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Gastronomia consolida-se como novo motor estratégico do turismo europeu

Congresso europeu realizado em Madrid destaca a culinária como fator decisivo na escolha de destinos, impulsionando desenvolvimento local, sustentabilidade e inovação no setor turístico.

Foto: Cléo Costa |

A gastronomia deixou de ser um complemento da viagem para se afirmar como um dos principais fatores de escolha de destinos turísticos. Esta foi uma das principais conclusões do I Congresso Europeu de Turismo e Gastronomia, realizado em Madrid sob o lema “Gastronomía: el nuevo motor del turismo”, que reuniu especialistas, representantes institucionais, académicos e profissionais do setor para debater o papel crescente da gastronomia na transformação do turismo contemporâneo. 

Organizado pela Comunidade Europeia da Nova Gastronomia (European Community of New Gastronomy – ECNG), o encontro promoveu um espaço de diálogo sobre os desafios e oportunidades que emergem da relação entre gastronomia, cultura, sustentabilidade e inovação turística. Durante o congresso, os participantes analisaram tendências globais, estratégias de desenvolvimento territorial e novas formas de valorização da identidade gastronómica europeia. 

Gastronomia como experiência central do turismo

Um dos consensos mais claros entre os especialistas presentes foi que a gastronomia se tornou um elemento determinante na experiência turística contemporânea. Segundo as conclusões do congresso, a culinária representa hoje não apenas um serviço associado à viagem, mas um fator essencial na decisão de visitar um destino.

Neste contexto, a gastronomia assume uma dimensão cultural e identitária, funcionando como expressão do património local e como veículo de autenticidade. A valorização dos produtos locais, das tradições culinárias e das histórias associadas aos territórios permite enriquecer a experiência do visitante e reforçar o posicionamento competitivo dos destinos turísticos. 

Sustentabilidade como eixo comum

Outro tema central debatido durante o congresso foi a necessidade de integrar turismo e gastronomia em modelos de desenvolvimento sustentável. Os participantes destacaram que ambos os setores partilham objetivos comuns e devem evoluir de forma coordenada para garantir equilíbrio ambiental, social e económico.

A sustentabilidade deve abranger toda a cadeia de valor alimentar e turística, desde a produção agrícola até à restauração, passando pela distribuição e pelo consumo. Esta abordagem integrada permite promover sistemas alimentares mais responsáveis e destinos turísticos mais resilientes. 

Impulso ao desenvolvimento local e rural

O turismo gastronómico foi igualmente identificado como um instrumento relevante para o desenvolvimento territorial. Ao valorizar produtos regionais, tradições culinárias e pequenas produções locais, este segmento turístico contribui para dinamizar economias locais e fortalecer comunidades.

Além disso, a integração da gastronomia em estratégias turísticas pode ajudar a combater a despovoação em áreas rurais, incentivando a criação de emprego e promovendo novas oportunidades para produtores, pequenas empresas e empreendedores locais. 

Cooperação institucional e governança

As conclusões do congresso sublinham ainda que o desenvolvimento sustentável do turismo gastronómico depende de uma governança eficaz e de uma colaboração ativa entre múltiplos atores. Administradores públicos, empresas, universidades, comunidades locais e residentes devem participar na construção de estratégias turísticas equilibradas.

Sem consenso social e participação coletiva, alertam os especialistas, dificilmente será possível implementar políticas duradouras que conciliem crescimento económico, preservação cultural e qualidade de vida para as populações locais. 

Formação e talento: desafios estruturais

Apesar do crescimento do setor, os participantes identificaram desafios estruturais relacionados com a qualificação profissional. A falta de formação especializada limita a inovação, reduz a qualidade do emprego e dificulta a retenção de talento nas áreas da hotelaria, restauração e gestão turística.

Neste sentido, o congresso defende a criação de novos modelos educativos que integrem gastronomia, turismo, sustentabilidade e inovação, reforçando tanto a formação técnica como a formação universitária nestes domínios. 

Inovação tecnológica e digitalização

A inovação e a digitalização foram igualmente apontadas como ferramentas indispensáveis para o futuro do turismo gastronómico. O uso de tecnologias digitais permite melhorar a gestão de fluxos turísticos, personalizar experiências e recolher dados estratégicos para a gestão dos destinos.

A integração de sistemas inteligentes e o desenvolvimento de soluções tecnológicas colaborativas podem contribuir para uma gestão mais eficiente, sustentável e adaptada às novas expectativas dos viajantes. 

Autenticidade cultural como vantagem competitiva

Os especialistas reunidos em Madrid destacaram ainda que o turista contemporâneo procura experiências com significado, valorizando a autenticidade e a ligação ao território. Conhecer a origem dos produtos, participar em tradições gastronómicas e descobrir histórias locais tornou-se parte fundamental da experiência turística.

Assim, a gastronomia surge como uma poderosa ferramenta de valorização cultural e como um elemento diferenciador na promoção internacional dos destinos. 

Europa e Espanha em posição de liderança

O congresso concluiu também que a Europa, responsável por mais de metade do turismo mundial, e Espanha, uma das principais potências turísticas globais, estão particularmente bem posicionadas para liderar o desenvolvimento do turismo gastronómico sustentável.

O aproveitamento de políticas europeias, fundos comunitários e estratégias integradas poderá reforçar este posicionamento e estimular novas alianças internacionais em torno da gastronomia como fator de cooperação cultural e económica. 

Propostas estratégicas para o futuro

Entre as recomendações finais do congresso destacam-se a necessidade de desenvolver estratégias integradas que articulem turismo, gastronomia, agricultura e cultura; reforçar a participação das comunidades locais na gestão turística; investir na formação especializada; apoiar a digitalização de destinos e empresas; e promover o turismo gastronómico em territórios rurais.

Os especialistas defendem ainda a criação de narrativas fortes que liguem gastronomia, identidade e território, bem como a implementação de padrões claros de sustentabilidade no setor. Por fim, destacam o potencial da gastronomia como instrumento de diplomacia cultural e turística, capaz de reforçar a cooperação internacional e o diálogo entre países. 

Ao concluir os trabalhos, o I Congresso Europeu de Turismo e Gastronomia reforçou a ideia de que a gastronomia representa hoje um dos pilares do turismo do século XXI. Mais do que um elemento da oferta turística, ela assume-se como motor de desenvolvimento económico, preservação cultural e inovação, abrindo novas oportunidades para destinos que saibam valorizar o seu património alimentar e transformá-lo em experiências turísticas autênticas e sustentáveis.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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