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Michael: Uma grande performance com uma narrativa sem profundidade

A principal sensação ao assistir ao filme é a de que faltou um roteiro mais sólido.

Jaafar Jackson | Michael

Texto por Francisco Clarin

Na última quinta-feira (23), estreou nos cinemas um dos filmes mais aguardados do ano: Michael, cinebiografia que retrata a trajetória de um dos maiores artistas da história, Michael Jackson. No papel principal, quem assume o desafio é Jaafar Jackson, sobrinho do cantor.

JACKSON FIVE

O filme inicia sua narrativa em 1964, na cidade de Gary, quando nasce o Jackson Five, formado pelos irmãos Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael, sob o comando rígido do pai, Joseph Jackson.

Jackson Five

Desde cedo, a rotina deles é marcada por ensaios, apresentações em bares e uma cobrança constante que muitas vezes os fazia faltar à escola. Com um olhar mais sensível e empático, surge a presença da mãe, Katherine Jackson, oferecendo apoio emocional em meio à pressão do pai.

Embora a formação do grupo tenha acontecido ainda na infância, é a partir do contrato com a Motown que o grupo ganha repercussão internacional, especialmente com o lançamento de I Want You Back, em 1969.

O filme percorre essa ascensão de forma rápida, quase sem pausas, mostrando recordes e conquistas sem aprofundar os conflitos por trás deles. Momentos importantes, como o início da carreira em Los Angeles e o impacto imediato nas paradas da Billboard, são tratados de maneira superficial.

JOSEPH JACKSON

Um dos pontos mais evidentes é a figura de Joseph, nome pelo qual os filhos sempre o chamam, nunca “pai”. Mesmo após apresentações exaustivas, ele exigia que os filhos continuassem ensaiando. Essa infância rígida ajuda a explicar não só o talento precoce, mas também as marcas emocionais que o artista carregaria ao longo da vida.

Joseph Jackson

O ADULTO COM ALMA DE CRIANÇA

Sem uma infância, o lado criança de Michael o acompanhou até mesmo na sua fase adulta, e o filme retrata muito bem essa personalidade. Michael gostava de ficar rodeado de animais, adotou uma girafa, uma lhama, uma cobra e o chimpanzé Bubbles, seu melhor amigo com quem compartilhava dores e conquistas. Além disso, o Rei do Pop gostava de ter um quarto rodeado de livros infantis e brinquedos.

Michael Jackson e Bubbles

Também é interessante acompanhar sua formação na dança, construída a partir da influência das ruas, como retratou no clipe de "Beat It", dos filmes que assistia com a mãe e da própria família.

ROTEIRO RASO

A principal sensação ao assistir ao filme é a de que faltou um roteiro mais sólido. Existe uma intenção clara de emocionar e impressionar, mas a construção narrativa acaba sendo apressada demais para dar conta da complexidade de uma figura tão gigantesca como Michael Jackson.

O ritmo acelerado impede um aprofundamento emocional maior. Não vimos a relação de Michael com Bill Bray, o segurança com o qual ele desenvolveu uma relação paternal. Assim como seu relacionamento com Diana Ross, que o acompanhou desde o início em Jackson Five, não chegou a ser trabalhada por questões judiciais.

PRESSÃO ESTÉTICA

O vitiligo, um dos assuntos mais polêmicos na carreira do cantor, é outro ponto praticamente ignorado pela narrativa. Não acompanhamos o momento do diagnóstico de Michael. A condição é mencionada apenas de forma superficial, em uma breve conversa com um médico. Entretanto, a cirurgia no nariz é mostrada. Deixando subentendido que o procedimento estaria ligado ao bullying sofrido pelo cantor, especialmente por parte de seu pai e empresário, Joseph.

UMA GRANDE PERFORMANCE

Por outro lado, o lado artístico é impecável. O processo criativo de Michael é retratado com perfeição, as ideias surgindo, a forma como ele transformava o cotidiano em arte, tudo acontece com naturalidade. Em muitos momentos, o filme se aproxima mais de uma grande performance do que de uma narrativa biográfica, como se estivéssemos assistindo a um show ao vivo.

Jaafar Jackson como Michael

TALVEZ UM DOCUMENTÁRIO?

Talvez esse seja, inclusive, o ponto central. Se a proposta era focar tanto na performance, um formato documental faria mais sentido. Ainda assim, há emoção, especialmente na interpretação de Jaafar Jackson, que consegue transmitir sensibilidade mesmo com a ausência de diálogos mais profundos, algo que faz falta no desenvolvimento do artista e da história. O elenco entrega carisma e, acima de tudo, transmite com autenticidade o clima de uma família desestruturada.


*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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