- Estudo identifica malária em restos mortais de dois membros da família Médici, questionando teorias de envenenamento.
- Detecção de seis espécies de Plasmodium no DNA de Grão-Duque e Cardeal, incluindo P. falciparum.
- Amostras de restos mortais foram analisadas em Capelas Médici, em Florença, para identificar variantes genéticas.
- Resultados reforçam hipótese de que malária causou mortes de membros da família, não envenenamento.
- Historicamente, a família Médici influenciou política e religião na Europa, com conexões com reinos franceses.
Um estudo científico identificou evidências de malária nos restos mortais de dois integrantes da família Médici, colocando em dúvida a antiga hipótese de que eles teriam sido envenenados. A pesquisa foi publicada em junho de 2026 na revista iScience e divulgada nesta semana pela revista Science.
Os pesquisadores detectaram no DNA do Grão-Duque Francesco I de' Médici (1541–1587) e do Cardeal Giovanni de' Médici (1543–1562) a presença de seis espécies do gênero Plasmodium, protozoários responsáveis por causar a malária. Entre elas está o Plasmodium falciparum, causador da forma mais grave da doença em humanos.
Família Médici marcou a história da Europa
A família Médici governou Florença e, posteriormente, a Toscana, entre os séculos XV e XVIII, exercendo forte influência política e religiosa na Europa. O grupo deu origem a quatro papas da Igreja Católica e estabeleceu alianças com famílias reais europeias, incluindo as rainhas Catarina de Médici e Maria de Médici, na França.
Como estudos anteriores não conseguiam identificar as variantes genéticas do Plasmodium falciparum que circulavam na Itália no século XVI, os cientistas extraíram DNA antigo de restos mortais preservados nas Capelas Médici, em Florença.
Foram analisadas quatro amostras de costelas, sendo três do Grão-Duque e uma do Cardeal. Os exames identificaram as espécies P. falciparum, P. vivax, P. malariae, P. ovale, P. knowlesi e P. cynomolgi.
Cepa pode ter circulado na Europa por séculos
Segundo os pesquisadores, a cepa encontrada no Cardeal Giovanni pode estar relacionada a variantes de P. falciparum que já circulavam na Península Itálica e em outras regiões da Europa desde a Antiguidade. Os resultados também indicam a presença do parasita no Grão-Duque, embora em quantidade significativamente menor.
De acordo com registros históricos, o Cardeal Giovanni, sua mãe Eleonora de Toledo e outro irmão adoeceram após uma viagem ao litoral e às áreas pantanosas da Toscana, conhecidas na época pela ocorrência da chamada "febre terçã". Os três morreram em um intervalo de aproximadamente quatro semanas, no fim de 1562.
Vinte e cinco anos depois, o Grão-Duque Francesco I e sua esposa, Bianca Cappello, visitaram a vila da família em Poggio a Caiano, região cercada por arrozais e considerada propícia à proliferação da malária. O casal morreu em 1587, após apresentar febres altas intermitentes, quadro compatível com a doença.
Hipótese de envenenamento perde força
As mortes quase simultâneas de Francesco I e Bianca Cappello alimentaram, durante séculos, rumores de que ambos teriam sido envenenados com arsênico por Ferdinando de' Médici, irmão do Grão-Duque. Com a identificação do DNA de diferentes espécies de Plasmodium, o novo estudo reforça a hipótese de que a malária tenha sido a causa mais provável das mortes dos integrantes da família.