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Cientistas descobrem molécula que 'mata de fome' células cancerígenas

Estudo identifica mecanismo que desacelera crescimento de tumores sem afetar tecidos saudáveis, mas aplicação clínica ainda é incerta

Molécula “espelho” mostra potencial para frear câncer | Foto: Reprodução/Redes Sociais
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Uma estratégia considerada promissora, embora ainda distante da prática clínica, surge como nova aposta no combate ao câncer: o uso de uma versão “espelhada” de um aminoácido para frear o crescimento de células tumorais sem afetar tecidos saudáveis.

O achado foi descrito por pesquisadores das universidades de Genebra e Marburg, em estudo publicado na revista Nature Metabolism. A pesquisa aponta o potencial da D-cisteína, uma forma rara do aminoácido cisteína, de interferir diretamente no metabolismo de células cancerígenas.

Como funciona a “molécula espelho”

A descoberta parte de um conceito conhecido na biologia: algumas moléculas existem em duas versões quase idênticas, como imagens refletidas no espelho, semelhantes na composição, mas diferentes na estrutura espacial, como as mãos direita e esquerda.

No organismo humano, os aminoácidos aparecem predominantemente na forma “L”, que é reconhecida e utilizada pelas células. Já a versão “D”, embora semelhante, costuma ter participação limitada nos processos biológicos.

Foi essa forma “invertida” que os pesquisadores testaram. Nos experimentos, observaram que determinadas células tumorais possuem um transportador específico capaz de absorver a D-cisteína, algo menos comum em células saudáveis.

Ilustração com visão artística de célula cancerígena - Foto: AdobeStock

Interferência na produção de energia

Uma vez dentro da célula cancerígena, a D-cisteína atua em um ponto central do metabolismo: a produção de energia.

A substância bloqueia a enzima NFS1, que atua na mitocôndria, estrutura responsável por gerar energia celular. Sem essa enzima, a célula perde eficiência energética, acumula danos e reduz sua capacidade de se dividir.

Na prática, o efeito é comparável a um estado de “fome metabólica”: as células tumorais deixam de ter recursos para crescer e se multiplicar, desacelerando a progressão da doença.

Efeito seletivo é principal diferencial

Um dos aspectos mais relevantes da descoberta é o potencial de seletividade. Como a D-cisteína depende de um transportador mais presente em células tumorais, seu efeito tende a se concentrar nos tecidos afetados pela doença.

Essa abordagem contrasta com tratamentos tradicionais, que atingem indiscriminadamente células de rápida divisão.

Nos testes com camundongos com tumores mamários agressivos, os pesquisadores observaram redução significativa no crescimento dos tumores, sem sinais relevantes de toxicidade, um indicativo inicial de menor impacto em tecidos saudáveis.

Entre a promessa científica e a realidade clínica

Apesar dos resultados animadores, especialistas alertam que o caminho até a aplicação em humanos é longo. O oncologista Stephen Stefani, do Grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, ressalta que muitos avanços promissores não se confirmam na prática clínica.

Ter uma base teórica interessante e um racional biológico bem definido é um passo muito importante. É um bom início. Infelizmente, a imensa maioria dos bons conceitos não se traduz em ganhos reais para os pacientes.

Segundo ele, desafios como dose, segurança e interação com outros tratamentos ainda precisam ser superados.

uso como terapia complementar

Pelo mecanismo observado, a D-cisteína não atua diretamente destruindo células tumorais, mas reduzindo sua capacidade de multiplicação. Isso abre espaço para um possível uso como terapia complementar, associada a tratamentos já existentes.

É uma molécula que atrapalha a engrenagem de duplicação celular das células doentes, mas não das normais. Talvez não mate a célula, mas retarde o crescimento. Isso pode dar mais tempo para que outros tratamentos atuem.

Nesse cenário, a substância poderia ajudar a conter a progressão da doença ou reduzir o risco de metástases.

Próximos passos

Até agora, os resultados se limitam a estudos laboratoriais e testes em animais. Para avançar, a substância ainda precisa passar por todas as etapas de desenvolvimento clínico.

Os estudos de fase 1 devem avaliar segurança e dosagem em humanos. Já as fases seguintes analisam eficácia e comparam o novo tratamento com terapias existentes.

“É preciso entender se é viável usar em humanos, quais são os efeitos colaterais e se há benefício real em comparação ao que já temos”, conclui o especialista.

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