A décima eleição presidencial desde a redemocratização chega ao fim neste domingo (25), com dois cenários históricos possíveis. Se o senador Flávio Bolsonaro (PL) vencer a disputa, poderá consolidar uma concentração inédita de poder político em torno da família Bolsonaro na Nova República. Já uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representaria a primeira virada presidencial registrada no país após um candidato terminar o primeiro turno atrás do adversário.

Em caso de vitória, Flávio se juntaria, a partir do próximo ano, a outros integrantes da família eleitos para cargos no Legislativo: Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Jair Renan. O cenário também se desenha um ano após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula, por sua vez, poderá conquistar o quarto mandato presidencial. Se reeleito, chegará a 16 anos no comando do Palácio do Planalto, considerando os períodos de governo anteriores e um novo mandato. O total ficaria dois anos abaixo do tempo em que Getúlio Vargas ocupou a Presidência durante a República, entre 1930 e 1945 e de 1951 a 1954.

Pesquisas apontam disputa acirrada

Os levantamentos divulgados na véspera da votação indicaram uma disputa apertada, com ligeira vantagem numérica para Flávio Bolsonaro. Pesquisas Quaest e Datafolha apontaram o senador com 51% das intenções de votos válidos, contra 49% de Lula, dentro da margem de erro dos levantamentos.

O cenário mantém a indefinição que marcou a campanha desde o início. Caso o resultado se confirme, a eleição terá uma diferença em relação à disputa de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1% dos votos válidos, em um resultado com percentuais próximos, mas em sentido inverso ao apontado pelas pesquisas atuais.

Cabina de votação | Foto: Meio News 

Campanha teve mobilização e debate econômico

No primeiro turno, pesquisas indicavam pouco interesse de parte do eleitorado pela campanha. Em outubro, porém, a disputa ganhou força, com atos de apoiadores da direita e da esquerda em diferentes regiões do país.

Na véspera da votação, manifestações em apoio a Flávio e Lula reuniram milhares de pessoas em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. O debate transmitido pela TV Globo também mobilizou o público e gerou vídeos que circularam nas redes sociais.

Ao longo das três semanas de campanha do segundo turno, os candidatos passaram a discutir propostas de governo com mais frequência. Antes disso, os escândalos envolvendo o INSS e o Banco Master e as disputas internas no Supremo Tribunal Federal (STF) haviam ocupado parte significativa do debate público.

Apesar da mudança de foco, os dois candidatos foram questionados sobre a falta de detalhamento de algumas propostas. Na economia, Flávio prometeu um ajuste de R$ 200 bilhões no Orçamento, mas não apresentou detalhes sobre quais despesas seriam reduzidas nem como ampliaria a arrecadação sem aumentar impostos.

Lula, por sua vez, lançou medidas com impacto fiscal estimado em R$ 300 bilhões. A campanha, contudo, não esclareceu completamente como as novas políticas seriam conciliadas com a redução da relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB), que ultrapassou 81%. Durante a campanha, o presidente minimizou a necessidade de ajuste fiscal, mesmo diante do crescimento do endividamento.

Candidatos mudaram posições durante a campanha

A disputa também foi marcada por mudanças de posicionamento em temas relevantes. Flávio passou a defender o fim da escala de trabalho 6x1 durante a tramitação da proposta no Senado, pauta que havia recebido críticas de parlamentares do PL ao longo dos anos.

Lula, por sua vez, falou pela primeira vez sobre a possibilidade de reduzir a maioridade penal para crimes hediondos, em meio às discussões sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública no Congresso Nacional.

Nos debates televisivos, os candidatos também protagonizaram confrontos pessoais. Depois de evitarem embates com outros adversários no primeiro turno, Flávio e Lula trocaram acusações e ofensas nos encontros promovidos pela Band e pela TV Globo, com referências como “miliciano” e “ladrão”.

Próximo presidente terá desafios no Congresso

Independentemente do resultado, o clima de polarização da campanha deverá influenciar o próximo mandato. Caso seja eleito, Flávio Bolsonaro terá entre os principais desafios políticos as pautas relacionadas à situação judicial do pai, à anistia dos condenados pelos atos de 8 de janeiro e ao impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Se Lula vencer, precisará negociar com um Congresso Nacional de composição adversa ao governo, no qual o PL deverá ter a maior bancada na Câmara dos Deputados e no Senado. A articulação parlamentar será decisiva para a aprovação das propostas apresentadas durante a campanha.

A votação deste domingo definirá não apenas quem ocupará a Presidência da República a partir de 2027, mas também qual desses cenários políticos marcará o próximo capítulo da história recente do país.