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Janguiê Diniz

Janguiê Diniz é fundador e presidente do Conselho de Administração do grupo Ser Educacional, Fundador da JD Business Academy, Presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo e da ABMES - Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superiorf

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Muito barulho, pouca análise e a leitura equivocada do Enamed

Resultados do Enamed expõem leituras apressadas, estigmatização de estudantes e a necessidade de uma análise técnica e pedagógica mais responsável sobre a formação médica no Brasil.

Janguiê Diniz | Divulgação

A divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) deveria representar um momento de reflexão qualificada sobre a formação dos futuros médicos e sobre os caminhos para o aprimoramento contínuo da educação superior no país. No entanto, o que se viu nas semanas seguintes à publicação dos dados foi a construção apressada de narrativas simplificadoras, marcadas por julgamentos precipitados, estigmatização e até práticas de bullying contra estudantes que, segundo os critérios adotados, não alcançaram o patamar mínimo de proficiência.

O discurso que passou a circular transformou a linha dos 60 pontos em uma espécie de divisor absoluto entre “bons” e “maus” estudantes. Aqueles que ficaram abaixo desse limite foram rapidamente rotulados como despreparados, incapazes ou inadequados para o exercício da profissão, sem qualquer análise contextualizada, técnica ou pedagógica, em uma leitura reducionista e discriminatória.

Ao analisar em profundidade os microdados do Enamed, a Hoper Educação constatou que a nota média dos estudantes classificados como “não proficientes” foi de 53,4 pontos, patamar não muito distante do mínimo exigido. Além disso, 58,9% desses participantes obtiveram desempenho superior a essa média, o que evidencia que a maioria dos estudantes enquadrados nessa categoria ficou a poucos pontos (e, em muitos casos, a poucos décimos) da linha de corte estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC).

Em termos práticos, a diferença entre um estudante que alcançou 58 ou 59 pontos e outro que atingiu 60 não representa uma distância real de competência, domínio de conteúdo ou preparo profissional. Em avaliações de larga escala, especialmente aquelas baseadas em modelos estatísticos complexos, é reconhecido que existe margem de erro inerente ao processo de mensuração. Pequenas variações podem ser resultado de fatores circunstanciais, do próprio erro padrão da medida ou de oscilações naturais de desempenho, e não de lacunas efetivas de formação.

A média geral do exame, superior a 65 pontos, reforça essa percepção. O desempenho global dos concluintes indica um patamar formativo consistente, incompatível com a narrativa alarmista que se instalou no país. Além disso, quase a totalidade dos “não proficientes” obteve notas acima de 40 pontos (98,22%), evidenciando que não se trata de um grupo despreparado.

Vale lembrar que 40 pontos era o desempenho satisfatório previsto originalmente no edital do Exame Nacional de Residências (Enare), publicado em junho de 2025 pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Em dezembro, a Nota Técnica nº 42, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), alterou essa previsão inicial e subiu a nota de corte para 50, ainda abaixo dos 60 pontos estipulados pelo Enamed.

Diante desse contexto, é fundamental chamar a atenção para as fragilidades do modelo binário adotado na divulgação dos resultados. Ao reduzir trajetórias complexas, formações plurais e realidades distintas a duas categorias estanques (proficiente e não proficiente), milhares de jovens são rotulados com base em margens mínimas de distinção, desconsiderando a natureza contínua do processo formativo. O estudante “médio” deixa de ser reconhecido como alguém em permanente desenvolvimento e passa a ser enquadrado em um rótulo definitivo, muitas vezes injusto e desproporcional.

A situação se agrava quando os resultados passam a ser associados, de forma automática, aos conceitos atribuídos às instituições. A análise dos dados feita pela Hoper mostrou que uma parcela significativa de estudantes provenientes de cursos com conceitos mais baixos alcançou desempenho superior ao patamar de proficiência. Isso demonstra que não existe correspondência direta entre o conceito institucional e o potencial individual do aluno.

Para se ter uma dimensão desse cenário, 32% dos estudantes de instituições de educação superior que obtiveram conceito 1 alcançaram mais de 60 pontos no exame, percentual que sobe para 51% entre os participantes oriundos de instituições com conceito 2. Ressalte-se, ainda, que esses dados são provisórios, uma vez que os conceitos definitivos somente serão estabelecidos após a conclusão do período de interposição de recursos pelas instituições.

Portanto, torna-se evidente que a forma como os dados foram divulgados, sem o devido esclarecimento técnico, sem a necessária contextualização metodológica e sem orientação adequada, contribuiu para interpretações distorcidas e a instrumentalização dos resultados por interesses corporativistas que se contrapõem às reais necessidades da população.

Não há dúvida de que o Enamed é um instrumento relevante, mas ainda em processo de consolidação. Seu papel deve ser o de induzir melhorias, orientar políticas acadêmicas e qualificar a formação médica, e não servir como base para julgamentos sumários. O ataque pessoal, a generalização e o linchamento simbólico não contribuem em nada para o fortalecimento da educação brasileira.

É necessário resgatar o sentido formativo da avaliação. Somente assim será possível transformar o Enamed em um verdadeiro instrumento de aprimoramento contínuo, capaz de fortalecer a educação superior e contribuir para a formação de profissionais preparados para atender às demandas e às especificidades do tempo presente. Em síntese, a formação médica precisa ser debatida com seriedade, equilíbrio e humanidade.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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