Antes do galo cantar, enquanto o céu ainda ameaça clarear, a água ferve no fogão e o café é preparado, marcando o início de mais uma jornada no campo, na zona rural de Piracuruca, no Piauí. É nesse ritmo que começa a rotina de Osvaldo Fontenele, produtor de leite na região da Serra Verde.
Na Fazenda Nova Jerusalém, a lida diária exige mais do que disposição. Entre custos elevados, necessidade de investimento e as oscilações do mercado, pequenos produtores enfrentam um cenário instável para manter a produção. Nesse contexto, iniciativas de apoio como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passam a influenciar diretamente a permanência no campo.
Por meio da iniciativa, o Governo Federal adquire diretamente a produção da agricultura familiar, garantindo um valor mais equilibrado e permitindo que o alimento chegue a quem precisa. No caso do leite, isso reduz perdas e evita que o produto fique totalmente dependente das variações de compra.
"O leite é um alimento que não dá para a gente armazenar, é um alimento perecível. A gente fica obrigado a vender a preço de mercado. A gente sabe que o mercado, infelizmente, não é tão justo para o pequeno. A ajuda na questão do preço, que é um preço bem agregado, comparado ao preço de laticínio, é um preço que é quase um real a mais, e isso, num litro de leite, impacta muito", contou Osvaldo.
Ainda antes do amanhecer, a rotina no campo começa com o preparo do café e os primeiros cuidados com a produção (Foto: Eliaquim de Paula)
Dedicação integral
Quando muitos ainda dormem, Osvaldo já está na vacaria. A neblina leve das primeiras horas da manhã acompanha o início da ordenha do rebanho de 16 vacas, cada uma produzindo entre 10 e 12 litros por ciclo.
Essa constância é parte essencial desse trabalho. Não se trata apenas de tirar o leite. Atualmente, a produção gira em torno de 300 litros por dia, com variações ao longo do ano. Parte desse volume é destinada ao PAA, enquanto o restante segue para laticínios da região.
"As vacas são animais de rotina. Elas gostam do mesmo ordenhador, da mesma peça, mesmo cheiro, ração, horário de ordenha e alimentação. É um animal que gosta de rotina. Quando se muda a rotina ou o ambiente, ela se estressa, ela diminui a produção", disse.
A ordenha começa ainda de madrugada, respeitando a rotina dos animais e o ritmo da produção (Foto: Eliaquim de Paula)
Há um provérbio que diz: “A maçã não cai longe da árvore.” No caso de Osvaldo, a frase ganha sentido quase literal. Ele costuma dizer que nasceu perto do curral, na propriedade que pertenceu aos pais e, antes deles, aos avós. Todos pequenos produtores na região, integrante da bacia leiteira do Parnaíba.
Os avós paternos iniciaram a criação com apenas dois animais, voltada tanto para o consumo quanto para a venda. Com o passar dos anos, a produção foi se expandindo até alcançar um volume capaz de sustentar a família, consolidando a atividade como principal fonte de renda.
Hoje, ele segue o mesmo caminho. A rotina é compartilhada com o filho, José Osmar, de 12 anos, que concilia a escola com pequenas participações nas atividades, e com a esposa, Maria de Fátima, que conduz o dia a dia da casa com o caçula nos braços. A renda da família também conta com o apoio do Bolsa Família, que ajuda a equilibrar as despesas.
Nesse percurso, algumas referências seguem presentes. Entre elas, o tio mais velho, que permanece na atividade e se tornou inspiração para a continuidade do trabalho no campo.
Na zona rural de Piracuruca, o trabalho com o leite acompanha gerações de uma mesma família (Foto: Eliaquim de Paula)
Entre tarefas e responsabilidades, a produção se mantém como principal fonte de renda do núcleo familiar.
"Dá 200, 210 litros de leite, mas a minha produção chegou, ano passado, até 700 litros de leite. A gente faz a ordenha duas vezes ao dia aqui na fazenda e esse leite sai do teto direto para o vasilhame, não tem contato com o ambiente", explicou o produtor.
Após a coleta, o leite é levado para o resfriamento, etapa essencial para preservar o produto (Foto: Eliaquim de Paula)
Após a ordenha, o leite é transportado até o sistema de resfriamento, etapa essencial para garantir a qualidade do produto. Três vezes por semana, compradores recolhem a produção, que precisa ser mantida a cerca de 6 graus até a coleta.
Produção que ganha novo significado
Com a produção assegurada, o trabalho fica mais tranquilo. A previsibilidade permite organizar melhor os períodos de ordenha, investir com mais segurança e manter a atividade ativa ao longo do ano. Ao mesmo tempo, o alimento segue um caminho que vai além da propriedade, chegando a famílias e instituições e fortalecendo uma rede que conecta quem produz a quem precisa.
Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal, do do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em 2023, o Piauí registrou crescimento de 4,2% na produção de leite, alcançando 69,5 milhões de litros, um aumento de 2,8 milhões em relação ao ano anterior.
A produção é armazenada em temperatura controlada até a retirada pelos compradores (Foto: Eliaquim de Paula)
Para Osvaldo, no entanto, os impactos vão além das estatísticas. Eles se traduzem na continuidade de um modo de vida construído ao longo de gerações, agora com mais segurança para seguir em frente.
E, quando o dia finalmente desacelera, tudo volta ao ponto de partida: a mesa simples, o café quente e o leite recém tirado. Um ciclo que se renova diariamente - com mais estabilidade do que antes.
A vida mudou: Programa transforma produção de leite em Piracuruca
"A VIDA MUDOU"
O Grupo Meio Norte de Comunicação inicia a exibição da série especial “A Vida Mudou – Histórias Reais de Transformação”, um projeto jornalístico que mostra como piauienses estão mudando de vida por meio da educação, do empreendedorismo e do acesso a programas sociais, com exibição no programa Agora – Jogo do Poder e nas múltiplas plataformas do Meio Norte.