O Programa da Tarde, da TV Meio Norte, entrevistou nesta quinta-feira (19) Hawanna Cruz Ribeiro, que se tornou tetraplégica em 2017. Três anos depois, ela participou como voluntária do tratamento experimental com a polilaminina.
A proteína produzida a partir da placenta humana tem reacendido a esperança de pacientes com lesão na medula espinhal, condição que pode provocar perda parcial ou total dos movimentos e ainda não possui tratamento capaz de reverter completamente os danos. A substância, chamada polilaminina, é estudada há mais de duas décadas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A proposta dos pesquisadores é que a substância estimule a regeneração das fibras nervosas, favorecendo a formação de novas conexões e a recuperação de funções motoras e sensoriais.
Confira a entrevista completa:
Segundo a atleta, o primeiro contato com a informação sobre a pesquisa ocorreu no fim de 2019, por meio da fisioterapeuta responsável por seu acompanhamento. À época, o estudo ainda era mantido em sigilo e voltado apenas para pacientes em fase aguda da lesão.
“A polilaminina foi feita para pacientes agudos, e não era meu caso [...] fiquei feliz por quem fosse receber, mas triste, afinal eu quero levantar também. Um tempo depois a pesquisadora Tatiana entrou em contato comigo, perguntando se eu toparia participar de um teste da polilaminina em casos crôncicos”, relatou.
Meses depois, a pesquisadora responsável pelo estudo entrou em contato para convidá-la a participar de testes voltados a casos crônicos.
Início do tratamento em meio à pandemia
A pandemia de Covid-19 atrasou parte do cronograma, mas Hawanna conseguiu iniciar o tratamento experimental no fim de 2020.
“No final de 2020 eu apliquei, e mais alguns casos crônicos, e com o tempo, eu fui vendo muita coisa mudar, mesmo não conseguindo seguir o protocolo de fisioterapia intensa [...], mas fui notando a sensibilidade voltar", contou.
Inicialmente desenvolvida para pacientes com até 72 horas de lesão (casos agudos), a terapia passou recentemente a incluir também pacientes subagudos, com até três meses do trauma. Já os casos crônicos ainda dependem de critérios específicos dentro dos protocolos de pesquisa.
Entre o medo e a decisão
Hanna admite que sentiu receio ao aceitar participar do estudo, principalmente diante dos riscos inerentes a um tratamento experimental, mas seguiu em frente ao processo:
“Sem pensar duas vezes eu aceitei a topei, assinei os documentos, sabendo dos riscos. [...] Obviamente deu medo, principalmente quando estava assinando os termos, mas não pensei duas vezes.”
Como funciona o procedimento
De acordo com a voluntária, o procedimento foi indolor e ocorreu sem complicações.
A gente é sedado, eles colocam alguns eletrodos que passam os choques, e fazem imagens da nossa medula para saber onde está a cicatriz, em caso crônico. Eles aplicam através de uma agulha, que é bem fina e foi super tranquilo.
Avanços relatados após seis anos
Seis anos após o início do tratamento, Hanna relata avanços significativos. Além do retorno parcial da sensibilidade, ela afirma ter recuperado controle do tronco, da bexiga e do intestino, além de ganho de massa muscular — aspectos fundamentais para autonomia e qualidade de vida.
Embora os resultados ainda estejam em fase de estudo e avaliação científica, os relatos reforçam a expectativa de que a polilaminina possa representar um avanço no tratamento de lesões medulares.
Pesquisa brasileira e protagonismo feminino
Para Hanna, o trabalho conduzido pela pesquisadora Tatiana Sampaio representa um marco para a ciência nacional. Ela classificou a iniciativa como “revolucionária” e destacou o fato de a pesquisa ser desenvolvida por uma cientista de universidade pública.
A voluntária também ressaltou a importância da valorização das mulheres na ciência e do investimento contínuo nas universidades públicas brasileiras, fundamentais para o desenvolvimento de pesquisas de alto impacto social.