Enem: acertar questões difíceis e errar fáceis pode reduzir a nota; entenda

Modelo de correção considera a coerência das respostas e a possibilidade de acertos por chute

Cadernos de provas do Enem | Reprodução/ Divulgação/MEC
Cadernos de provas do Enem | Reprodução/ Divulgação/MEC

A quantidade de questões acertadas não é o único fator que determina a pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O modelo de correção utilizado pelo Ministério da Educação (MEC), chamado Teoria de Resposta ao Item (TRI), considera também a coerência do conjunto de respostas. Por isso, participantes que acertam o mesmo número de questões podem receber notas diferentes, especialmente quando há acertos em itens considerados difíceis e erros naqueles classificados como fáceis.

A metodologia busca estimar o nível de conhecimento dos candidatos em cada área, levando em conta características das questões e a possibilidade de acertos por chute. Na prática, espera-se que um estudante que consegue resolver itens mais complexos também demonstre domínio dos conteúdos básicos e intermediários.

Como a TRI influencia a pontuação?

Um exemplo da aplicação desse modelo ocorreu no Enem de 2025. Naquele ano, 5.088 participantes acertaram 42 das 45 questões de Linguagens. Pela correção tradicional, baseada apenas no número de acertos, todos receberiam a mesma pontuação: 930 pontos, considerando uma escala de zero a mil.

As provas do Enem serão aplicadas nos dias 8 e 15 novembro. | Foto: Angelo Miguel e Bruna Araújo/MEC 

No entanto, dados do professor e estatístico Frederico Torres, especialista no exame, apontaram que as notas desses participantes variaram entre 664 e 732 pontos, uma diferença de 68 pontos, mesmo com a mesma quantidade de respostas corretas.

A coerência individual é um dos critérios que diferencia as pontuações. Assim, dois candidatos que acertam 20 questões podem receber notas distintas conforme o padrão de respostas apresentado.

A lógica considera que o aprendizado é cumulativo: os estudantes começam pelos conteúdos mais simples, avançam pelos intermediários e, depois, chegam aos mais complexos. Dessa forma, acertar questões difíceis e errar várias consideradas fáceis pode indicar um padrão de respostas menos coerente para o modelo.

O que considerar na hora da prova?

A TRI leva em conta três parâmetros para calcular a nota: a dificuldade da questão, o poder de discriminação do item — isto é, sua capacidade de diferenciar participantes com níveis distintos de conhecimento — e a probabilidade de acerto ao acaso, que considera a possibilidade de o candidato acertar por chute.

Esses cálculos, porém, são realizados depois da aplicação da prova. Durante o exame, o participante não consegue saber quais questões são estatisticamente fáceis ou difíceis, pois essa classificação pode ser diferente da percepção individual. Um enunciado curto, por exemplo, pode corresponder a uma questão complexa, enquanto outro mais longo pode ser acessível.

Por isso, a orientação dos especialistas é priorizar as questões que o estudante consegue resolver com segurança, evitando gastar tempo excessivo em um único item. Vanessa Santos, gerente de Projetos Educativos e Avaliação Educacional do Poliedro Educação, recomenda pular temporariamente as questões que geram dificuldade e retornar a elas caso sobre tempo.

TRI permite comparar diferentes edições

Além de estimar o desempenho dos participantes, a TRI permite comparar os resultados de diferentes aplicações do Enem. Isso é importante porque o exame também é realizado em datas distintas para grupos específicos, como pessoas privadas de liberdade, jovens que cumprem medidas socioeducativas e candidatos que tiveram a ausência justificada conforme as regras do edital.

Embora esses participantes respondam a questões diferentes, todos podem concorrer às mesmas vagas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Por isso, é necessário que as provas tenham resultados comparáveis.

O modelo também busca evitar que uma edição do exame seja considerada mais difícil ou mais fácil do que outra. Criado para avaliar a qualidade do ensino médio brasileiro, o Enem voltará a exercer essa função a partir de 2027.

Desde 2025, o Sisu também passou a aceitar notas das três últimas edições do Enem. Com isso, quem participou de mais de uma aplicação pode escolher a maior pontuação para concorrer a uma vaga no ensino superior.

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