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“Jogaram veneno”: trabalhador de Timon relata como eram as condições em SC e diz que homem morreu

Francisco Oliveira Sousa detalha veneno pulverizado, comida precária, morte de colega e alojamento isolado 'no meio da floresta'.

Francisco Oliveira Sousa | Foto: Arquivo Meio Norte./Reprodução
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Francisco Oliveira Sousa é um dos trabalhadores que retornaram à cidade de Timon, no Maranhão, após vivenciarem condições desumanas em uma empresa em Santa Catarina. Em entrevista à Rede Meio Norte, ele relatou pulverização de veneno de forma inadequada e alimentação precária. Segundo ele, um colega morreu e foi encontrado cerca de uma semana depois.

Durante o relato, destacou que, por conta do veneno aplicado no local, eles estão enfrentando problemas de saúde. “No contrato, está dizendo lá que eram 15 metros que o carro do Veneno passava. Eles passavam assim e falavam que era sabão. Normal. Jogaram veneno. Por isso que nós estamos nessa situação, o garganta inflamada e tudo”, afirmou.

Ele descreveu que o alojamento ficava em uma área isolada, “no meio da floresta”, distante da cidade e sem sinal de internet ou telefone. Conforme Francisco, quando alguém passava mal, não havia assistência.

“Lá era muito frio. O pessoal passava mal, desmaiava por causa do frio. Chamava alguém para dar assistência, não tinha ninguém, que eles falavam que tinham brigadista para dar apoio. Não tinha internet, não tinha sinal de nada. Era isolado", relatou.

Segundo o trabalhador, a alimentação era precária, com carne crua, arroz duro, café ruim e cheio de moscas. Ele ainda destacou que o grupo saiu do Maranhão iludido com a proposta de emprego.

“Tentando ganhar o dinheiro para ajudar a nossa família. Quando chegamos lá, a gente é obrigado a trabalhar, é forçado, porque para dar distância não tem como a gente vir embora. Ela obriga a pessoa a ficar lá, até a pessoa pedir conta, porque não tem condição de trabalho. Lá não tem condição de trabalho, lá tem serviço mesmo escravo mesmo", disse. 

Morte de trabalhador

Francisco relatou ainda a morte de um colega que morava em Santa Inês (MA). Segundo ele, o homem teria dito que iria embora, mas acabou se perdendo na mata. Eles chegaram a comunicar a empresa, porém, segundo ele, os empregadores afirmaram que “não estava nem aí, que ele era de maior e resolvia a vida dele”.

“O nosso negócio era trabalhar. A gente foi trabalhar depois de uma semana, os amigos dele que vieram junto com ele sentiram um mau cheiro. Os urubus estavam ao redor lá, eles perceberam. Quando chegou ele já estava de composição. Cabeça cheia de bicho.”

De volta a Timon, Francisco descreveu o sentimento como de alívio. “Só alegria mesmo. Eu falo para aquelas pessoas não cair mais na ilusão de sair da sua cidade, pra procurar melhoria não, busque aqui mesmo. Pode ser pouco, mas fica aqui com a sua família. É a melhor coisa. Porque você sai do seu estado e volta dentro do caixão”, finalizou.

RETORNO À TIMON E APOIO DA PREFEITURA

Nesta sexta-feira (27), um grupo de 16 pessoas retornou à cidade de Timon. A professora Socorro Waquim, vice-prefeita do município, afirmou que, assim que a informação chegou ao conhecimento da gestão municipal, o prefeito Rafael Brito determinou uma ação imediata para garantir o retorno e a assistência aos trabalhadores.

Já chegaram esses dois primeiros, já estão no centro da família, já estão acolhidos, estamos esperando agora os demais que estão vindo nessa área, também terão o mesmo acolhimento, assistência de saúde, assistência social, e nós estamos preocupados em acompanhá-los e também cuidar, inclusive juridicamente, para fazer a defesa dos que estão lá, que querem vir e que muitas vezes não conseguem vir porque estão devendo a empresa, porque não querem vir sem nada, estão esperando o Ministério.

Local onde trabalhadores resgatados foram acolhidos inicialmente em Timon./Foto: Saymon Lima

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