Uma escavação conduzida por arqueólogos e estudantes da Universidade de Cambridge trouxe à tona um dos achados mais perturbadores dos últimos anos: um poço funerário da Era Viking contendo restos humanos completos e desmembrados, possivelmente ligados a execuções e punições corporais ocorridas em meio aos conflitos entre saxões e vikings no século 9.
A descoberta foi feita durante uma escavação de treinamento realizada na primavera e no verão de 2025, em Wandlebury Country Park, a cerca de cinco quilômetros ao sul de Cambridge. A área abriga um antigo forte da Idade do Ferro, construído cerca de mil anos antes do período viking, mas que teria permanecido como um ponto estratégico e simbólico ao longo da Alta Idade Média.
O poço, estreito e profundo com aproximadamente quatro metros de comprimento por um de largura continha restos mortais de pelo menos dez indivíduos. Entre eles, quatro esqueletos completos, vários crânios sem corpos associados e uma concentração incomum de ossos das pernas empilhados. A disposição dos restos é considerada altamente atípica, mesmo para sepultamentos coletivos.
“Antes de encontrarmos os primeiros ossos humanos, o melhor achado da escavação tinha sido uma tampinha de Smarties dos anos 1960”, relatou a estudante Olivia Courtney, hoje no terceiro ano de arqueologia em Cambridge. “Nunca tinha lidado com restos humanos antes, e foi impressionante como essas pessoas pareciam, ao mesmo tempo, tão próximas e tão distantes.”
Indícios de execução e punição corporal
De acordo com os arqueólogos, todos os indivíduos identificados eram homens jovens e foram lançados no poço sem qualquer tipo de ritual funerário. Alguns esqueletos estavam em posições que sugerem que as vítimas podem ter sido amarradas. Há ainda sinais claros de decapitação, como marcas de corte no maxilar de um dos crânios, além de outros traumas compatíveis com violência extrema.
Apesar disso, a ausência de ferimentos típicos de batalhas campais torna improvável que o local seja apenas o resultado de um confronto militar. Para Oscar Aldred, arqueólogo responsável pela escavação, o cenário aponta para algo ainda mais sombrio.
“Esses indivíduos podem ter sido submetidos a punições corporais. É possível que Wandlebury fosse um local sagrado ou amplamente conhecido para reuniões e execuções”, afirma.
A presença de cabeças e membros separados, em alguns casos agrupados por tipo, reforça essa hipótese. Segundo Aldred, algumas partes do corpo podem ter sido exibidas como troféus antes de serem enterradas. “Não há muitos indícios de esquartejamento deliberado. Os corpos podem ter passado por decomposição prévia e literalmente se desmanchado quando foram lançados no poço.”
O contexto histórico ajuda a sustentar essa interpretação. No século 9, Cambridgeshire era uma região de fronteira instável entre o reino saxão da Mércia e o reino da Ânglia Oriental, conquistado pelos vikings por volta de 870 d.C. “Era uma área marcada por guerras contínuas e disputas territoriais ao longo de décadas”, explica o pesquisador.
O “gigante” trepanado
Entre os esqueletos encontrados, um chamou atenção pelo tamanho. O indivíduo, um jovem estimado entre 17 e 24 anos, teria cerca de 1,95 metro de altura, uma estatura excepcional para a época, quando a média masculina girava em torno de 1,68 metro.
Seu crânio apresenta um orifício oval de aproximadamente três centímetros, com sinais claros de cicatrização, indicando que o procedimento foi realizado enquanto ele ainda estava vivo. Segundo a osteóloga Trish Biers, curadora das coleções Duckworth da Universidade de Cambridge, o jovem pode ter sofrido de um tumor na glândula pituitária.
“Essa condição poderia ter causado um excesso de hormônios do crescimento e aumento da pressão intracraniana, provocando fortes dores de cabeça. A trepanação pode ter sido uma tentativa de aliviar esses sintomas”, explica. De acordo com ela, intervenções desse tipo não são incomuns, inclusive em contextos médicos modernos.
Próximas etapas da investigação
Para os estudantes envolvidos, a descoberta teve um forte impacto emocional. “Nunca imaginei encontrar algo assim em uma escavação de treinamento”, relatou Grace Grandfield, graduanda de Cambridge. “Foi um contraste chocante com a tranquilidade de Wandlebury. Muitos dos indivíduos tinham idade semelhante à minha, e perceber, osso após osso, a dimensão do sofrimento vivido ali foi uma experiência profundamente marcante.”
Agora, os restos mortais passarão por análises mais detalhadas, incluindo estudos de DNA antigo e datação por isótopos. O objetivo é investigar a origem, a saúde e possíveis laços de parentesco entre os indivíduos, além de reconstituir ossos desmembrados para determinar com maior precisão quantas pessoas foram enterradas no poço.