Do Enem para o Mundo: alunos do Piauí mostram como o ensino integral abre portas para o conhecimento

Estudantes João Kevi, Enzo e Rodrigo transformaram dedicação e projetos de tecnologia em oportunidades internacionais, mostrando o impacto da escola de tempo integral

Alunos usando tablets em sala de aula
Estudantes da rede estadual partem para intercâmbio educacional e tecnológico em Singapura | Reprodução/ Governo do Piauí

Ainda é madrugada quando o saguão do Aeroporto Petrônio Portella começa a se encher de mochilas, documentos e despedidas apressadas. Entre filas de embarque e orientações de última hora, um grupo de adolescentes da rede pública do Piauí se prepara para uma grande experiência: viajar para fora do país por mérito acadêmico.


Entre os estudantes estão João Kevi, Enzo e Rodrigo. Eles integram a equipe vencedora da competição e observam o movimento do aeroporto com curiosidade e expectativa. A viagem representa a primeira experiência internacional e a confirmação de que oportunidades concretas.

Vestindo uniformes com as cores da bandeira do estado, os jovens seguem para Singapura após vencerem o Seduckathon, uma maratona de tecnologia promovida pelo Governo do Estado. Eles carregam na bagagem o resultado de meses de estudo, trabalho coletivo e confiança na educação pública como caminho possível.

Entre sorrisos e nervosismo, estudantes se despediram antes do intercâmbio em Singapura (Foto: Eliaquim de Paula/ Meionews)

Ponto de partida

Para Enzo, o interesse pela tecnologia não surgiu como um plano antigo, foi consequência do processo vivido no projeto.

“Por conta dessa experiência nova que eu tive nesse concurso, o SeducKathon, eu descobri minha paixão pela área da tecnologia. Eu sempre gostei de mexer em celular, então foi por causa desse concurso que eu descobri qual é a minha vocação”, disse.

A partir desse contato, novas possibilidades começaram a fazer parte do horizonte do estudante. O que antes era apenas uma brincadeira ou curiosidade, hoje se transforma em aprendizado.

Ao explorar ferramentas digitais, aplicativos e plataformas online, os estudantes começam a perceber como a tecnologia se entrelaça com praticamente todas as áreas do conhecimento e do mercado de trabalho.

Pequenas descobertas no dia a dia da escola ou de projetos extracurriculares podem despertar vocações, mostrando que o mundo digital é muito mais do que entretenimento: é oportunidade.

“Atualmente, eu estou me inspirando em engenharia de software ou em cibersegurança. São grandes áreas, com grandes mercados de trabalho abertos.”

 Preparo e constância antecederam os resultados

A vitória no Seduckathon foi precedida por uma rotina intensa de preparação.  Ainda segundo Enzo, o processo envolveu ao menos sete meses de estudos, conciliando atividades em grupo e dedicação individual.

“De preparação foram, no mínimo, sete meses. Estudo em grupo, tanto eu quanto a minha equipe, e também na minha parte pessoal. Muitas vezes a gente ia dormir de madrugada, com professor perguntando sobre isso e aquilo.”

O ensino em tempo integral teve papel decisivo na trajetória. A ampliação do tempo na escola possibilitou contato com novas áreas e acompanhamento mais próximo dos professores.

O desempenho dos estudantes das escolas estaduais de tempo integral nas iniciativas acadêmicas evidencia a importância dessa modalidade de ensino. A ampliação da jornada escolar vai além do aprendizado. Mais horas na escola permitem que os alunos tenham contato com novas áreas do conhecimento, desenvolvam habilidades práticas e sociais, e descubram interesses que podem orientar escolhas profissionais futuras.

Essa abordagem pedagógica contribui para a formação completa do estudante e para a redução das desigualdades educacionais.

“A escola de tempo integral ajudou muito. Abriu a minha mente, porque vieram novos cursos, principalmente na área de tecnologia e segurança. Foi aí que eu me encantei”, contou.

