- Avanços médicos transformaram o HIV de uma doença fatal em condição crônica controlável.
- Em 2024, 256 mil casos de sífilis foram registrados, com alta incidência entre jovens adultos.
- Medicamentos e métodos preventivos eficazes não substituem a necessidade de prevenção consciente.
- Exames periódicos e conversas clínicas são essenciais para identificar e tratar infecções sexualmente transmissíveis.
- Combinação de estratégias de prevenção e acesso a recursos gratuitos são fundamentais para reduzir casos de IST.
Quem acompanhou o início da epidemia de aids, nas décadas de 1980 e 1990, certamente se lembra do medo que cercava o diagnóstico de HIV. Naquele período, não existiam tratamentos capazes de controlar a infecção como os disponíveis atualmente, e receber um resultado positivo era frequentemente associado a uma sentença de morte.
Quatro décadas depois, os avanços da medicina transformaram esse cenário. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, pessoas vivendo com HIV podem alcançar uma expectativa de vida próxima à da população geral. Além disso, quem mantém a carga viral indetectável não transmite o vírus por via sexual.
Apesar das conquistas, as infecções sexualmente transmissíveis (IST) continuam sendo um desafio para a saúde pública. O cenário levanta uma questão: por que, mesmo com mais acesso à informação e a métodos de prevenção, os casos continuam preocupando?
Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2024, a maior taxa de detecção de HIV entre os homens brasileiros foi registrada na faixa etária de 25 a 29 anos. A sífilis também exige atenção. Aproximadamente 256 mil casos adquiridos foram notificados no país naquele ano, com taxas elevadas entre adultos jovens.
Avanços da medicina podem mudar a percepção de risco
Seria simplista afirmar que os jovens deixaram de se preocupar com as infecções sexualmente transmissíveis. O comportamento sexual é influenciado por fatores culturais, emocionais e sociais, que vão além do conhecimento sobre saúde.
No entanto, a possibilidade de controlar o HIV com medicamentos e a existência de métodos preventivos eficazes podem influenciar a percepção sobre os riscos de uma relação desprotegida.
A profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP, é um exemplo. Quando utilizada corretamente, oferece alta proteção contra o HIV, mas não previne outras infecções, como sífilis, gonorreia, clamídia e HPV.
Da mesma forma, o fato de uma IST ter tratamento não significa que seja inofensiva. Quando não diagnosticada e tratada, a sífilis pode comprometer diferentes órgãos e sistemas, incluindo o nervoso e o cardiovascular, além de provocar consequências graves durante a gestação.
Informação nem sempre se transforma em prevenção
Atualmente, informações sobre transmissão, sintomas e prevenção das IST estão disponíveis com poucos cliques. Ainda assim, conhecer as recomendações médicas não significa necessariamente incorporá-las à rotina.
A sexualidade envolve desejo, confiança, vínculos afetivos e decisões que nem sempre são tomadas de maneira racional. O consumo de álcool, a dificuldade de negociar o uso do preservativo e a sensação de segurança em relacionamentos estáveis também podem influenciar o comportamento.
Em algumas relações duradouras, por exemplo, os parceiros deixam de utilizar preservativos sem necessariamente terem realizado exames para verificar se possuem alguma infecção.
Outro fator de risco é associar a ausência de sintomas à inexistência de uma doença. Clamídia, gonorreia e sífilis podem permanecer sem manifestações evidentes durante determinados períodos. Assim, uma pessoa pode se sentir saudável e, ainda assim, transmitir uma IST.
Por isso, esperar o aparecimento de feridas, corrimentos ou outros sinais para procurar atendimento não é uma estratégia segura. A realização de exames e o acompanhamento médico são importantes para identificar infecções precocemente.
Clínico geral também tem papel na prevenção
A saúde sexual precisa ser compreendida como parte integrante da saúde geral. Assim como o médico investiga hábitos alimentares, atividade física, tabagismo e histórico familiar, conversar sobre sexualidade também deve fazer parte da avaliação clínica, especialmente entre adolescentes e adultos jovens.
Essa abordagem permite identificar situações de vulnerabilidade, esclarecer dúvidas e recomendar medidas preventivas de acordo com o histórico e as práticas sexuais de cada paciente.
Entre as estratégias estão a realização de exames periódicos, a vacinação contra hepatite B e HPV, o uso de preservativos e os métodos específicos de prevenção do HIV, como a PrEP e a profilaxia pós-exposição (PEP).
O atendimento também precisa oferecer um ambiente de confiança, privacidade e ausência de julgamentos. Vergonha, medo de exposição e dificuldade para conversar sobre sexo ainda afastam muitas pessoas dos serviços de saúde. Quando o assunto é tratado com naturalidade durante a consulta, aumentam as oportunidades de orientação e diagnóstico precoce.
A prevenção combinada, que reúne diferentes medidas de proteção, é uma das principais estratégias de enfrentamento das IST. Muitas dessas ferramentas estão disponíveis gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). O desafio é ampliar o conhecimento sobre esses recursos e facilitar o acesso de quem precisa.
A medicina conseguiu transformar o HIV de uma infecção frequentemente fatal em uma condição crônica controlável. Essa conquista deve ser celebrada, mas não pode levar à banalização das infecções sexualmente transmissíveis.
Não é necessário recuperar o medo que marcou as gerações anteriores, mas fortalecer a consciência de que cuidar da saúde sexual é tão importante quanto controlar a pressão arterial, manter a vacinação em dia ou realizar exames preventivos. Os recursos de prevenção existem e são eficazes. O desafio é transformar o conhecimento em atitudes que evitem novas infecções.