- Pesquisadores brasileiros validaram escala em português para medir solastalgia, condição emocional ligada a mudanças ambientais negativas.
- Estudo com 1.752 participantes analisou impacto da solastalgia em diferentes regiões e grupos, revelando correlações com ansiedade e depressão.
- Escala BSS-Br foi validada em duas etapas, incluindo tradução, retrotradução e testes de compreensão, garantindo consistência interna.
- Resultados mostraram que solastalgia está associada a menor bem-estar e maior risco de sintomas de ansiedade e depressão, mas não é sinônimo desses transtornos.
- Regiões Sul e Sudeste apresentaram níveis mais altos de solastalgia, enquanto Nordeste teve médias menores, segundo análise do estudo.
Pesquisadores brasileiros validaram uma escala em português para medir a solastalgia, conceito que descreve o sofrimento emocional associado à percepção de mudanças negativas no ambiente onde uma pessoa vive.
A ferramenta, chamada BSS-Br (Brief Solastalgia Scale – versão brasileira), foi validada em um estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. O trabalho foi publicado na revista Environmental Psychology Research, da British Psychological Society, e teve financiamento e coautoria da Natura.
O que é solastalgia
O termo foi criado pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht para descrever a angústia provocada pela deterioração do ambiente familiar. O conceito é diferente da nostalgia, que está relacionada à distância de um lugar. Na solastalgia, a pessoa permanece no território onde vive, mas percebe que o ambiente está sendo alterado de forma indesejada.
Entre as situações que podem estar associadas ao fenômeno estão secas prolongadas, incêndios florestais, perda de biodiversidade, desmatamento, degradação da paisagem e inundações.
Estudo reuniu 1.752 participantes
Para validar a versão brasileira da escala, os pesquisadores analisaram dados de 1.752 adultos das 27 unidades da federação, abrangendo as cinco regiões do país. A pesquisa foi realizada pela internet e teve amostragem não probabilística. A BSS-Br apresentou média de 3,90 em uma escala de 1 a 5, resultado classificado pelos autores como indicativo de níveis moderadamente altos de sofrimento ambiental.
O estudo encontrou associação entre níveis mais elevados de solastalgia, mais sintomas de ansiedade e depressão e menor bem-estar. As correlações, porém, foram classificadas como pequenas a moderadas. A escala não possui ponto de corte clínico. Trata-se de uma medida contínua destinada a avaliar diferentes níveis de solastalgia, e não a estabelecer diagnósticos.
Relação com ansiedade e depressão
Na amostra, 44,75% dos participantes atingiram ou ultrapassaram 10 pontos no GAD-7, limite utilizado no estudo para indicar sintomas de ansiedade moderada ou mais intensos. No PHQ-9, usado para avaliar sintomas depressivos, 47,83% atingiram o ponto de corte adotado pela pesquisa.
Já 63,18% apresentaram pontuação igual ou inferior a 50 no WHO-5, indicador utilizado no estudo para apontar redução do bem-estar psicológico. Os pesquisadores identificaram correlação positiva entre solastalgia e sintomas de ansiedade e depressão e correlação negativa entre solastalgia e bem-estar. Segundo o estudo, isso não significa que solastalgia seja sinônimo desses transtornos.
Diferenças entre regiões e grupos
A pesquisa encontrou pequenas diferenças nos níveis médios de solastalgia entre as cinco regiões brasileiras. As médias foram ligeiramente maiores no Sul e no Sudeste e menores no Nordeste. Também foram identificados níveis mais elevados entre participantes mais jovens, com maior escolaridade e que relataram ter percebido mudanças ambientais recentes no local onde vivem.
Sexo e renda não apresentaram associação estatisticamente significativa com a pontuação da escala no modelo de regressão utilizado. Entre as pessoas que relataram mudanças ambientais recentes em suas regiões, a pontuação média de solastalgia foi maior.
Como a escala foi validada
A criação da BSS-Br ocorreu em duas etapas. Primeiro, a escala original foi traduzida para o português brasileiro, submetida à retrotradução, avaliada por especialistas e testada quanto à compreensão. Na segunda etapa, a versão adaptada foi aplicada à amostra nacional para verificar se os cinco itens avaliavam de forma consistente o mesmo fenômeno.
Os resultados indicaram uma estrutura de fator único e consistência interna considerada adequada. A escala também apresentou invariância de medida entre grupos de diferentes idades, regiões, níveis de escolaridade, situação parental, composição do domicílio e percepção de mudanças ambientais recentes. Segundo os pesquisadores, isso indica que os itens da ferramenta apresentam significado comparável entre esses grupos.