Os resultados recentes da educação pública no Piauí têm chamado atenção no cenário nacional. A melhora nos indicadores de aprendizagem e o avanço consistente no desempenho dos estudantes não apenas refletem metas alcançadas, mas sinalizam uma transformação mais profunda na política educacional do estado. No centro desse movimento está uma estratégia estruturada de valorização e qualificação dos profissionais da educação — especialmente por meio da formação docente como eixo estruturante da melhoria da aprendizagem.
No artigo a seguir, Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, analisa como políticas consistentes de formação e gestão educacional vêm contribuindo para transformar a realidade das escolas piauienses e consolidar avanços nos indicadores de qualidade do ensino.
Como a formação docente vem transformando a educação no Piauí
Ricardo Henriques*
O Piauí tem apresentado avanços consistentes nos indicadores educacionais — e isso não é fruto do acaso. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o estado superou a meta do Ideb ao alcançar 5,9 pontos (2023). Também houve melhora na proficiência dos estudantes da 3ª série do ensino médio em Língua Portuguesa e Matemática, segundo avaliações externas (Saeb). Esses resultados apontam para uma direção nítida: quando políticas educacionais são estruturadas, persistentes e orientadas por evidências, os efeitos aparecem.
No centro desse avanço está uma agenda robusta de valorização dos professores. A ampliação da formação inicial e continuada, o fortalecimento de políticas de inclusão e diversidade, o incentivo à liderança escolar, ampliação expressiva do tempo integral e programas voltados à gestão e à recomposição das aprendizagens formam um conjunto coerente de ações. Mais recentemente, somam-se iniciativas de formação em inovação, tecnologia e inteligência artificial, sinalizando atenção às transformações contemporâneas do processo educativo.
A relação entre formação docente e qualidade do ensino é amplamente documentada — e os dados do Piauí reforçam esse diagnóstico. A expansão da formação continuada, especialmente em áreas estratégicas como Língua Portuguesa, Matemática e Ciências, articulada a acompanhamento pedagógico sistemático e à preparação para o Saeb e o Enem, tem contribuído diretamente para a elevação consistente do Ideb. Mais do que melhorar médias, investir na qualificação dos professores é um dos caminhos mais eficazes para reduzir desigualdades educacionais e ampliar oportunidades, com impactos que extrapolam a sala de aula.
Mas formar não basta. É preciso avaliar a qualidade e os efeitos dessas formações. Avaliações permitem identificar assimetrias, ajustar rotas, medir eficiência e alinhar práticas pedagógicas às demandas atuais — e de implementação de políticas.
Foi com esse objetivo que o Programa Jovem de Futuro, iniciativa do Instituto Unibanco voltado à melhoria da educação pública por meio da gestão orientada para resultados, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação do Piauí (Seduc-PI), realizou uma pesquisa para analisar o impacto qualitativo da formação docente. O estudo focou um dos eixos do Programa Gestão da Aprendizagem, política estratégica ancorada ao Jovem de Futuro desde 2023.
Os achados indicam avanços relevantes. A política de formação está institucionalizada e integrada ao planejamento escolar. Os materiais produzidos pela Seduc-PI são reconhecidos pelos professores como apoio fundamental, ao orientar o planejamento e otimizar o tempo dedicado à preparação das aulas. As formações também têm estimulado o avanço de práticas pedagógicas, com maior centralidade no estudante e adoção de metodologias que promovem participação e protagonismo. Critérios mais nítidos de planejamento e correção de rotas fortalecem, ainda, o vínculo entre a Secretaria e as escolas.
Persistem desafios. A sobrecarga de tarefas docentes e a necessidade de maior adaptação dos conteúdos às realidades locais aparecem de forma recorrente. Há também sugestões de ajustes na frequência dos encontros formativos e de práticas inovadoras para personalização de ensino. Ainda assim, há consenso quanto à importância da continuidade da política, vista como estruturante para a melhoria da aprendizagem.
Outro eixo decisivo é a formação de gestores escolares. Diretores e equipes de gestão têm papel central na criação de ambientes favoráveis à aprendizagem. O acompanhamento dessa formação é objeto de outro estudo, conduzido pelo Instituto Unibanco em parceria com a Universidade Diego Portales, do Chile.
Experiências brasileiras e internacionais mostram que políticas eficazes articulam formação a processos de seleção, garantindo uma base comum de competências entre os líderes escolares. Programas bem-sucedidos oferecem acompanhamento técnico contínuo e estimulam redes de colaboração entre gestores. No Piauí, essa agenda começa a ganhar densidade, com iniciativas que integram a formação de professores e gestores e ampliam a capacidade das escolas de sustentar melhorias nos resultados.
Monitorar e avaliar essas políticas é condição essencial para que avancem com qualidade e equidade. A educação é dinâmica e precisa dialogar permanentemente com as transformações sociais e tecnológicas. Só assim poderá cumprir seu papel central: reduzir desigualdades e formar cidadãos preparados para os desafios do presente e do futuro.
* Ricardo Henriques é superintendente executivo do Instituto Unibanco