Um projeto, novos caminhos

Orientados pelos professores Marcos, de informática, e Antônio de Deus, os estudantes desenvolveram o aplicativo EduMoney, voltado para auxiliar alunos beneficiários do programa federal Pé-de-Meia no gerenciamento financeiro.

A conquista garantiu ao grupo uma vaga em um intercâmbio educacional internacional. Ao todo, 20 estudantes participam desta etapa da viagem para Singapura. Desde a criação do programa, 120 alunos piauienses já foram contemplados com intercâmbios em seis países de diferentes continentes.

Professor Marcos acompanhou de perto a criação do aplicativo EduMoney pelos estudantes (Foto: Eliaquim de Paula/ Meionews)


Antes mesmo do embarque, os estudantes já se preparavam para as diferenças culturais que encontrariam. Entre conversas, orientações e risadas nervosas, surgiam dúvidas e curiosidades sobre o país de destino. A experiência de Enzo se cruza com a de João Kevi. Para ele, cada detalhe da viagem representa uma primeira vez: o avião, a bagagem, o contato com uma realidade completamente nova.  

“A gente tá indo pela primeira vez. Até andar de avião é a primeira vez. Tá sendo algo surreal”, compartilhou João.

A mãe, a agricultora rural Socorro Luz, levou o filho até o aeroporto. A despedida dos dois misturou orgulho e apreensão.

“Eu prefiro nem ficar imaginando como vai ser essa noite, porque já começo a querer derramar lágrimas. A gente só é eu e ele. Ele é a minha companhia, mas eu não posso prender ele perto de mim, porque ele tem a vida dele para seguir. Ele sendo feliz, automaticamente eu sou feliz também”, disse.


Turma unida por sonhos e dedicação partiu rumo a novas experiências em Singapura  (Foto: Eliaquim de Paula/ Meionews)


Rodrigo, integrante do grupo de jovens talentos, também vê na viagem uma chance de aprofundar os aprendizados.

“A expectativa está muito grande. Quero adquirir muito conhecimento e estudar bastante. Quero continuar na área de desenvolvimento de sistemas. Meu projeto de vida é arrumar um emprego e ter uma vida boa”, disse, com a certeza de que cada experiência dali ajudaria a construir esse caminho. 

O orgulho de Rodrigo também é compartilhado dentro de casa. Para o pai, cada conquista do filho é resultado de esforço e dedicação, mas também de um apoio constante que se constrói há anos.

“Hoje eu sou só orgulho. Muito orgulho do meu filho. Não tenho nem palavras para falar, é muita emoção. Ele conquistou isso com mérito dele, com notas, com projeto, com participação. Está indo para fora do país por esforço próprio. Desde pequeno a gente sempre falou: estudar, estudar, que tudo ficaria mais fácil para ele no futuro.”

O pai lembrou ainda da infância de Rodrigo, marcada por pequenas responsabilidades na roça, mas sem perder o incentivo ao estudo. 

“Ele já trabalhou na roça, sim. Era criança ainda, trabalho leve. Mas eu sempre falei para ele: a roça ficou para nós. Ele tem que estudar, procurar melhoria pra vida dele”, completou.

Quando apoiadas por políticas consistentes e pelo esforço cotidiano de estudantes e educadores, essas historias podem se resultar em mobilidade social concreta — vivida, sentida e compartilhada.

Além das fronteiras

Para esses jovens talentos, o apoio da família funciona como alicerce diante da ansiedade de embarcar para o desconhecido. Cada abraço, cada conselho e cada lembrança da infância servem como combustível para enfrentar desafios e descobrir novos horizontes.

No aeroporto, as despedidas inauguram outros ciclos. A viagem não oferece respostas prontas, mas amplia repertórios, referências e possibilidades.

Na continuidade da série Do Enem para o Mundo, outras histórias revelam como o incentivo dentro de casa, o cotidiano familiar e as escolhas feitas ainda na infância podem se tornar pilares decisivos na construção de futuros.

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