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Documentário gravado no Piauí disputa vaga para representar o Brasil no Oscar 2027

Filme dirigido por Eliza Capai foi gravado em Guaribas e acompanha meninas que projetam futuros diferentes das gerações anteriores

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  • Documentário brasileiro concorre a indicação ao Oscar 2027, representando o Brasil na categoria Melhor Filme Internacional.
  • Projeto nasceu de entrevistas com mulheres do Piauí em 2013, que revelaram diferenças entre gerações sobre futuro e autonomia.
  • Ideia da "máquina do tempo" surgiu durante visita à Serra da Capivara, onde diretora refletiu sobre diferentes tempos em um mesmo espaço.
  • Meninas do sertão do Piauí protagonizam filme que aborda temas como liberdade, casamento e transformações sociais.
  • Trabalho foi exibido em Berlim, onde protagonistas tiveram primeira experiência de viagem internacional e assistiram ao filme em festivais.
A Fabulosa Máquina do Tempo |
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Texto por Jade Luara

Um grupo de meninas do sertão do Piauí, uma brincadeira de viagem no tempo e perguntas sobre casamento, maternidade, liberdade e futuro. É a partir desses elementos que A Fabulosa Máquina do Tempo, dirigido por Eliza Capai, constrói sua narrativa. O documentário está entre os 15 filmes que disputam a vaga para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.

A lista foi divulgada pela Academia Brasileira de Cinema. O filme, gravado em Guaribas, no Sul do Piauí, ainda não está indicado ao Oscar. No dia 9 de setembro, seis produções foram selecionadas para a etapa final. Em 16 de setembro, será anunciado o filme escolhido para representar o Brasil na disputa internacional.

Mas a história de A Fabulosa Máquina do Tempo começou muito antes da corrida pelo Oscar.


Uma história que começou em 2013

Em entrevista a Boa Geek, Eliza Capai conta que sua relação com Guaribas começou em 2013, quando a diretora esteve no município para produzir uma reportagem para a Agência Pública sobre os dez anos do Bolsa Família e as mudanças nas relações de gênero em famílias de baixa renda.

Na época, ela ouviu mulheres que relatavam ter vivido situações de extrema pobreza e que associavam o futuro das filhas a um casamento que pudesse proporcionar melhores condições de vida. Ao conversar com as meninas daquela geração, porém, encontrou outros planos.

“Eu começo a entrevistar as filhas dessas mulheres que eram bem nutridas, que estavam na escola. Elas sonhavam com futuros autônomos. Elas não queriam casar, não queriam ter filhos, queriam ser professora, médica, cantora”, conta Eliza.

A diferença entre os sonhos de mães e filhas chamou a atenção da diretora. Em uma geração, o casamento aparecia como possibilidade de mudança de vida. Na seguinte, os planos estavam ligados à autonomia e às próprias escolhas.


A origem da “máquina do tempo”

A ideia que deu nome ao documentário surgiu a partir de outra experiência da diretora no Piauí. Durante uma visita à Serra da Capivara, Eliza passou a pensar sobre a presença de diferentes tempos em um mesmo território.

“Quando eu fui a primeira vez na Serra da Capivara e vi não apenas aqueles desenhos de milhares e milhares de anos… Ali eu fui convidada a entrar numa máquina do tempo, de ver como nesse presente, nesse hoje, vários outros tempos”, lembra.

Foi naquele momento que começou a surgir a ideia da brincadeira que atravessaria o documentário.

“Então, ali eu comecei a pensar nessa brincadeira de máquina do tempo”, afirma.

Segundo Eliza, a viagem pelo tempo também seria uma maneira de falar sobre transformações sociais. A diretora queria encontrar uma forma de abordar as mudanças vividas por Guaribas e por famílias que passaram por transformações profundas nas condições de vida.

Em 2021, ela voltou ao município e conheceu algumas das meninas que mais tarde se tornariam protagonistas do filme.

As gravações aconteceram entre 2024 e 2025. Nas conversas, elas falam sobre temas que atravessam suas próprias famílias, como casamento, religião, maternidade e liberdade.


Meninas imaginam outros futuros

Para Eliza, uma das características que mais chamaram sua atenção foi a liberdade com que as meninas circulavam pelo município e construíam suas próprias relações.

“Elas têm uma liberdade de circulação na cidade, de uma para a casa das outras, de brincarem das mais diversas formas”, explica.

Segundo a diretora, essa liberdade também aparece na maneira como elas abordam temas considerados mais delicados.

“Eu acho que se reflete também nessas falas, na forma sagaz, espontânea, criativa e muitas vezes provocadora delas de abordarem esses temas.”

As histórias das mães e avós aparecem como parte desse processo. Ao mesmo tempo em que conhecem experiências de outras gerações, as meninas questionam os papéis que esperam delas e imaginam possibilidades diferentes para o futuro.


Do sertão do Piauí para Berlim

A trajetória das protagonistas ganhou uma nova dimensão em 2026, quando três delas viajaram com Eliza e parte da equipe para apresentar o filme no Festival Internacional de Cinema de Berlim, na Alemanha.

Para elas, foi a primeira viagem de avião, a primeira vez em um hotel e também o primeiro contato com a neve. Mas havia ainda outra experiência inédita: assistir ao próprio filme diante de uma plateia internacional.

“Eu sinto que elas cresceram muito ali e ver o olhinho delas brilhando, se vendo de fora, se vendo a partir do olhar de outras pessoas e se admirando ainda mais foi, acho, que o maior prêmio”, conta Eliza.

A experiência, para a diretora, mostrou que o cinema também pode transformar a maneira como as próprias protagonistas enxergavam suas histórias.

“É muito bonito ver quem está dentro da tela podendo usufruir desse fora da tela também e usar o cinema como essa máquina de empatia dos outros em relação a elas e elas em relação a elas também”, afirma.

E o Oscar?

Agora, A Fabulosa Máquina do Tempo aguarda o próximo capítulo. Entre os 15 filmes que disputam a indicação brasileira, o documentário tenta avançar para a etapa final da seleção que definirá o representante do país no Oscar 2027.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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