- Desinformação em saúde persiste anos após a pandemia, influenciando decisões e comprometendo a confiança nas instituições.
- Evento Pulso discutiu impactos das fake news e desafios da comunicação científica no Brasil, com dados revelando divisão na percepção da saúde.
- Redes de desinformação se tornaram mais sofisticadas, expandindo-se para temas como vacinação e tratamentos alternativos.
- Inteligência artificial é usada para buscar respostas rápidas, mas pode oferecer informações imprecisas e contribuir para a desinformação.
- Combate à desinformação exige esforço conjunto entre poder público, saúde, mídia e sociedade para reconstruir a confiança na saúde pública.
A pandemia de covid-19 deixou uma herança que ainda preocupa especialistas: a desinformação em saúde. Mesmo anos após o período mais crítico da crise sanitária, notícias falsas e informações sem comprovação científica continuam influenciando decisões da população e comprometendo a confiança em profissionais, instituições e políticas públicas de saúde.
O tema foi debatido durante o evento Pulso, promovido pelo Portal Drauzio Varella em parceria com o UOL, que reuniu médicos, pesquisadores e representantes do poder público para discutir os impactos das fake news e os desafios da comunicação científica no Brasil.
Segundo dados do Edelman Trust Barometer 2026 apresentados no encontro, 87% dos brasileiros acreditam que o país está dividido em questões relacionadas à saúde. Além disso, informações falsas ou distorcidas sobre vacinas, alimentação e medicamentos continuam sendo compartilhadas nas redes sociais e influenciando comportamentos. )
Fake news ganharam novas formas
Especialistas destacaram que as redes de desinformação se tornaram mais sofisticadas desde a pandemia. Se antes as notícias falsas estavam concentradas principalmente em temas relacionados à covid-19, atualmente elas se espalham por diferentes assuntos da saúde, como vacinação, tratamentos alternativos e uso de medicamentos.
A infectologista e epidemiologista Luana Araújo afirmou que o problema não desapareceu com o fim da emergência sanitária. Pelo contrário, as estratégias utilizadas para disseminar conteúdos enganosos passaram a atuar em diversas frentes, exigindo maior preparo dos profissionais de saúde e comunicadores.
Inteligência artificial e respostas rápidas preocupam
Outro ponto levantado durante o debate foi o crescimento do uso da inteligência artificial como ferramenta de busca de informações sobre saúde.
O biólogo e pesquisador Átila Iamarino alertou que muitas pessoas procuram respostas rápidas e simples para questões complexas. Nesse cenário, ferramentas baseadas em inteligência artificial podem oferecer respostas convincentes, mas nem sempre contextualizadas ou cientificamente precisas, dependendo da forma como são utilizadas.
Pesquisas indicam que justamente os usuários que mais recorrem à inteligência artificial para tirar dúvidas sobre saúde também estão entre os mais suscetíveis a acreditar em desinformação.
Desafios para a saúde pública
A disseminação de fake news não afeta apenas a opinião das pessoas, mas também pode comprometer políticas públicas. Durante a pandemia, informações falsas contribuíram para a resistência de parte da população em relação às vacinas e às medidas sanitárias.
Representantes do setor de saúde defendem que recuperar a confiança da população é um processo que exige transparência, comunicação acessível e presença mais ativa das instituições nos meios digitais.
Além disso, especialistas ressaltam que combater a desinformação vai muito além de simplesmente desmentir uma notícia falsa. É necessário investir em educação midiática e científica, ajudando as pessoas a identificar fontes confiáveis e compreender como as informações são produzidas e compartilhadas.
Desinformação pode ser considerada ameaça à saúde pública
Durante o evento, também foi discutida a necessidade de responsabilizar financeiramente e criminalmente organizações que lucram com a disseminação intencional de informações falsas relacionadas à saúde.
Para os especialistas, campanhas de desinformação podem colocar vidas em risco ao afastar pacientes de tratamentos comprovados, reduzir a adesão às vacinas e estimular o consumo de produtos sem eficácia científica.
A avaliação é que o combate às fake news em saúde depende de um esforço conjunto entre poder público, profissionais da saúde, imprensa, plataformas digitais e sociedade civil. Reconstruir a confiança perdida durante a pandemia é um processo lento, mas considerado fundamental para fortalecer a saúde pública nos próximos anos.