A professora de redação Ana Letícia Lima, da Secretaria de Estado da Educação do Piauí (Seduc-PI), compartilhou orientações para os estudantes que farão o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, neste domingo (8 de novembro). Em entrevista ao Jornal da Tarde Piauí, da Rádio Jornal FM 90,3, nesta terça-feira (3), a educadora, que acertou o tema da redação do Enem em 2025, explicou os critérios de avaliação do texto, destacou os erros mais comuns e apresentou estratégias para quem encontrar dificuldade diante da proposta. Ela também apontou possíveis eixos temáticos que podem aparecer na edição deste ano, como saúde mental, trabalho e uso do celular.
Cinco competências definem a nota da redação
De acordo com Ana Letícia, a redação é avaliada a partir de cinco competências, cada uma com critérios específicos. A primeira verifica o domínio da modalidade formal da língua portuguesa, considerando aspectos como ortografia, acentuação, concordância e regência.
A segunda analisa a compreensão do tema e a escolha do repertório sociocultural. Nesse critério, o estudante precisa apresentar conhecimentos pertinentes, legitimados e produtivos. A terceira competência avalia a capacidade de utilizar esses repertórios para construir uma argumentação consistente.
Já a quarta observa a coesão e a coerência textual, incluindo o uso adequado de conectivos. A quinta competência é dedicada à proposta de intervenção, que deve apresentar cinco elementos: agente, ação, meio ou modo, finalidade e detalhamento.
"E a competência 5, a proposta de intervenção, onde é obrigatório a presença de cinco elementos. O agente, a ação, meio-modo, finalidade e detalhamento. Então, tem que fechar esses cinco, pra poder ter os mil pontos."
Erros de atenção podem reduzir a pontuação
A partir da experiência no Laboratório de Redação da Seduc, a professora afirmou que muitos dos problemas identificados nos textos dos estudantes estão relacionados à falta de atenção durante a escrita e a revisão. Entre os erros mais frequentes estão falhas de concordância, ausência de acentuação e esquecimento de algum dos elementos obrigatórios da proposta de intervenção.
Segundo a educadora, esses deslizes podem comprometer a pontuação em diferentes competências. Cada uma delas vale até 200 pontos, e a perda pode ocorrer em intervalos de 40 pontos, afastando o candidato da nota máxima.
"Às vezes o aluno deixa passar ali na revisão do rascunho um erro de concordância. Então, ao invés de escrever o plural, escreve no singular. Às vezes esquece de acentuar uma palavra. Então, erros ortográficos são muito comuns. Assim como também o erro na competência 5, que esquece um ou outro elemento da proposta de intervenção e, consequentemente, não consegue fechar os 200 pontos."
Por isso, a orientação é reservar alguns minutos para revisar o rascunho antes de passar o texto para a folha definitiva. A conferência deve incluir a escrita das palavras, a concordância e a presença dos cinco elementos da proposta de intervenção.
Professora que acertou tema da redação do Enem 2025 dá dicas para prova de domingo - Foto: Angelo Miguel/MEC
Saúde mental e trabalho estão entre os possíveis temas
Ao falar sobre os assuntos que podem aparecer na redação de 2026, Ana Letícia destacou os eixos de saúde mental e trabalho, que ganharam espaço nos debates públicos ao longo do ano. Um dos recortes possíveis, segundo ela, seria a relação entre as condições de trabalho, a qualidade de vida e a saúde mental da população.
A professora também chamou atenção para a possibilidade de o uso do celular aparecer relacionado à leitura, à concentração e ao pensamento crítico. Ela lembrou que a leitura foi abordada na redação da Prova Nacional Docente (PND), aplicada em setembro, e avaliou que o Enem pode explorar os efeitos do uso dos dispositivos digitais sobre a capacidade de interpretação.
"Provavelmente pode vir algo relacionado à saúde mental e ao eixo do trabalho. Então, a gente precisa ter muita atenção nesses dois eixos, porque foi algo que esteve em destaque na mídia muito."
