Produtores que inspiram

Do mato à produtividade: crédito rural transforma realidade de casal no Piauí

Com apoio de programas de microcrédito, produtores ampliam renda, adotam tecnologia e impulsionam a economia local

Imagem principal sobre energias renováveis no Brasil
Casal | Foto: Alecio Rodrigues

Na localidade Formosa, zona rural sudeste de Teresina, uma propriedade que já foi apenas mata hoje produz leite, alimenta rebanhos e gera renda. A transformação, construída ao longo de quase três décadas, tem como ponto de partida o acesso ao crédito rural.

Beneficiários de programas como o PRONAF e o Agroamigo, do Banco do Nordeste, o casal Maria Nancy Correia Cunha e José Barbosa Filho viu a realidade mudar desde o primeiro financiamento, contratado em 1998. 

Foto: Alecio Rodrigues


Vindos de Pernambuco em meados da década de 1990, eles chegaram ao Piauí com poucos recursos e apenas quatro vacas. A produção era limitada e dependia quase exclusivamente da força de trabalho manual. A proprietária comenta como se deu o processo de instalação longe de casa, e como conseguiu conquistar as terras que hoje são o seu sustento.

“O que eu plantava, batia o verão e morria. Quando a gente comprou o terreno, o pessoal dizia que ele não prestava, mas eu respondia que o dinheiro da gente só dava pra comprar aquele. Mas hoje tá o melhor da região. Nós trouxemos quatro vacas, eu gostava muito de cavalo, porque aqui não tem onde criar cavalo, mas ainda tem ali. Quatro vacas, uma égua, um podo, um jumento de lote. Aí a gente trouxe os bichinhos, até as galinhas nós trouxemos. Cachorro, gato, tudo. Pato, que criava lá, mas vendeu. Uma parte do gado que a gente tirava leite, a gente vendeu para completar o dinheiro do terreno aqui. Aí escolhi quatro vacas ”, conta Nancy.

CRÉDITO COMO PONTO DE VIRADA

O primeiro financiamento, de cerca de R$ 15 mil, permitiu iniciar a estruturação da área, com plantio de capim e implantação de sistemas rudimentares de irrigação. A partir daí, novos créditos impulsionaram o crescimento da atividade. Para Nancy, o impacto foi imediato e decisivo: “Desde o primeiro. Se não fosse esse crédito, a gente estava parado no tempo.”

Ao longo dos anos, o casal adotou uma estratégia contínua de reinvestimento, ampliando o rebanho e melhorando a infraestrutura. “A gente vai trabalhando, vai apurando o gado e vai investindo. Buscamos comprar mais vaca, porque o gado da gente era pouquinho, aí comprei mais quatro vacas e fizemos uma cocheira aqui".

Hoje, a propriedade trabalha com bovinocultura de leite e também com cria, recria e engorda de animais.

TECNOLOGIA REDUZ CUSTOS

Um dos avanços mais recentes veio com a instalação de energia solar, também viabilizada por financiamento. Antes disso, o custo da energia elétrica era um dos principais entraves para a produção. Sem condições de manter a irrigação, a produção foi interrompida e parte da estrutura chegou a ser danificada durante o período seco.

“A última energia que nós pagou foi dois mil e trezentos reais. Aí paramos, não deu pra aguentar. Teve um incêndio que queimou tudo, até as mangueiras que a gente usava pra irrigação. A mudança está sendo agora com as placas, que a gente paga menos na energia. A energia aqui é pra irrigar. Aí quando a gente botou a energia solar que a gente voltou aí. Agora esse ano que a gente vai mesmo bombar porque a gente vai ter energia pra irrigar o pastos do gado".

Com a energia solar, o cenário mudou: “Agora daqui pra frente nós vamos acelerar a produção, porque antes a gente vendia o leite, mas não dava para comprar ração boa. E principalmente a ração pra elas, porque pra essa condição de vaca leiteira tem que ser uma ração concentrada".

