percentual já ultrapassa a metade, chegando a 50,4%.


Na sede da Associação Kolping Nazaré, mulheres da comunidade articulam a produção e a comercialização de alimentos cultivados localmente (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)

Na prática, isso se traduz em jornadas múltiplas. A agricultora Valdina Pereira, mãe de uma adolescente, conhece bem esse desafio. Ao falar sobre as dificuldades enfrentadas, a emoção interrompeu as palavras.

“Esse projeto me ajuda em tudo… ajuda demais. Porque sem ele a gente não tinha como ter as coisas em casa. Com ele, a gente vende e ainda é distribuído pra nós mesmos da comunidade. Pra mim, é muito bom”, relatou, entre lagrimas.

Além da geração de renda, o programa também impacta diretamente a alimentação das famílias.

Na comunidade Nazaré, o trabalho coletivo reúne produtoras que sustentam a produção local (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)


Da produção ao prato

Os alimentos cultivados na comunidade não seguem apenas para venda. Parte deles retorna em forma de consumo local, especialmente nas escolas.

Na unidade de ensino integral da região, os produtos são utilizados na preparação das refeições servidas diariamente aos alunos. A merenda, antes limitada, passou a incorporar itens frescos e produzidos sem o uso de agrotóxicos.

Na escola local, a merenda passou a contar com produtos frescos e produzidos sem agrotóxicos (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News)


Na cozinha, o preparo também carrega identidade local.

“Tem farofa de bisteca pro almoço das crianças, tudo da agricultura local. Bem melhor, sem agrotóxico, com alimentação saudável, produzida na própria comunidade. Isso também fez com que diminuísse a questão das doenças. A mortalidade infantil, há muito tempo, a gente não tem na nossa comunidade. E as doenças, não só nas crianças, mas nas pessoas como um todo, têm diminuído. Porque são alimentos sem agrotóxicos, produzidos no próprio quintal, isso melhora a saúde das pessoas da comunidade”, disse .

O que é plantado ali retorna em forma de alimento, fortalecendo a saúde e a qualidade de vida dos moradores.

Museu Indígena Anízia Maria dos Povos Tabajara Tapuio Itamaraty (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News) 


Caminhos que se ampliam

Algumas famílias passaram a olhar para diferentes tipos de cultivo, outras diversificaram a produção com alimentos caseiros.

A coordenadora da comunidade, Maria Gardenia dos Santos, acompanha de perto esse movimento. A articulação entre os produtores tem garantido volumes de alimentos ao longo do ano.

“A gente vende em torno de 1.000 kg de alimentos. A gente já conseguiu vender até 2.000 kg, incluindo as galinhas, cheiro-verde, mamão, banana”, disse.

O resultado aparece não apenas nos números, mas na permanência das famílias na terra e na continuidade de práticas tradicionais.

Museu Indígena Anízia Maria dos Povos Tabajara Tapuio Itamaraty (Foto: Eliaquim de Paula/ Meio News) 

Entre plantações, criações e histórias que atravessam gerações, a comunidade Nazaré segue transformando o próprio cotidiano - mantendo raízes, mas abrindo espaço para novas possibilidades.