No Brasil e no mundo, novos talentos jovens seguem surgindo e ganhando espaço como referência nas ciências exatas. Muitos deles vêm de escolas públicas, famílias simples e projetos educacionais que acreditam no poder transformador do estudo. Ainda assim, o percurso não é igual para todos, especialmente para as meninas.
Entre a casa e a escola, a rotina de Wylana Gabryelly sempre foi marcada pelo silêncio concentrado de quem aprende cedo a confiar nos próprios esforços. Estudante da rede pública do Piauí, ela transformou cadernos, exercícios e horas de estudo em um projeto de vida que agora aguarda seu momento decisivo: o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Enquanto milhões de estudantes vivem a ansiedade pela divulgação das notas, para ela o exame representa mais do que uma prova. É a possibilidade concreta de ingressar na universidade dos sonhos e seguir a carreira que escolheu ainda cedo: a Matemática.
“Eu amo matemática, eu gosto de resolver os problemas. Eu sinto que eu sou boa”, afirmou Gabryelly, com a segurança tranquila de quem construiu esse caminho passo a passo.
Durante séculos, mulheres brilhantes precisaram esconder suas identidades sob pseudônimos masculinos ou assinar suas descobertas com o sobrenome do marido para que seus trabalhos fossem reconhecidos. Apesar dos avanços, a presença feminina nas ciências exatas segue enfrentando desafios ligados à representatividade e ao acesso. É nesse cenário que a trajetória de Wylana ganha ainda mais força.
Quando os números viram linguagem
Desde cedo, resolver problemas deixou de ser apenas uma obrigação escolar. Para Wylana Gabryelly, os números se tornaram linguagem, curiosidade e desafio. A rotina simples foi sustentada por disciplina e incentivo constante.
“A maior parte do meu estudo foi na escola, por causa do ensino integral”, explicou. Fora dela, buscou plataformas digitais, cadernos de revisão disponibilizados pela Secretaria de Educação e, sobretudo, constância. “A minha vida inteira é estudando, da casa para a escola, da escola para casa”, resumiu.
Esse comprometimento chamou atenção em 2024, quando seu nome passou a circular entre professores e coordenação. Em junho, veio o convite inesperado para participar de um evento sem muitas explicações.
“A minha coordenadora me chamou e falou que a Seduc tinha mandado me levar para algum evento. Eles nem falaram qual era o evento, foi tudo muito sigiloso”, relembrou.
O dia em que o mundo se abriu
O evento era o Seduckathon, iniciativa da Secretaria de Educação do Estado do Piauí voltada à inovação e à tecnologia. Gabryelly participou sem saber exatamente o que estava em jogo, e quando descobriu que havia sido selecionada, a felicidade tomou conta de toda a família.
A seleção por mérito garantiu a ela algo que parecia distante para muitos estudantes da rede pública: um intercâmbio educacional internacional.
“Eu já liguei para a minha mãe e para a minha avó e falei: ‘eu vou viajar, vou ganhar um intercâmbio’”, relembrou.
Em agosto de 2025, Wylana embarcou para a Alemanha. Em Berlim, participou de atividades no Motion Lab, com aulas de animação, design gráfico, robótica, impressão 3D e tecnologia a laser. Também visitou pontos culturais e centros industriais, como a sede da Volkswagen, em Wolfsburg.
“Foi muito interessante também ter visitas aos pontos culturais de lá. Conhecer outro país foi incrível”, relatou. “As aulas eram em português, porque foi uma colaboração com uma instituição, de Lisboa. Era português de Portugal. Às vezes falavam rápido, mas dava para entender”.
A experiência ampliou horizontes e abriu o olhar para um mundo até então desconhecido, despertando o desejo de ir além e projetar o futuro para além das fronteiras conhecidas.
O futuro que já começou
O intercâmbio não representou um ponto final, mas um impulso. De volta ao Piauí, Wylana retomou a rotina de estudos com ainda mais clareza sobre seus objetivos e sobre o caminho que deseja seguir.
“Vai impactar positivamente, sim, porque eu pretendo, talvez, ir estudar fora alguma coisa. Eu quero cursar Matemática, fazer licenciatura”, afirmou.
Agora, a estudante aguarda o resultado do Enem entre ansiedade e esperança. O ingresso na universidade simboliza não apenas a realização de um sonho individual, mas a continuidade de um processo construído ao longo de anos, muito antes da prova.
Educação como herança
Na casa onde Wylana cresceu, a educação sempre foi tratada como prioridade. A avó, Antônia, acompanha cada passo da neta com orgulho e emoção.
