Em abril deste ano o golpe da “falsa loja” ocupou a segunda posição no ranking das modalidades mais frequentes registradas no Piauí, causando um prejuízo de R$360 mil apenas neste período. A estudante, Amanda Macedo, foi uma das consumidoras lesadas por este tipo de fraude.
Enquanto navegava pela internet, a jovem de 22 anos se deparou com o falso anúncio de uma loja que já era cliente e se atraiu pelo preço de uma suposta promoção. Ela iria descobrir algum tempo depois que o site que acessou através de um link nas redes sociais não era verdadeiro.
Vi que a loja estava oferecendo uma proposta muito boa em um pacote com muitos produtos nerds. Eu fui entrar no site da loja, vi ali tudo certinho, chequei se havia o cadeado, porque quando tem o cadeadinho no site, significa que o site é seguro, que ele não é um site suspeito para você fazer uma compra. A página me redirecionou para o endereço do Google. Fui lá, vi que estava aparentemente tudo direitinho, entrei para fazer o cadastro. Não era uma compra, de fato era um sorteio acreditando eu que fosse sobre o aniversário da loja, semana do cliente, mês do consumidor, algo do tipo. Fiz lá e efetuei a suposta compra, relatou a jovem.
Mesmo após dias, os produtos não chegaram ao endereço de Amanda que desconfiou e resolveu contatar a loja.
“A pessoa me respondeu que não havia nenhum pedido com o código que eu enviei. E a atendente me notificou que eu havia caído num golpe, que era um site clonado”, completou.
Ao tomar consciência que havia sofrido um golpe, ela registrou um boletim de ocorrência. Mesmo assim, a consumidora afirma ter ficado desnorteada de como agir após o golpe por falta de instrução.
Eu não sabia qual órgão correto para entrar em contato. Eu fiz a denúncia para a polícia e o caso foi arquivado. Porque eu perguntei para pessoas ao meu redor: "Ah, o que que eu faço quando eu entro nessa situação de golpe? O que que eu faço quando eu caio num golpe?". Me disseram que eu tinha que denunciar, compartilhou a jovem.
A ESCASSEZ DE INFORMAÇÕES
A história de Amanda revela algo importante: a falta de informações no momento de buscar alternativas ao sofrer um golpe pode tornar o processo mais difícil ao consumidor.
Dados do Alerta Digital, iniciativa do Ministério Público do Piauí/Procon, em parceria com a Secretária de Segurança do Piauí, revelaram que a média de golpes diários em abril deste ano era de 19 casos, sendo que 77 municípios do Piauí já foram afetados pelo crime.
Fachada do MPPI - Foto: Arquivo/meionews
O crescimento de fraudes no estado impulsionou a criação do Alerta Digital, plataforma que nasceu da necessidade de orientar a população de como se proteger de golpes ao mesmo tempo que reúne dados sobre o crime tornando-os públicos para consulta.
O assessor técnico do MPPI/PROCON, Ricardo Alves, afirmou ao meionews.com que o órgão buscou por uma medida eficaz para educar os consumidores sobre os riscos da criminalidade.
“Percebemos que os criminosos estão realmente causando muito transtorno ao consumidor. Então, nós como Procon decidimos tomar uma atitude para ajudar essas pessoas”, afirmou.
A falta de dados explícitos também foi uma barreira que o programa em atuação desde de 2025 se propôs a superar. Por isso, a parceria com a SSP-PI foi necessária.
Na época, a gente não sabia sequer qual era o golpe mais frequente e o que vimos em termos de educação eram delegados falando sobre na televisão. Percebemos que era apenas uma voz. A gente entendeu que isso podia ser melhorado através de estímulos visiuais, explicou Ricardo reforçando que o Alerta Digital apostou em unir dados de forma dinâmica com estímulos visuais que atraíssem a atenção do consumidor.
ALERTA DIGITAL: O QUE FAZ NA PRÁTICA?
Uma reunião realizada em junho de 2025 entre a equipe do projeto e o então secretário de segurança da época Chico Lucas deu início a iniciativa.
A plataforma passou a disponibilizar aos cidadãos informações como a tipificação das fraudes, o balanço dos boletins de ocorrências registrados, a média de casos diários, o monitoramento dos municípios e como identificar quando um golpe está sendo aplicado por uma rede criminosa.
A ideia ganhou destaque internacional sendo citada até mesmo no relatório anual de 2025 da Global Anti-Scam Alliance, organização holandesa criada para proteger os consumidores de fraudes e golpes online em todo o mundo.
Além das orientações já citadas, o Alerta Digital também criou um quiz interativo pelo qual o cidadão tem seus conhecimentos testados sobre as fraudes mais praticadas no estado. A funcionalidade conta com dez questões que devem ser respondidas em até 90 segundos e os usuários passam a ser classificados por desempenho em cinco categorias.
O QUE DEVO FAZER EM CASO DE GOLPE?
O Alerta Digital se torna útil na orientação do consumidor em caso de fraudes. Mas o que fazer caso caia em um golpe? Quais os primeiros passos e providências?
Segundo Ricardo, o Procon orienta que no primeiro momento o consumidor verifique a forma de pagamento: “Geralmente, quando você cai em golpe existe entre você e o golpista uma instituição financeira. Então, se havia um cartão de crédito você tenta avisar o banco imediatamente para contestar aquela compra”, orientou.
Infográfico explicativo sobre a atuação do Alerta Digital - Foto: Gerado por IA
No entanto, o assessor explicou que os golpistas tendem a preferir pagamentos via Pix por ser uma forma instantânea de receber os valores. Ele orientou que o consumidor fique atento a lojas que só aceitam essa modalidade de transferência já que é um indício de uma possível fraude.
O Procon também orienta:
Cuidado com promoções ou preços muito abaixo do mercado;
Atenção com mensagens enviadas por números desconhecidos e com caráter de urgência;
Caso seja vítima de golpe, acione o Mecanismo Especial de Devolução (MED) disponível para contestar transferências
Ainda segundo Ricardo, o MED ainda é a forma mais eficaz do consumidor ter o dinheiro perdido rastreado pelas instituições financeiras mesmo que os golpistas realizem transferências para outras contas bancárias. Por isso, a importância de contestar previamente o pagamento e em caso de não resolução procurar a Polícia Civil ou o próprio Procon.
FINALISTA EM PREMIAÇÃO NACIONAL
O Alerta Digital é finalista do prêmio anual do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) na categoria de Comunicação Social. O resultado do ganhador deve ser divulgado em novembro.
Mesmo com as contribuições feitas pela plataforma na defesa do consumidor, golpes fraudulentos são recorrentes no Piauí, tanto que foram contabilizados, no último balanço do Alerta Digital, um prejuízo que ultrapassa os R$2 milhões.
Consumidores como Amanda Macedo, citada no início da reportagem, ainda são alvos de grupos criminosos. A estudante reconhece que caso tivesse tido a orientação necessária após ser vítima de golpe, o cenário teria sido outro.
Se eu tivesse entrado em contato com o órgão correto, provavelmente o valor teria sido estornado para mim, eu teria recebido o valor que eu gastei na suposta compra e teriam me orientado melhor sobre: "Olha, cuidado com esse tipo de golpe, cuidado com esse tipo de site, com esse tipo de perfil que você encontra nas redes sociais". Teria sido sim uma abordagem diferente, finalizou a jovem.