- Antoneudo Ribeiro e Júlia Natália foram indiciados por homicídio qualificado após serem acusados de matar e incendiar o soldado Raphael Sampaio.
- Investigação aponta que Antoneudo efetuou os disparos que atingiram Raphael na cabeça, enquanto Júlia teria participado da queima do corpo.
- Imagens de câmeras mostram o deslocamento dos veículos e a presença de Antoneudo próximo ao local do crime, reforçando a hipótese de sua participação.
- Lesão térmica no punho de Antoneudo e a versão contraditória de Júlia sobre o sequestro reforçam a suspeita de envolvimento direto no crime.
- Polícia Civil afirma que os indícios convergem para a participação do casal, que permanece preso aguardando decisão do Ministério Público.
Uma série de elementos reunidos pela Polícia Civil do Ceará aponta que Antoneudo Ribeiro Lima Júnior foi o responsável pelos disparos que mataram o soldado Raphael Sampaio da Silva e, posteriormente, teria participado da ação para atear fogo no corpo da vítima. Ele e a esposa, a policial militar Júlia Natália Girão, foram indiciados e permanecem presos.
Segundo o relatório final da investigação, Raphael foi atingido por disparos principalmente na região posterior do crânio. A análise da dinâmica do crime levou os investigadores a considerar plausível que o atirador estivesse atrás e ligeiramente à esquerda da vítima.
Imagens de videomonitoramento mostram o carro de Raphael deixando o 16º Batalhão da Polícia Militar durante a madrugada e seguindo até a rua onde Júlia e Antoneudo moravam. Na sequência, um segundo veículo, identificado posteriormente como um veículo comprado por Antoneudo, aparece próximo ao automóvel do soldado.
Imagens registraram possíveis disparos
De acordo com a investigação, o veículo se posicionou atrás do carro de Raphael. Poucos minutos depois, imagens registraram clarões atrás do veículo, que, segundo os investigadores, seriam os disparos de arma de fogo.
A perícia apontou que Raphael foi atingido três vezes na cabeça. Embora as imagens não mostrem diretamente quem efetuou os disparos, a Polícia Civil afirma que o conjunto de evidências converge para a hipótese de que Antoneudo tenha sido o autor.
O relatório destaca que a análise dos vídeos, dos deslocamentos dos veículos e de outros elementos investigativos permite considerar plausível que Antoneudo tenha desembarcado do carro antes dos disparos. A própria investigação ressalta, porém, que os registros audiovisuais não permitem afirmar essa individualização de forma conclusiva.
Outro elemento apontado pela Polícia Civil foi a presença de impressões papilares de Antoneudo no interior do carro. O veículo também foi registrado posteriormente trafegando próximo ao local onde Raphael e o carro foram encontrados carbonizados.
Queimadura no pulso
Raphael Sampaio foi encontrado morto e carbonizado dentro do próprio carro, em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. O veículo relacionado a Antoneudo foi registrado a apenas 226 metros do local onde ocorreu a carbonização.
Além dos registros de deslocamento, os investigadores encontraram outro elemento que, segundo o inquérito, pode relacionar Antoneudo à queima do corpo e do automóvel.
Um exame de lesão corporal realizado no marido da policial identificou uma queimadura no punho direito, com características compatíveis com uma lesão térmica de segundo grau.
Para a Polícia Civil, a lesão representa um elemento adicional compatível com a hipótese de que Antoneudo tenha participado diretamente da ação de atear fogo no carro e no cadáver do soldado.
Versão de sequestro é questionada pela investigação
Após o homicídio, Júlia apresentou à polícia a versão de que havia sido sequestrada. Segundo o relato apresentado por ela, teria sido retirada do local após Raphael ser atingido pelos disparos e colocada no porta-malas de um veículo.
No entanto, imagens de câmeras de segurança mostraram Júlia e Antoneudo juntos poucas horas depois do crime. Os dois foram registrados levando a filha à escola e, posteriormente, indo a uma oficina.
Júlia também foi vista usando um vestido rosa na oficina. Mais tarde, quando foi encontrada em Aquiraz, ela ainda estava com a mesma roupa. Segundo a investigação, a versão apresentada por ela entrou em contradição com registros objetivos obtidos durante o inquérito.
A Polícia Civil afirma que a conduta de Júlia antes e depois do homicídio constitui elemento relevante para apontar sua participação no crime. Entre os pontos considerados pelos investigadores está o fato de ela ter buscado trabalhar no mesmo plantão de Raphael e ter deixado o batalhão acompanhada pelo soldado.
Polícia aponta motivação passional
De acordo com o inquérito, Raphael e Júlia mantinham um relacionamento extraconjugal. Os dois eram casados com outras pessoas e, segundo testemunhas, costumavam se encontrar após o serviço.
Ainda conforme os depoimentos, Antoneudo sabia do relacionamento e demonstrava ciúmes. Testemunhas também relataram que Júlia chegou a mostrar uma fotografia de Raphael ao marido.
Na véspera do homicídio, Raphael teria contado a uma pessoa próxima que ele e Júlia planejavam assumir publicamente o relacionamento e se divorciar dos respectivos cônjuges. Para a Polícia Civil, esses elementos sustentam a hipótese de motivação passional para o crime.
Casal foi indiciado
A Polícia Civil afirma ter reunido indícios suficientes de que Júlia Natália e Antoneudo atuaram juntos no homicídio, com divisão de tarefas. O casal foi indiciado por homicídio qualificado, com qualificadoras relacionadas ao recurso que dificultou a defesa da vítima e ao motivo torpe.
O indiciamento representa a conclusão da Polícia Civil sobre a existência de elementos que apontam para a participação dos investigados. A partir dessa etapa, o caso é encaminhado ao Ministério Público do Ceará, que poderá oferecer ou não denúncia. Caso a denúncia seja apresentada e aceita pela Justiça, os investigados passam à condição de réus.
A defesa de Júlia, representada pelo advogado Walmir Medeiros, informou que pretende pedir a soltura da policial. A defesa de Antoneudo, representada pela advogada Karla Borges, afirmou que não irá comentar o caso.
Justiça mantém policial presa
O Tribunal de Justiça do Ceará negou o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa de Júlia Natália. Com a decisão, a policial permanece presa.
A defesa havia alegado que não existiam motivos para a manutenção da prisão preventiva e pediu que ela pudesse responder ao processo em liberdade. Também foi solicitada, alternativamente, a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar, considerando que Júlia é mãe de uma criança de quatro anos.
Os pedidos foram negados pela desembargadora Andréa Mendes Bezerra Delfino. Na decisão, a magistrada considerou a gravidade concreta dos fatos investigados e destacou que, segundo os indícios reunidos, a conduta atribuída à policial teria envolvido não apenas a morte da vítima, mas também a destruição do cadáver e a tentativa de criar circunstâncias para afastar suspeitas.
Júlia e Antoneudo foram presos no dia do crime. Em 13 de agosto, passaram por audiência de custódia, e a Justiça decretou a prisão preventiva dos dois por suspeita de envolvimento na morte de Raphael Sampaio.