Sobre a relação entre tecnologia e leitura, a educadora explicou que o tema pode abordar como a redução da atenção interfere na compreensão de textos e na formação do senso crítico.
"Pode ser que o uso do celular venha atrelado à leitura. (...) De como a nossa atenção está sendo cada vez menor e como isso pode estar prejudicando a nossa capacidade de interpretação ou até mesmo o senso crítico."
As possibilidades mencionadas pela professora são sugestões de preparação, e não previsões oficiais sobre o tema que será apresentado aos candidatos.
O que fazer se não conhecer o tema da redação?
Para os estudantes que se depararem com um assunto pouco conhecido, a primeira recomendação é não se desesperar. Ana Letícia orienta que o candidato respire, mantenha a calma e leia atentamente a frase temática antes de começar a escrever.
Uma das estratégias é marcar as palavras-chave do enunciado, identificando o recorte proposto e os grupos sociais envolvidos. Depois, o estudante deve analisar os textos motivadores, que podem ajudar a compreender o tema e encontrar informações para desenvolver a argumentação.
"A primeira e mais importante é a calma. Se você chegar lá no dia da prova e acontecer de cair um tema que você não sabe nada, não adianta se desesperar. Então é ter calma, interpretar a frase temática, pega ali uns dois minutinhos pra fazer isso, pra ler, interpretar, ler os textos motivadores."
A professora explicou que os textos de apoio devem ser utilizados como referência para compreender o assunto. Ela citou a redação de 2024, que abordou a valorização da herança africana na cultura brasileira. Na ocasião, um dos textos motivadores apresentava o significado da palavra “herança” dentro daquele contexto, ajudando os participantes a delimitar o tema.
Além disso, os materiais podem servir como repertório sociocultural, especialmente quando apresentam dados de pesquisas e informações que podem sustentar os argumentos.
"Os textos motivadores, eles vão mostrar o caminho pro aluno sobre o que eles precisam escrever. Nos textos, eles não são enfeites. Eles estão lá pra ser norte mesmo."
Professora recomenda reservar até 1h20 para a redação
Outra orientação é organizar o tempo de prova. Ana Letícia sugere que o candidato não comece a escrever a redação imediatamente. A estratégia apresentada por ela é fazer uma primeira leitura do tema, resolver algumas questões e depois retornar ao texto com mais atenção.
A professora recomenda reservar pelo menos uma hora para a redação, considerando o planejamento, a elaboração do rascunho, a revisão e a transcrição para a folha oficial. O período pode chegar a uma hora e vinte minutos.
"Uma técnica que eu uso até hoje, mesmo como professora, não escreve a prova imediatamente à redação, vai pras questões, pode ser ali questões de geografia, de história, responde algumas, uma média de 20 minutinhos respondendo questão, e aí sim retorna pra redação."
Ela também alertou que o primeiro dia exige bastante leitura, principalmente nas provas de Linguagens e Ciências Humanas. Por isso, o candidato precisa equilibrar o tempo dedicado à redação com o necessário para responder às demais questões.
Ana Letícia Lima em entrevista ao Jornal da Tarde Piauí - Foto: Eliaquim de Paula
Como serão os dois dias de prova do Enem 2026
O Enem 2026 será aplicado nos dias 8 e 15 de novembro. No primeiro domingo, os participantes farão a redação e as provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Serão 45 questões em cada área, além da produção do texto dissertativo-argumentativo.
No segundo domingo, 15 de novembro, serão aplicadas as provas de Matemática e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias, que abrangem conteúdos de Física, Química e Biologia. Cada área também terá 45 questões.
Nos dois dias, os portões serão abertos às 12h e fechados às 13h, no horário de Brasília. As provas começam às 13h30. No primeiro domingo, a aplicação termina às 19h. No segundo, o encerramento será às 18h30.
A redação deverá ser um texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas, elaborado a partir do tema proposto e dos textos motivadores. O participante deverá defender um ponto de vista com argumentos e apresentar uma proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.