Atualmente, cerca de três hectares são irrigados, garantindo alimento para o rebanho e reduzindo a dependência de insumos externos.

Conjunto de placas solares instaladas na propriedade- Foto: Alecio Rodrigues

PRODUÇÃO, RENDA E ECONOMIA

A produção de leite pode chegar a até 120 litros por dia, dependendo do período. Parte é vendida diretamente a compradores, e outra parte é transformada em produtos derivados, como doce de leite.  A diversificação das atividades ajuda a estabilizar a renda e diminuir a dependência de intermediários.

O leiteiro vem pegar, dependendo do leite que eu tenho, até 120 litros de leite ele leva, por dia. O pessoal que vem comprar aqui. Eu também faço doce. Agora eu não tô fazendo queijo não, parei o queijo. Mas doce de leite faço e vendo. Eu tenho clientela que compra pra revender, eu levo pra cidade também, vendo lá no centro pra revender. Ah, pra consumir o pessoal compra pouco, mas eu faço aí. Tem um senhor também que ele vende queijo, quando ele quer ele encomenda 40, 50 potinhos. E vai divulgando, não faz propaganda com ninguém, a propaganda a maioria é quem faz o cliente.”, explica Nancy.


Foto: Alecio Rodrigues

DISCIPLINA NO USO DO CRÉDITO

Apesar dos benefícios, Nancy faz um alerta sobre a responsabilidade no uso do financiamento. Para ela, o crédito é uma ferramenta de crescimento, mas exige planejamento e dedicação.

Pra solicitar o crédito tem que ter juízo, cabeça e ter consciência que você vai ter que pagar. Você vai ter que trabalhar com dinheiro, mas quando chegar o dinheiro você tem que pagar. A gente terminou o empréstimo, o Mauricio (gerente) veio aqui oferecer outro e nós estávamos com dois empréstimos. Eu disse pra ele deixar a gente terminar um que foi um curto e foi outro maior. Aí um venceu em agosto e o outro venceu em novembro A gente está no meio de maio, e colocou essa energia, então já está sem mais uma conta para nós pagar, mas eu pedi calma. Eu estou com a garroteira aqui, a gente tá fazendo o dinheiro do Banco", brincou.

A experiência da família reflete um movimento mais amplo no estado. Segundo o economista Márcio Braz, o microcrédito rural tem papel estratégico no desenvolvimento regional.

O micro crédito rural tem um papel estratégico no desenvolvimento social e econômico dos estados mais pobres do país por funcionar como um instrumento de inclusão da população mais vulnerável do campo no aparelho produtivo da economia. A assistência técnica, sempre vinculada a esse tipo de financiamento assegura que o crédito cumpra esse papel e alcance os objetivos discutidos nas questões seguintes.

Márcio Braz/economista- Foto: arquivo pessoal

De acordo com ele, o acesso ao crédito permite que pequenos produtores invistam em equipamentos e insumos, aumentando a produção e a produtividade.

A geração de emprego e renda no meio rural é fortemente influenciada pelo crédito já que permite ao micro produtor rural investir na aquisição de máquinas, equipamentos e insumos (como fertilizantes) que aumentam simultaneamente a sua capacidade de produção e a sua produtividade.

O fortalecimento da agricultura familiar e da economia rural passa, diretamente, pela ampliação do acesso ao crédito. O economista Márcio Braz aponta que linhas de financiamento voltadas aos pequenos produtores têm papel estratégico na inclusão produtiva, na geração de renda e no desenvolvimento econômico local.

Devemos observar que o acesso ao crédito, notadamente aquele fornecido à agricultura familiar, ao funcionar como instrumento de inclusão produtiva permite aos pequenos agricultores e aos trabalhadores rurais permite a formalização de pequenos negócios e reduz a dependência destes agentes econômicos ao crédito informal e à determinação do preço de seus produtos por aqueles que fazem a intermediação deles com os consumidores de seus produtos. Esse processo permite que se apropriem de uma fatia maior do valor gerado pelo seu trabalho. É importante observar também que o crédito ao pequeno produtor dinamiza e economia local, já que compra no comércio local, dinamizando feiras e mercados e, dessa forma, gera empregos indiretos. 


