Os aplicativos de relacionamento deixaram de ser usados apenas para encontrar um par romântico e passaram a ser ferramenta de oportunidades no mercado de trabalho. Pesquisas dos Estados Unidos mostram que Tinder, Hinge, Grindr e Bumble têm sido usados por candidatos para networking, pedidos de indicações e até busca direta de empregos em meio ao aumento do desemprego no país. Para muitos, o match perfeito agora pode significar vaga aberta e não necessariamente romance.
Aplicativos viram alternativa ao recrutamento tradicional
Com o avanço da automação e filtros por IA em processos seletivos, candidatos relatam dificuldade em chegar a um recrutador humano. A taxa de desemprego norte-americana atingiu 4,6% em 2025, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), e mesmo profissionais com diploma registraram aumento na desocupação.
Diante desse cenário, jovens como Tiffany Chau, 20 anos, decidiram utilizar os apps de forma estratégica. Ela personalizou seu perfil no Hinge para atrair contatos profissionais e chegou a participar de eventos sociais com o objetivo de networking.
“Sinto que minha abordagem em relação aos aplicativos de namoro é que eles são mais uma plataforma de rede como todas as outras, como o Instagram ou o LinkedIn”, disse Chau.
Networking amoroso vira porta de entrada para entrevistas
Um levantamento do ResumeBuilder.com com 2.200 usuários revelou que cerca de um terço já procurou conexões profissionais em aplicativos de namoro. Entre eles, dois terços buscaram pessoas que trabalhavam em empresas desejadas e 75% afirmaram ter combinado com usuários de áreas em que desejavam atuar.
A prática não se restringe à Geração Z. A pesquisa indica que quase metade dos usuários que usam os apps para networking possuem renda acima de US$ 200 mil, sugerindo que também alcança profissionais sêniores. Segundo Stacie Haller, consultora-chefe de carreira do portal,
“A melhor maneira de conseguir um emprego hoje em dia é com quem você conhece. O networking é a única forma de superar o show de horrores que é a busca de emprego atual.”
Plataformas observam mudança — mas com restrições
O fenômeno não passou despercebido pelas empresas. AJ Balance, diretor de produto do Grindr, afirma que cerca de 25% dos usuários utilizam o app para networking, especialmente pela dinâmica social da comunidade LGBTQ+. Já o Bumble afirmou que a prática não condiz com a missão do aplicativo:
“não cria uma experiência autêntica para nossa comunidade”, informou a empresa.
Aplicativos como Tinder e Hinge também desestimulam o uso comercial. O Hinge reforça que seu foco é “namoro intencional”, e o OKCupid afirma que deve ser utilizado para “relacionamentos de boa-fé”.
Casos reais mostram oportunidades — e frustrações
A maquiadora Alaina Davenport contou que conseguiu um trabalho de filmagem após um match no Hinge, apesar de buscá-lo inicialmente para relacionamentos. Já Kait O’Neill, 28 anos, tentou usar o mesmo aplicativo com pedido explícito de vagas no perfil, mas voltou ao LinkedIn após frustrações:
“era mais um método que não estava funcionando”, relatou.
Para especialistas, o movimento reflete adaptação dos profissionais em um período de incerteza.
“Em tempos de grande instabilidade, as pessoas usam todas as ferramentas disponíveis para sobreviver”, destaca Constance Hadley, pesquisadora da Questrom School of Business.
A tendência ainda não é dominante, mas mostra como o mercado de trabalho e os relacionamentos digitais estão se cruzando. Em um mundo onde conexões valem tanto quanto currículo, swipes e matches podem ir além do coração — e chegar ao emprego dos sonhos.