Por décadas, milhares de teresinenses aprenderam a conviver com uma rotina que jamais deveria ser normal: acordar durante a madrugada para encher baldes; caminhar quilômetros carregando recipientes pesados; escolher entre tomar banho, cozinhar ou lavar roupa; ver crianças brincando ao lado de valas improvisadas e conviver com o medo constante de doenças.
Em muitos bairros da capital, a água não era uma certeza. Era uma espera. Era assim no Jacinta Andrade, na Santa Maria da Codipi, na Vila Santa Bárbara e em tantas outras comunidades que cresceram sem a infraestrutura necessária para acompanhar o desenvolvimento da cidade.
Crianças brincam em vala na zona leste de Teresina, registro de outubro de 2014 (Foto: Moisés Saba/Meio Norte)Hoje, essa realidade começa a fazer parte da memória. A pergunta proposta por esta reportagem é simples: O saneamento salva. Mas salva como?
A resposta está nas histórias de quem viveu a transformação.
QUANDO A ÁGUA VINHA DE MADRUGADA
Em outubro de 2014, uma reportagem do Jornal Meio Norte retratava uma realidade dura no Residencial Jacinta Andrade.
Durante o dia, as torneiras permaneciam secas. À noite, famílias inteiras saíam pelas ruas em busca de alguma fonte improvisada de abastecimento.
Moradores de bairros de Teresina acordavam de madrugada para tentar captar um balde de água (Foto: José Alves Filho/Meio Norte)
Moradores carregavam baldes, galões e tambores para garantir água suficiente para sobreviver ao dia seguinte. A dona de casa Lucinete de Andrade relatava que precisava buscar água longe de casa porque simplesmente não havia abastecimento regular.
Perto das eleições tinha água, pra adular o povo, mas depois que passou voltou a faltar água de novo. A gente pega água perto da parada final, porque na torneira mesmo não sai nada. E nesse calorão fica ainda mais difícil.
Denilson Santos carregava água para a própria residência e para a casa de vizinhos. O esforço repetitivo chegou a causar problemas na coluna.
Nos lugares que têm água, a gente vai buscar sofrendo ameaça. O pessoal de lá diz que não pode, que estamos roubando água. As casas onde não mora ninguém tem água, mas onde tem gente morando não tem. Moro aqui há dois anos e não tenho água na torneira.
Nesse cenário degradante, lavar roupas se transformava em um luxo. Tomar banho exigia planejamento. Beber água limpa era um desafio diário.
Quando se pensa em Teresina então... o calor intenso do B-R-O-BRÓ tornava a situação ainda mais cruel. Naquele período, a escassez não era uma exceção. Era a regra.
A HUMILHAÇÃO DE CARREGAR ÁGUA
Poucos dias depois, outra reportagem mostrava uma cena igualmente dramática na Vila Santa Bárbara, zona Leste.
Sem abastecimento, moradores quebraram uma proteção de concreto instalada sobre uma tubulação para conseguir acesso à água. Ali se formou uma espécie de ponto improvisado de abastecimento. Gestantes, idosos e crianças enfrentavam filas. Baldes se acumulavam. Garrafas PET viravam reservatórios.
A aposentadoria de Antônio dos Reis, então com 70 anos, não o livrava da necessidade de carregar peso diariamente.
Eu carrego de manhã e não tenho mais condições de fazer isso, estou velho para carregar tanto peso.
Grávida, à época, de 8 meses, Maria Souza chegou a passar mal ao carregar água (Foto: Moisés Saba/Meio Norte)
À época, gestante de oito meses, Maria Souza, relatou ter passado mal após buscar água. Ela foi flagrada pelo fotojornalista Moisés Sabah carregando um carrinho de mão.
Eu estou grávida de oito meses e vim pegar água, acabei passando mal, fui para na maternidade. Isso não é certo, tenho medo que aconteça algo de pior. O médico disse para que eu repousasse e não pegasse peso, mas não tem jeito, não tem água para beber, para banhar, para nada e eu me sinto obrigada a vir até esse cano quebrado buscar.
Empresários fechavam as portas por não conseguirem manter seus negócios funcionando.
Cileide Moura, dona de pizzaria no Santa Bárbara, relatou que precisou transportar louças para outro bairro apenas para conseguir lavá-las. A água, elemento essencial para a vida, havia se transformado em um obstáculo.
Recentemente tive que encher o carro com louça suja para ir lavar no Bairro São Pedro. É algo humilhante.
O DIA EM QUE A TORNEIRA VOLTOU A TER SENTIDO
Nove anos depois, o cenário é outro. No Residencial Lindalma Soares, zona Norte da capital, moradores celebram algo que para muitos brasileiros parece simples: abrir a torneira e encontrar água.
A implantação da rede de abastecimento atenderá mais de 10,8 mil moradores, impactando não apenas na vida cotidiana, como também na economia e toda a dinâmica da região.
Obra no Lindalma Soares impacta a vida de milhares de teresinenses (Foto: Águas de Teresina)
Para Vanessa Rodrigues, a mudança é difícil de colocar em palavras. Durante anos, a água vinha de ligações improvisadas e precárias. Hoje, ela fala sobre a realização de um sonho.