Ministro destaca programas de crédito

A história da agricultora Maria Nancy e do marido, José Barbosa foi destacada pelo ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, como exemplo dos resultados alcançados pelas políticas de crédito voltadas à agricultura familiar. Segundo o ministro, a trajetória da família demonstra como o acesso ao financiamento rural pode promover inclusão produtiva, ampliar a renda e garantir melhores condições de vida para pequenos produtores.

Ao comentar o caso, Wellington Dias ressaltou que programas como o Pronaf e o Agroamigo têm papel fundamental no fortalecimento da produção agrícola em regiões de menor renda. De acordo com o ministro, o crédito rural vai além da concessão de recursos financeiros e funciona como uma ferramenta capaz de estimular o desenvolvimento econômico e social das comunidades rurais.

"A experiência da dona Nancy mostra exatamente o que defendemos para o Brasil: quando o crédito chega acompanhado de assistência técnica e oportunidade, ele transforma vidas. O que antes era uma área com baixa produtividade hoje gera renda, produz alimentos e cria perspectivas para toda a família", destacou.


Inclusão produtiva

Wellington Dias observou que o fortalecimento da agricultura familiar é uma das estratégias do Governo Federal para ampliar a produção de alimentos e gerar oportunidades no campo. Segundo ele, histórias como a da produtora rural de Teresina demonstram que o acesso ao financiamento permite investimentos em infraestrutura, aquisição de equipamentos e adoção de tecnologias que aumentam a produtividade.

"Quando uma família consegue investir, ampliar a produção e comercializar seus produtos, estamos falando de desenvolvimento local, geração de renda e combate à pobreza de forma sustentável", afirmou.


Ministro Wellington Dias - Foto: Roberta Aline

O ministro também destacou a importância da energia solar como instrumento para reduzir custos de produção e tornar a atividade agropecuária mais eficiente. Na propriedade da família, a instalação do sistema fotovoltaico permitiu retomar a irrigação das áreas de pastagem, garantindo alimentação para o rebanho durante períodos de estiagem e ampliando a capacidade produtiva.

"É um exemplo de como a inovação e a tecnologia podem estar ao alcance dos pequenos produtores. O acesso ao crédito possibilita investimentos que antes pareciam distantes e que hoje fazem toda a diferença para a sustentabilidade da atividade rural", avaliou.


Números do crédito no Piauí

Os dados do Banco do Nordeste reforçam essa expansão. Em 2025, foram liberados R$ 3,3 bilhões em crédito no estado, considerando todas as linhas voltadas ao setor rural. Desse total, R$ 1,08 bilhão foi destinado ao programa Agroamigo, voltado à agricultura familiar. Ao todo, foram realizadas 83 mil operações no ano — um crescimento de 7,1% em relação a 2024.

Fonte: Banco do Nordeste

O valor médio dos financiamentos é de R$ 13,4 mil, com taxa de adimplência de 97,79%, o que indica alto nível de pagamento por parte dos beneficiários.

Efeito na economia regional

Além do impacto direto nas propriedades, o crédito também gera efeitos mais amplos. Segundo relatório do Banco do Nordeste, os financiamentos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) resultaram em um acréscimo estimado de R$ 34,6 bilhões no Valor Bruto da Produção regional em 2024. O setor rural lidera esse impacto, com cerca de R$ 12,5 bilhões.

Um modelo que se multiplica

Criação: Alecio RodriguesHoje, com produção estruturada e custos mais controlados, a expectativa da família é continuar crescendo. A experiência mostra como o acesso ao crédito, aliado ao trabalho contínuo, pode transformar realidades no campo. Nancy resume a lógica que guiou a trajetória da propriedade: “Tem três coisas: água, energia e gente com coragem pra trabalhar. Não tem terra ruim.”