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Mentira compulsiva existe? Entenda o que a ciência diz sobre mitomania

Apesar de não ser um diagnóstico formal, padrão de mentiras frequentes pode indicar sofrimento psicológico e outros transtornos

Mentira compulsiva existe? Entenda o que a ciência diz sobre mitomania | Foto: Freepik
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A chamada mentira compulsiva, também conhecida como mitomania, é um comportamento caracterizado por mentiras frequentes, persistentes e difíceis de controlar, segundo estudos científicos recentes. Embora não seja reconhecida como um diagnóstico formal nos principais manuais de psiquiatria, o fenômeno tem sido analisado por pesquisadores e especialistas por estar associado a sofrimento psíquico, prejuízos sociais e possíveis transtornos mentais. O tema ganhou destaque após pesquisas apontarem que um pequeno grupo de pessoas concentra a maior parte das mentiras no cotidiano.

Diferença entre mentira comum e compulsiva

Estudos indicam que a maioria das pessoas mente ocasionalmente, geralmente com um objetivo específico, como evitar punições ou constrangimentos. Esse tipo de comportamento é considerado pontual e consciente. Já a mentira compulsiva se diferencia pela repetição e pela perda de controle sobre o ato de mentir.

Segundo o psicanalista Christian Dunker, a mentira comum tem uma finalidade clara. “A mentira presume um desejo de enganar o outro, uma intencionalidade. Ela é contextual, tem um objetivo claro”.

Por outro lado, na mitomania, esse controle deixa de existir.
“A ideia de uma patologia da mentira implica uma espécie de coerção. A pessoa não consegue não mentir”.

Mentira compulsiva existe? Entenda o que a ciência diz sobre mitomania — Foto: Freepik 

Quando a mentira vira um problema

Pesquisadores apontam que a mentira compulsiva não costuma ser um transtorno isolado, mas sim um sintoma de outras condições psicológicas. Entre elas, estão transtornos de personalidade, ansiedade e depressão.

O psiquiatra Paulo Rogério Aguiar explica que o comportamento funciona como um sinal de alerta.
“A mentira compulsiva é quase sempre um sintoma, e não um transtorno autônomo. Ela funciona como um sinal de alerta para investigar condições mais profundas”.

Estudos também mostram que mentir é mais comum na infância e adolescência, mas tende a diminuir na vida adulta. Quando esse padrão persiste, pode indicar um quadro atípico e maior risco de problemas comportamentais.

O que leva uma pessoa a mentir compulsivamente

Não existe uma causa única para a mitomania. Especialistas apontam que o comportamento pode resultar de uma combinação de fatores, como baixa autoestima, necessidade de atenção, impulsividade e dificuldade em lidar com frustrações.

Na análise psicanalítica, a mentira pode funcionar como uma forma de construção de identidade.
“A mentira é uma versão das nossas fantasias, daquilo que gostaríamos de ser. Ela pode virar uma ficção que domina o próprio sujeito”, afirma Dunker.

Em alguns casos, a pessoa passa a criar uma narrativa sobre si mesma.
“Há situações em que o sujeito vai inventando uma narrativa imaginária, criando um personagem para si”.

Relação com a realidade e impactos

Um dos aspectos mais complexos da mentira compulsiva é a relação entre verdade e invenção. Embora o indivíduo geralmente saiba que está mentindo, a repetição constante pode tornar essa fronteira menos clara.

“Existe uma zona em que fato, crença e fantasia se misturam. Às vezes, o próprio sujeito passa a duvidar do que é verdade”, explica Dunker.

Os impactos desse comportamento vão além do ato de mentir. Entre as consequências estão perda de credibilidade, rompimento de vínculos sociais, isolamento e agravamento de quadros emocionais.

Mentira: até que ponto é saudável? — Foto: AdobeStock

Há tratamento?

Especialistas apontam que há tratamento, mas ele depende de avaliação individual. Como a mitomania costuma estar ligada a outros transtornos, o acompanhamento envolve terapia psicológica e, em alguns casos, tratamento psiquiátrico.

O diagnóstico exige cuidado para diferenciar a mentira ocasional de um padrão persistente. Ainda assim, a ciência avança na compreensão do fenômeno, buscando identificar suas causas e impactos no comportamento humano.

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