- Dois tipos de aves brasileiras, araponga-de-garganta-nua e seriema, ultrapassaram 120 decibéis, nível sonoro superior a equipamentos como motosserras.
- Pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, incluindo o brasileiro João Menezes, publicaram estudo sobre a amplitude vocal de 123 espécies de aves.
- As aves com cantos mais intensos apresentam características físicas como tamanho corporal maior e abertura de bico mais larga, segundo os cientistas.
- Estudo não confirmou hipóteses sobre a relação entre volume do canto e fatores ecológicos, como habitat ou sistema de acasalamento.
- Medições foram feitas em campo com telêmetros a laser e medidores de som, permitindo comparações entre espécies de diferentes regiões.
Duas espécies de aves brasileiras estão entre as mais barulhentas já registradas em estudos científicos: a araponga-de-garganta-nua e a seriema. Os cantos das duas ultrapassaram 120 decibéis de pico, nível de pressão sonora superior ao associado a equipamentos como motosserras e britadeiras.
A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, entre eles o brasileiro João Menezes, que concluiu seu doutorado na instituição em 2026. O estudo foi publicado na revista científica Evolution. A equipe analisou a amplitude vocal de 123 espécies de aves em diferentes regiões do Brasil e também em áreas próximas a Amherst. Das espécies avaliadas, 113 nunca haviam tido o volume de seus cantos catalogado.
Seriema, uma das aves brasileiras que pode estar entre as mais barulhentas do mundo | Foto: João Menezes
Aves ultrapassam 120 decibéis
Segundo Menezes, os dados mostram que as arapongas e a seriema estão entre as aves com os cantos mais altos já medidos.
“Podemos dizer com segurança que as arapongas (da Amazônia e da Mata Atlântica) e a seriema emitem os cantos mais altos já medidos”, afirma Menezes.
A pesquisa identificou uma diferença de 58 decibéis entre os cantos analisados. Na parte mais baixa da escala estava o beija-flor, com 64 decibéis, aproximadamente o nível de uma conversa normal.
Na outra ponta estavam a araponga-de-garganta-nua e a seriema, ambas com picos superiores a 120 decibéis.
O estudo, no entanto, não tinha como objetivo simplesmente descobrir qual seria a ave mais barulhenta. Os pesquisadores queriam entender quais características físicas ajudam a determinar o volume do canto e investigar se a intensidade sonora estaria relacionada ao ambiente em que cada espécie vive ou à sua organização social.
Estudo analisou 123 espécies
Os pesquisadores explicam que ainda há pouco conhecimento sobre a amplitude vocal das aves. Os dados coletados no trabalho indicam que algumas espécies brasileiras conseguem produzir sons próximos aos limites de intensidade observados em aves.
Entre os resultados, a equipe identificou características físicas associadas à capacidade de produzir sons mais intensos, especialmente o tamanho corporal e a largura da abertura do bico.
Tamanho do corpo influencia volume
De acordo com os pesquisadores, aves maiores e com aberturas de bico mais largas tendem a produzir cantos mais altos.
“Em geral, aves maiores e com uma abertura de bico mais larga tendem a cantar mais alto. Isso fica bem ilustrado pelas espécies com cantos mais altos que registramos: a seriema é a maior espécie na nossa amostra, enquanto as arapongas têm aberturas de bico especialmente largas para seu tamanho”, analisa Menezes.
As aves com os cantos mais intensos também apresentam músculos mais robustos, característica que pode permitir maior compressão de ar, além de aberturas de bico mais largas.
Os pesquisadores fazem uma comparação com instrumentos musicais. Assim como estruturas mais largas, em formato de sino, podem ajudar a amplificar o som de instrumentos como trompetes, a abertura maior do bico pode contribuir para a produção de sons mais intensos.
Apesar dessas associações, o estudo não conseguiu estabelecer uma relação clara entre o volume do canto e sua função ecológica ou evolutiva.
Hipóteses sobre o canto não se confirmaram
Antes da pesquisa, os cientistas levantaram a hipótese de que as aves mais barulhentas poderiam ser voadoras mais fracas, viver em ambientes de vegetação densa e apresentar sistemas de acasalamento com múltiplos parceiros.
Uma das possibilidades consideradas era a de que um canto mais alto ajudaria a compensar uma mobilidade limitada, facilitaria a comunicação em ambientes nos quais seria mais difícil para as aves se enxergarem ou permitiria que os chamados de acasalamento alcançassem parceiros a maiores distâncias.
Os dados, porém, não sustentaram essas hipóteses de forma ampla.
“Entre os fatores ecológicos que estudamos, nenhum explicou com clareza por que algumas espécies evoluíram cantos mais altos do que outras. Isso não quer dizer que habitat, capacidade de voo ou sistema de acasalamento nunca sejam importantes, mas sim que não parecem ser regras gerais para as aves como um todo”, detalha Menezes.
A presença da seriema entre as espécies de canto mais intenso é um dos pontos que desafiam essas explicações. A espécie ocupa ambientes abertos e apresenta comportamento monogâmico, características que não correspondem a algumas das hipóteses inicialmente levantadas pelos pesquisadores.
Menezes afirma que o trabalho ajudou a compreender como as estruturas físicas das aves contribuem para a produção de sons mais altos, mas que ainda existem questões a serem respondidas.
“Deve haver algo particularmente eficiente na maneira como elas produzem ou irradiam o som que tamanho corporal e largura do bico sozinhos não explicam. Descobrir esse ‘algo a mais’ é justamente uma das perguntas que surgem do estudo”, afirma.
Medição foi feita em campo
Medir o volume de um canto de ave na natureza é uma tarefa complexa porque a intensidade registrada depende da distância entre o animal e o equipamento. Um canto que parece muito intenso quando ouvido de perto pode apresentar um nível bastante menor a centenas de metros.
Uma alternativa seria capturar as aves e levá-las a um laboratório para realizar experimentos controlados. Segundo os pesquisadores, porém, esse método não seria prático para um trabalho internacional envolvendo a comparação de um grande número de espécies.
Para realizar as medições em campo, os cientistas utilizaram telêmetros a laser, para determinar a distância entre a ave e o equipamento, e medidores de som portáteis de alta resolução.
Com esses instrumentos, a equipe conseguiu relacionar a intensidade registrada à distância dos animais e obter medições mais confiáveis dos cantos das 123 espécies analisadas.
Pesquisadores ainda buscam respostas
Para Menezes, os resultados deixam duas grandes questões em aberto: uma relacionada ao mecanismo responsável pela produção dos sons e outra ligada ao processo evolutivo que levou algumas espécies a desenvolver cantos tão intensos.
Embora o estudo tenha identificado características morfológicas importantes, como tamanho corporal e largura da abertura do bico, esses fatores não parecem suficientes para explicar como aves relativamente pequenas conseguem atingir amplitudes comparáveis ou superiores às de animais muito maiores.
“Agora queremos entender melhor o que há de especial nessas espécies que as permite produzir e irradiar sons tão intensos”, afirma o pesquisador.
Também permanece a dúvida sobre qual seria a vantagem evolutiva de cantar tão alto. A competição por parceiros pode ser uma explicação, mas emitir sons mais intensos também pode facilitar a localização da ave por predadores.
“O interessante agora é testar diretamente quais vantagens esses cantos extremamente altos oferecem e quais custos vêm junto com eles. É bem possível que espécies diferentes tenham chegado a amplitudes extremas por caminhos evolutivos completamente diferentes”, comenta o brasileiro.