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Austrália vai sacrificar cães selvagens ligados à morte de turista canadense

Governo de Queensland afirma que animais representam “risco inaceitável” à segurança pública

O corpo de Piper James foi encontrado em uma praia na ilha K’gari com mordidas de dingo | Foto: Todd James
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O governo do estado australiano de Queensland anunciou neste domingo (25) que irá sacrificar dez dingos ligados à morte da turista canadense Piper James, de 19 anos, na ilha de K’gari, após laudos apontarem ferimentos compatíveis com mordidas do animal. A decisão ocorre depois de uma semana de monitoramento da matilha, considerada agressiva e uma ameaça à população e aos visitantes.

O corpo de Piper James foi encontrado na última segunda-feira (19), enquanto era atacado por um bando de dingos. O resultado da autópsia, divulgado no sábado (24), indicou “evidências físicas compatíveis com afogamento e ferimentos compatíveis com mordidas de dingo”. O laudo ainda aponta que as marcas de mordida pré-morte provavelmente não causaram morte imediata e que também foram encontradas “extensas marcas de mordida de dingo pós-morte”.

Na Ilha de K'Gari, na Austrália, é comum encontrar dingos na praia — Foto: Getty Images 

Investigação segue em andamento

Os legistas ainda aguardam resultados de exames patológicos para definir com precisão a causa da morte, processo que pode levar várias semanas. Nos últimos dias, especulações indicavam que a jovem teria entrado no mar para escapar dos animais antes de se afogar.

Segundo um porta-voz do Departamento de Meio Ambiente de Queensland, os guardas florestais acompanharam de perto o grupo envolvido no incidente e observaram comportamento agressivo, classificando os dingos como um “risco inaceitável à segurança pública”.

Decisão do governo

O ministro de Meio Ambiente do estado, Andrew Powell, afirmou que os animais serão “removidos e sacrificados de forma humanitária”.
“Esta tragédia afetou profundamente os habitantes de Queensland e comoveu pessoas em todo o mundo. Esta é uma decisão difícil, mas acredito que seja a decisão correta no interesse público”, declarou.

A ilha de K’gari abriga cerca de 150 moradores e uma população estimada de 200 dingos. Conhecidos como wongari na língua do povo Butchulla, os canídeos são considerados sagrados e fazem parte do patrimônio cultural da ilha, reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO.

Praia selvagem na ilha de K’gari, antes conhecida como Fraser Island, na Austrália — Foto: Getty Images 

Críticas de povos tradicionais

A secretária da Butchulla Aboriginal Corporation, Christine Royan, criticou duramente a medida e classificou a ação como um “extermínio”. Segundo ela, seis animais já teriam sido abatidos no sábado (24), sem consulta ou aviso prévio aos povos tradicionais da ilha.
“Este governo não tem respeito pelos povos das Primeiras Nações. É uma vergonha”, disse Royan.

Ataques em alta e turismo excessivo

Os encontros violentos entre dingos e humanos têm se tornado mais frequentes nos últimos anos. Em 2023, uma mulher foi atacada enquanto fazia jogging na praia e correu para o mar para escapar. Em 2024, um dingo foi morto a tiros com uma arma de arpão, e outros foram abatidos após novos ataques.

Especialistas apontam que o aumento do turismo tem agravado os conflitos. Centenas de milhares de visitantes passam pela ilha anualmente, e alguns alimentam os animais para tirar fotos, o que altera o comportamento natural da espécie.

Risco ambiental

Para o Comitê Consultivo do Patrimônio Mundial de K’gari (KWHAC), o turismo excessivo está colocando pessoas e dingos em rota de colisão. A presidente do grupo, Sue Sargent, afirma que essa convivência ameaça “destruir o balanço ecológico da ilha”.

O professor Bradley Smith, da Universidade Central de Queensland, também criticou a decisão e alertou para impactos ambientais severos.

“A menos que se corrija a forma como os humanos na ilha se comportam em relação aos dingos, o problema nunca será resolvido. Portanto, isso vai acontecer novamente”, afirmou.

Espécie protegida

Os dingos são o único cão nativo da Austrália, descendentes de lobos do sul da Ásia, e são considerados uma espécie protegida. Ainda assim, em áreas do continente, esses animais frequentemente são envenenados, presos em armadilhas ou abatidos por conta de ataques ao gado.

A decisão do governo de Queensland reacendeu o debate entre preservação ambiental, segurança pública e respeito às comunidades tradicionais, enquanto a investigação sobre a morte de Piper James segue em andamento.


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