Quase quatro décadas depois, o maior acidente radiológico da história do Brasil voltou ao debate público com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix. A produção reconstitui, em detalhes, a sequência de erros, desconhecimento e negligência que transformaram um objeto aparentemente inofensivo em uma tragédia de grandes proporções.
O caso teve início em setembro de 1987, quando dois catadores de materiais recicláveis entraram nas ruínas de uma clínica de radioterapia abandonada, o antigo Instituto Goiano de Radioterapia. No local, encontraram um equipamento esquecido: uma máquina usada em tratamentos contra o câncer, que continha uma cápsula com Césio-137 — um material altamente radioativo.
Sem qualquer noção do risco, o equipamento foi desmontado e vendido a um ferro-velho. Dias depois, ao violar a cápsula, o dono do local se deparou com um pó azul brilhante, que chamava atenção pela aparência quase “mágica”. O material passou a ser manuseado, exibido e até distribuído entre amigos e familiares.
A partir daí, a contaminação se espalhou silenciosamente por diferentes regiões de Goiânia. Entre os casos mais emblemáticos está o de Leide das Neves Ferreira, uma criança de seis anos que ingeriu o material ao brincar com o pó luminoso. Ela foi a primeira vítima fatal do acidente, tornando-se símbolo da tragédia. Ao todo, quatro pessoas morreram em decorrência direta da contaminação, e centenas sofreram efeitos da radiação.
A situação só começou a ser compreendida dias depois, quando sintomas como náuseas, vômitos, queimaduras e fraqueza extrema passaram a aparecer em diversas pessoas que tiveram contato com o material. A identificação da radiação mobilizou autoridades e deu início a uma operação de emergência sem precedentes no país.
Mais de 100 mil pessoas foram monitoradas. Equipes especializadas isolaram áreas contaminadas, demoliram casas e recolheram toneladas de materiais radioativos. Vítimas foram encaminhadas para tratamento, muitas delas com sequelas físicas e psicológicas que persistem até hoje.
O episódio também escancarou falhas graves na fiscalização e no controle de materiais nucleares no Brasil. O abandono do equipamento sem segurança adequada foi determinante para que o acidente acontecesse.
Nos anos seguintes, o caso provocou mudanças importantes na legislação e na fiscalização nuclear brasileira, com reforço no papel da Comissão Nacional de Energia Nuclear. As regras para armazenamento, transporte e descarte de materiais radioativos ficaram mais rígidas, e clínicas e hospitais passaram a ser obrigados a seguir protocolos mais rigorosos de segurança, com inspeções periódicas para evitar novos episódios.
Até hoje, áreas afetadas seguem sob monitoramento constante. Parte do material contaminado foi transferida e armazenada em um depósito controlado em Abadia de Goiás, onde permanece sob vigilância técnica.
A região continua sendo acompanhada por equipes especializadas, que realizam medições regulares de radiação para garantir que não há riscos à população — um lembrete permanente de que, mesmo décadas depois, os efeitos daquele setembro de 1987 ainda não foram completamente encerrados.