“Eu fui vender comida na calçada para formar meu filho. Hoje ele é administrador. E aí veio a Wylana. É só orgulho para uma pessoa que vem da periferia, uma pessoa pobre, ter um filho formado e, brevemente, vai formar mais uma, a neta”, contou.
Para Antônia, a trajetória da neta é resultado de um esforço coletivo.
“As pessoas que acompanharam o dia a dia dela fizeram ela ser essa pessoa que ela é hoje. Sozinha ela não iria conseguir. Mas com a ajuda dos professores, do Ceti Professor Raldir Cavalcante Bastos, foi maravilhoso.”
A despedida para a Alemanha foi marcada por sentimentos mistos. A fé também atravessa esse caminho.
“Eu dizia: ‘Meu Deus, a Wylana vai chorar na Alemanha’. A gente nunca se separou, desde pequenininha”, contou. “Foi uma experiência boa e, ao mesmo tempo, triste. A gente ficava alegre, mas com saudade. Mas a gente entregou tudo a Deus, porque Deus é o pivô de tudo na nossa vida”, disse.
Quando um sonho puxa o outro
Assim como Wylana, outras jovens piauienses descobriram, ainda na escola pública, caminhos antes pouco acessíveis, especialmente nas ciências exatas e na tecnologia. Em um setor historicamente marcado pela predominância masculina, meninas começam a ocupar espaços.
No Piauí, o interesse feminino pela tecnologia começa a ganhar força e, em muitos casos, nasce nas salas de aula da rede pública. Aos 18 anos, Maria Rita é uma dessas jovens que decidiram atravessar esse território. Filha única de dona Thelma, moradora do bairro Burupi, em Teresina, ela divide a rotina entre o trabalho como jovem aprendiz em uma faculdade da capital e os estudos para o Enem.
Se o universo da Tecnologia da Informação ainda é majoritariamente masculino, os números ajudam a dimensionar o desafio. Pouco mais de 16% dos profissionais da área são mulheres. Em uma das profissões mais demandadas do mercado, a engenharia de software, esse percentual cai para 13,3%.
O interesse pela área da tecnologia surgiu de forma inesperada. Até então, Maria Rita não se imaginava atuando no universo da programação. A mudança aconteceu após a participação no Hackathon, durante o desenvolvimento de um aplicativo.
“Foi aí que eu descobri todo esse mundo da engenharia de software e da programação, e foi quando eu me apaixonei de verdade”, contou.
A experiência resultou na criação do Aprende Comigo, aplicativo desenvolvido em grupo com foco na inclusão de jovens com deficiência auditiva, intelectual e visual. Para isso, os estudantes precisaram ir além da parte técnica.
“A gente teve contato com pessoas com essas deficiências, pesquisou bastante e tentou entender como essas pessoas vivem com essas limitações”, explicou. O projeto conquistou o primeiro lugar na competição.
Sonhos que atravessam fronteiras
Além da tecnologia, Maria Rita também construiu, de forma autodidata, um repertório linguístico que chama atenção. Por iniciativa própria, aprendeu espanhol, inglês, coreano, mandarim, japonês e um pouco de alemão, tudo de maneira informal.
“Eu aprendi online, com jogos, assistindo jornal e fazendo algumas atividades disponíveis na internet. Foi mais por diversão mesmo”, disse.
O contato com outras culturas ampliou metas. Ela imagina atuar fora do país e tem o desejo de trabalhar em grandes empresas de tecnologia.
“Tenho muito interesse em entrar para a Microsoft. Trabalhar com eles seria uma boa oportunidade para mim, já que eu falo algumas línguas e gostaria de colocar isso em prática”, destacou.
Ao projetar o futuro, Maria Rita mencionou um cenário simples, mas significativo: estabilidade, tranquilidade e a possibilidade de ajudar a família por meio do próprio trabalho — um objetivo que, assim como para Wylana, passa diretamente pelo acesso à universidade.
Sobre o Enem, ela reconheceu os desafios emocionais da prova.
“É muito tempo sentado, muita pressão. Às vezes isso me deixa insegura”, afirmou. Ainda assim, mantém a esperança. “Mas eu acredito!”
Juntas, essas trajetórias revelam que o caminho da educação pública não é linear, mas é possível. São histórias que nascem em salas de aula simples, atravessam projetos educacionais e cruzam fronteiras.
Na continuidade da série Do Enem para o Mundo, outras trajetórias mostram como a escola pública pode se tornar um ponto de virada para quem sonha em transformar a própria realidade por meio da educação.