O custo de um eventual ajuste fiscal e seus efeitos sobre a população pautaram o discurso do presidente Lula neste sábado (10), em Natal, antes de uma caminhada no Rio Grande do Norte. Ao questionar o plano de corte de até R$ 250 bilhões anunciado como “tesouraço” pela campanha de Flávio Bolsonaro, Lula cobrou explicações sobre quais despesas seriam reduzidas e afirmou que medidas de austeridade tomadas por candidaturas que representam a elite historicamente recaem sobre os mais pobres e preservam os setores mais ricos da economia.

“Quando o meu adversário diz que vai cortar R$ 250 bilhões, que vai ter um tesouraço, é preciso que a sociedade comece a se perguntar de onde é que vai ser esse corte”, disse o presidente. “Eu não conheço ninguém da elite brasileira que governou esse país que teve coragem de cortar dos ricos, dos banqueiros, dos empresários, do sistema financeiro, dos fazendeiros. Sempre corta dos pobres”.

Lula contrapôs as discussões ao cenário que diz ter encontrado ao retornar à Presidência, em 2023, e citou a recuperação de políticas sociais e de mecanismos de valorização da renda. 

“Quando eu voltei, tinha corte no Farmácia Popular, no Minha Casa Minha Vida, na creche, no ensino médio, no salário mínimo, que há sete anos não subia acima da inflação. Tinha corte para os aposentados também que não recebiam acima da inflação”, recordou.

“Quando o meu adversário diz que vai cortar R$ 250 bilhões, que vai ter tesouraço, é preciso que a sociedade comece a se perguntar de onde é que vai ser esse corte. Eu não conheço ninguém da elite que governou esse país que teve coragem de cortar dos ricos, dos banqueiros, dos empresários, do sistema financeiro, dos fazendeiros. Sempre corta dos pobres”, disse Lula.

Caminhada em Natal (RN) neste sábado - Foto: Ricardo Stuckert  

COMBUSTÍVEL – A defesa da atuação do Estado para proteger o poder de compra também apareceu na fala sobre a alta internacional do petróleo. Lula citou os conflitos geopolíticos e os efeitos sobre o mercado de energia para justificar as medidas adotadas pelo Governo Federal para conter o repasse dos preços externos aos consumidores brasileiros.

“Nós temos uma guerra na Rússia que já dura cinco anos, temos uma guerra no Irã com os Estados Unidos que trouxe um prejuízo extraordinário ao povo do mundo inteiro, porque por conta do estreito de Ormuz você tem aumento do combustível, da gasolina, do diesel”, afirmou.

Na sexta-feira (9), o governo anunciou novas medidas para amortecer a pressão sobre os preços dos combustíveis, como já vem adotando desde o início do conflito. O decreto zerou temporariamente os tributos federais PIS/Pasep, Cofins e Cide incidentes sobre a gasolina, elevando a desoneração para R$ 0,89 por litro de gasolina A. A medida vale por 30 dias, com possibilidade de prorrogação. O pacote também prorrogou a desoneração do etanol, ampliou a subvenção aos produtores do biocombustível e concedeu auxílio adicional de R$ 1,40 por litro aos importadores de diesel rodoviário. O investimento nas novas medidas é de R$ 5,2 bilhões em 30 dias, custeado com recursos do lucro excedente da Petrobras com a exportação do petróleo em alta.  

Lula afirmou que a arrecadação gerada pelo setor petrolífero permite ao governo financiar medidas para amortecer os efeitos da crise internacional. “Ao contrário do mundo inteiro, no Brasil hoje a gasolina diminuiu, porque a gente está utilizando o dinheiro do petróleo, que a Petrobras exporta, estamos subsidiando para que o preço da guerra não chegue ao povo brasileiro. Não chega no feijão do povo, não chega no pão do povo, não chega no leite do povo”, completou.

VERDADE E MENTIRA

Ao ampliar o discurso para além da economia, Lula apresentou a eleição como uma escolha sobre o modelo de país que os brasileiros desejam para o futuro. O presidente relacionou a disputa política à capacidade de garantir oportunidades em áreas como educação, saúde, cultura e emprego, em um cenário internacional que classificou como incerto.

“Eu estou dizendo à sociedade que estamos vivendo um momento de aferição se o mundo quer viver uma mentira ou uma verdade. O importante é que precisamos evitar a prevalência da mentira”, afirmou. Em seguida, questionou quais oportunidades o país pretende oferecer às próximas gerações e defendeu que o debate seja orientado pelas consequências concretas das propostas em discussão.

NORDESTE

 Lula citou ainda a expansão das universidades e dos Institutos Federais no Nordeste, a transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina e os canais do sertão na Bahia e em Alagoas como exemplos de iniciativas que, segundo ele, ampliaram as oportunidades de desenvolvimento na região.

“E é esse Nordeste que eu quero que continue crescendo, porque não quero tirar nada de nenhuma parte do Brasil. A única coisa que eu quero é que o Nordeste tenha a mesma oportunidade que os outros estados”, declarou.

O presidente relacionou os investimentos à necessidade de garantir condições para que os jovens ingressem e permaneçam na educação e, com isso, alcancem melhores posições no mercado de trabalho. 

“O que nós queremos é que o jovem brasileiro tenha o direito de estudar. Ele tem que ter oportunidade, tem que ter financiamento, tem que ter lugar para dormir, tem que ter o Pé-de-Meia”.

É o Nordeste dizendo o que é respeito, o que é democracia, o que é mais educação, o que é mais emprego, o que é mais cultura, o que é mais emprego de qualidade, o que é mais universidade. É o Nordeste dizendo: nós não seremos mais tratados como invisíveis, nós existimos, nós somos brasileiros e brasileiras”, concluiu.