"Poder abrir a torneira, ter água para beber, cozinhar e lavar, era algo distante da nossa realidade."
A transformação também mudou a rotina de Lucimar Correia.
"Antes a gente pegava água em balde. Agora uso filtro, tomo banho de chuveiro e lavo roupa na máquina. Isso é qualidade de vida."
O que mudou não foi apenas o abastecimento. Mudou a relação dessas famílias com a dignidade.
MAIS QUE ÁGUA, CIDADANIA
O impacto da chegada da água tratada vai além do conforto. Com a regularização dos serviços, muitas famílias passaram a ter acesso a algo fundamental para exercer a cidadania: o comprovante de residência.
Um documento aparentemente simples que abre portas para matrículas escolares, programas sociais, acesso bancário e diversos outros direitos.
O saneamento não entrega apenas infraestrutura. Ele entrega pertencimento. Entrega inclusão. Entrega oportunidades.
QUANDO O ESGOTO DEIXA DE CORRER PARA O RIO
Se a água salva dentro das casas, o esgotamento sanitário salva fora delas.
José Francisco conhece bem essa realidade. Há mais de vinte anos vivendo da pesca no Rio Poti, ele acompanhou de perto o avanço da degradação ambiental. Ano após ano, observava o crescimento do lançamento de esgoto sem tratamento nas águas. Até que a situação começou a mudar.
Pescador José Francisco destaca a importância do tratamento de esgoto (Foto: Ravi Lages/Meio News)
Com a ampliação dos sistemas de esgotamento sanitário implantados pela Águas de Teresina, José percebeu algo que os números depois confirmariam.
A piora parou. E começou a dar lugar à recuperação.
Quando o sistema da Zona Leste começou a funcionar, a gente percebeu uma diminuição daquele problema.
UMA CIDADE QUE COMEÇOU A RESPIRAR MELHOR
Quando a concessionária assumiu os serviços, em 2017, Teresina possuía apenas 19% de cobertura de coleta e tratamento de esgoto. Hoje, esse índice supera 60%. É uma mudança histórica.
Durante mais de 160 anos, a capital acumulou um déficit sanitário que a colocava entre os piores índices do país. Em menos de uma década, o avanço foi suficiente para triplicar a cobertura. Por trás dos números existem benefícios concretos:
Menos doenças.
Menos contaminação ambiental.
Mais valorização imobiliária.
Mais qualidade de vida.
ESCOLA SANEADA, FUTURO PROTEGIDO
Os efeitos do saneamento também aparecem dentro das salas de aula. Na Escola Municipal Noélia Maranhão, no Vale do Gavião, a realidade era marcada pela proximidade com áreas de esgoto a céu aberto.
Imagem de felicidade e futuro: alunos da escola Noélia Maranhão vivem uma nova realidade com o saneamento básico (Foto: Francy Teixeira/Meio News)
As consequências chegavam rapidamente às salas de aula: alunos adoeciam; faltavam às aulas; tinham o aprendizado prejudicado. Após a implantação do projeto Escola Saneada, a situação mudou. A diretora Ana Cristina Magalhães lembra que o índice semanal de faltas chegava a 20%. Hoje, a frequência aumentou e a saúde dos estudantes melhorou.
Os dados acompanham essa transformação.
Entre 2017 e 2021:
- As internações por diarreia caíram 68%;
- Os casos de dengue reduziram 66%;
- As hospitalizações relacionadas diminuíram cerca de 20%;
- Os casos de chikungunya despencaram.
O saneamento não apenas protege a saúde. Ele protege o futuro. Cada criança saudável permanece mais tempo na escola. Cada dia de aula representa uma oportunidade a mais de aprendizado.
UMA OBRA QUE NÃO TERMINA NA TUBULAÇÃO
Desde 2017, mais de R$ 1,3 bilhão foram investidos em obras e melhorias no sistema de água e esgoto de Teresina.
Entre os avanços estão:
- Construção da ETA Norte;
- Modernização da ETA Sul;
- Perfuração de 137 poços;
- Implantação de 24 sistemas de bombeamento;
- Instalação de adutoras;
- Universalização da água tratada na área urbana regular.
Atualmente, a cidade conta com mais de 3 mil quilômetros de rede de abastecimento, atendendo mais de 826 mil pessoas.
Na Santa Maria da Codipi, onde moradores conviviam historicamente com problemas de abastecimento, novas obras seguem ampliando a segurança hídrica para milhares de famílias.
O QUE O SANEAMENTO SALVA?
A resposta está nas histórias espalhadas pelos bairros de Teresina. Está na gestante que não precisa mais carregar baldes.
No idoso que deixou de percorrer quilômetros atrás de água. Na criança que falta menos à escola. No comerciante que consegue manter seu negócio funcionando. No rio que recebe menos esgoto. Na família que passou a viver com mais saúde e dignidade.
O saneamento salva porque transforma necessidades básicas em direitos garantidos. E, quando isso acontece, ele não leva apenas água tratada ou coleta de esgoto.
Ele leva saúde. Leva cidadania. Leva oportunidades. Leva futuro.
E é justamente por isso que, em Teresina, a história do saneamento também é a história de vidas que foram transformadas.
O saneamento salva e muda vidas (Foto: Montagem/Águas de Teresina)

