Quando a atriz Marianna Armellini comentou recentemente que ela e o marido passaram a marcar horário para transar, muita gente reagiu com estranhamento, especialmente na Internet. Para alguns, a fala parecia burocratizar o afeto. Para outros, revelava maturidade emocional. Meses antes, Mônica Martelli já havia provocado discussão parecida ao defender a ideia de reservar espaço na rotina para a vida íntima.
Mas, para especialistas em relacionamento, o debate talvez esteja sendo feito da maneira errada. Segundo a terapeuta familiar Aline Cantarelli (@aline.cantarelli no Instagram), especializada em relacionamentos conjugais e reconstrução de vínculos familiares, o problema não está em colocar a intimidade na agenda. O problema está na expectativa de que relações longas consigam manter conexão, desejo e presença emocional sem intenção, manutenção e constância.
“As pessoas ainda carregam uma fantasia de que o desejo em relações longas vai continuar funcionando sozinho, espontaneamente, como no início. Só que a vida adulta real não funciona assim”, afirma.
O desgaste dos casais modernos
Aline explica que muitos relacionamentos entram em um processo gradual de afastamento sem que o casal perceba quando isso começou. Trabalho, filhos, cansaço, excesso de telas, sobrecarga mental e falta de tempo acabam empurrando a intimidade para o fim da lista de prioridades.
“O casal vai se acostumando a não ter um tempo de intimidade real. E eu não estou falando só de companhia ou parceria. Estou falando de sexo mesmo. Quando isso desaparece por muito tempo, os dois deixam de funcionar como casal e passam a funcionar quase como amigos que dividem rotina, boletos e responsabilidades”, diz.
Segundo ela, esse afastamento raramente acontece de forma abrupta. Na maior parte das vezes, ele é silencioso. “As pessoas vão esperando o momento ideal. O descanso ideal. A semana ideal. E aí passam meses. Às vezes anos. Eu atendo casais que chegam há um ano sem fazer sexo”.
A terapeuta afirma que existe um erro comum na forma como muitos casais enxergam o amor de longo prazo: a ideia de que intimidade deveria surgir naturalmente o tempo inteiro, sem esforço.
“Existe uma visão muito romantizada da relação. Como se organização fosse sinônimo de frieza. Mas relações longas exigem construção. Exigem intenção. Cada casal precisa encontrar a própria dinâmica”.
Sexo também é hábito
Para Aline, parte da dificuldade em discutir o tema vem do fato de que muita gente ainda evita falar abertamente sobre sexo dentro do próprio relacionamento. “A maior parte dos casais percebe que alguma coisa não está funcionando bem nessa área. Mas ninguém fala. É como um elefante na sala. Todo mundo sabe que existe um problema, mas ninguém toca no assunto”.
Ela usa uma comparação simples para explicar por que a intimidade pode desaparecer quando deixa de ser cultivada. “Sexo também é hábito. Qualquer hábito que você não alimenta desaparece. É parecido com atividade física. A pessoa vai deixando para depois, quebra a constância e, quando percebe, aquilo saiu completamente da rotina”.
Para criar esse hábito, a atriz Heloísa Périssé fez um acordo ousado com o marido. Após ler um texto sobre uma técnica que melhoraria a vida a dois do casal, eles cumpriram a meta de transar por 100 dias seguidos. E garante que, com o passar do tempo, a criatividade fluiu e não houve dificuldade para entrar no clima.
Segundo a terapeuta, isso não significa transformar o relacionamento em obrigação mecânica, mas entender que vínculos duradouros precisam de manutenção emocional contínua. “Minha relação precisa caber na agenda. Precisa ocupar espaço dentro da rotina. Porque, se eu não protejo isso, a vida engole”.
O mito da paixão eterna
A repercussão das falas das atrizes, sobre ‘agendamento’ de ‘compromisso íntimo’ com os maridos, também reacendeu outra discussão: a diferença entre paixão inicial e vínculo de longo prazo. Para Aline, muitos relacionamentos sofrem porque as pessoas ainda usam como referência um modelo idealizado de romance, baseado na intensidade permanente do começo da relação.
“A gente romantizou a ideia da paixão constante, daquela montanha-russa emocional o tempo inteiro. Só que ninguém consegue viver assim para sempre. Relações duradouras dependem muito mais de constância do que de intensidade”.
Ela acredita que relações maduras exigem outro tipo de entrega. “Romance maduro tem mais a ver com escolha consciente, parceria, presença e construção diária. Tem a ver com continuar escolhendo aquela pessoa mesmo depois que a fase impulsiva do começo passou.”
A terapeuta diz confiar mais em relações consistentes do que em vínculos marcados apenas por grandes explosões emocionais. “Eu confio mais em casais que fazem entregas intencionais do que em relações extremamente passionais que se sustentam só na intensidade”.
Manutenção dói menos do que reconexão
Segundo Aline, muitos casais só procuram ajuda quando o afastamento já está muito avançado, justamente porque evitam conversar sobre o tema ao longo do tempo. “As pessoas não sabem falar sobre sexo dentro do próprio relacionamento. Não sabem dizer o que sentem, o que está faltando, o que precisam. E quanto mais tempo passa, mais difícil fica reconstruir”.
Por isso, ela acredita que pequenas ações contínuas costumam ser mais eficazes do que esperar grandes reconexões futuras. “Reconectar um casal é muito mais difícil do que manter a conexão viva ao longo do tempo.”
No fim, para a terapeuta, talvez a principal provocação escondida por trás da repercussão envolvendo as atrizes seja que intimidade não costuma sobreviver sozinha. “Relacionamentos precisam ser alimentados continuamente. Faça chuva ou faça sol.”