Os domingos são o dia da semana com mais registros de feminicídio no Piauí. O dado faz parte do 1º Boletim de Feminicídio divulgado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-PI), nesta terça-feira (31).
Segundo o levantamento, dos 37 casos registrados em 2025, 10 aconteceram aos domingos, o equivalente a 27,03%. Em seguida aparecem segunda, quarta e sábado, com seis casos cada. Sexta-feira teve três registros, e quinta, um.
Os dados também mostram que a violência acontece, principalmente, dentro de casa. Ao todo, 22 mulheres foram mortas em residências, o que representa 59,5% dos casos. A maior parte dos crimes ocorreu durante o dia, com destaque para o período da tarde.
Os dados ganham forma, rosto e historia
No domingo, 8 de março deste ano, justamente no Dia Internacional da Mulher, casos de feminicídio foram registrados em diferentes regiões do país.
Em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Tatiana de Carvalho Paulinus foi atacada a facadas pelo ex-namorado. Ela conseguiu pedir ajuda a vizinhos e foi levada para a UPA de Santa Luzia, que fica no mesmo município, mas não resistiu. Tatiana tinha completado 40 anos seis dias antes.
No interior do Amazonas, em Carauari, Rosiane Nicolau Canudo, de 39 anos, foi assassinada por volta das 6h40 da manhã. Quando a polícia chegou, ela já estava sem vida. O marido foi preso cerca de uma hora depois.
Já na região metropolitana de Belo Horizonte, Mariana Camila de Oliveira Santos, de 30 anos, foi morta dentro da própria casa, ainda durante a madrugada. Os filhos estavam no local e presenciaram o ataque. Foi o mais velho, de apenas 10 anos, foi quem acionou a polícia.
Histórias diferentes, cidades diferentes, mas o mesmo dia. O domingo.
Nas reportagens, as tentativas de explicar o que não tem explicação se repetem: ciúmes, controle, a recusa em aceitar o fim de um relacionamento. Motivos que aparecem com frequência, não como justificativa, mas como parte de um padrão de violência que insiste em se repetir.
domingo é perigo e morte
Em uma reportagem publicada em 2023 na Revista Piauí, a jornalista piauiense, Vitória Pilar já chamava atenção para esse mesmo recorte: o domingo como um dia recorrente nos casos de feminicídio no Brasil.
Ela conta a história de Suzana Silva, de 24 anos, que residia na localidade de Mocambo, em Barras, a cerca de 130 quilômetros de Teresina, com o marido, com quem havia se casado recentemente após seis anos de relacionamento. A relação era marcada por controle, ciúmes e isolamento. Aos poucos, Suzana deixou de sair sozinha, de receber visitas e se afastou da própria rotina.
No domingo, 13 de fevereiro, o dia parecia comum. No final da tarde, Suzana entrou no banheiro para tomar banho, mas, antes que saísse, foi surpreendida pelo marido, que a atacou a facadas. Ela deixou um filho de 3 anos na época do caso.
A jornalista e pesquisadora de gênero e comunicação Vitória Pilar chama atenção para um contraste que se repete em diferentes histórias.
“Para muitas brasileiras, domingo não é dia de festa, nem de pizza, nem de futebol. É dia de perigo e morte”, afirma.
Com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), ela identificou que, em 2022, um em cada cinco feminicídios ocorreu aos domingos. No total, os fins de semana concentraram 37% dos casos. Depois do domingo, aparecem o sábado (16,1%) e a segunda-feira (15,3%) como os dias mais recorrentes.
"E os fins de semana, aos sábados e domingos, quando os casais ficam juntos, tentam se reconciliar, às vezes festejam, são o momento de maior risco. É quando as delegacias especializadas estão fechadas, as ruas mais vazias e a polícia ocupada com desdobramentos de outros crimes", finaliza Vitória.
Casos de violência doméstica podem ser denunciados pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia em todo o país e no exterior. O serviço oferece orientação, recebe denúncias e encaminha vítimas para redes de proteção. Também é possível denunciar pelo Disque 100, pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. Vítimas podem solicitar medidas protetivas de urgência sempre que se sentirem em risco.