Paulo José Cunha, especial para o “Meio Norte”
Quando a cantora e compositora Patrícia Ahmaral puser os pés no palco do Theatro 4 de Setembro na noite do dia 17 deste mês, às 19h30m, ao lado da também intérprete Fernanda Takai, vai enfrentar uma das maiores emoções de sua vida e se perguntar: “Meu Deus, o que está acontecendo? Será mesmo que eu estou no teatro que ele frequentou, na cidade onde nasceu e cresceu, na praça onde brincou?” Até parece, mas não é exagero. Afinal, desde que lançou, no final de 2023, os dois álbuns sobre Torquato Neto, Patrícia ainda não havia mostrado aos conterrâneos admiradores do Anjo Torto o resultado desse trabalho. Nunca tinha ido aos espaços onde Torquato viveu, cresceu e se formou poeta, onde foi menino, onde riscou no cimento úmido as iniciais famosas: “TN”, que é capaz de alguém ainda encontrar nas calçadas da Pacatuba, da Estrada Nova, da rua São João. Lamento informar, Patrícia, mas você não terá como segurar o coração... Vai bater, viu? Bater bem forte! E é bom garantir uma cajuína gelada ali por perto porque a garganta vai ficar seca...
Brincadeiras à parte, se estivesse em Teresina na próxima terça, eu garantiria lugar privilegiado, e bem na primeira fila, no “gargarejo”, para assistir a esse espetáculo. Pela primeira vez, mais de 50 anos após a partida do poeta, sua obra densa, visceral, provocativa e audaciosa mereceu não só uma pesquisa rigorosa para selecionar as peças mais importantes, como uma releitura cuidadosa e respeitosa. E olha que Patrícia não é baiana, nem carioca, ou mesmo nordestina, territórios por onde o poeta transitou. É... mineira de Belo Horizonte! Pois foi ela quem teve a sensibilidade e a iniciativa de homenagear Torquato reunindo o filé de sua obra em dois álbuns admiráveis, proeza que nem parceiros, amigos e intérpretes consagrados da MPB como Gil, Caetano, Gal ou Bethânia, que conviveram com o poeta, o fizeram.
Dona de uma voz reconhecível e marcante, Patrícia Ahmaral parece dizer a cada faixa que canta na condição de fã e tiete do poeta piauiense. Muitas das canções do show “Patrícia Ahmaral canta Torquato Neto” já haviam ganhado o Brasil pelas vozes mais importantes da Tropicália, lá nos anos 60/70. Nem por isso Patrícia se esquivou, pelo contrário. Para enfrentar o desafio de não fazer mais do mesmo, ela, que não é boba, foi atrás de “comparsas” de fé, músicos, arranjadores, cantores e diretores musicais da melhor qualidade. O álbum que deu origem ao show tem direção artística de Zeca Baleiro, produção musical do multi-instrumentista e produtor Rogério Delayon (BH) e da dupla de produtores Marion Lemonnier (este francês) e Walter Costa (Niterói). E participações especiais de intérpretes consagrados como Chico César, Banda de Pau e Corda, Jards Macalé (êh, saudade...), grupo Moda De Rock, Maurício Pereira e Tonho Penhasco, Paulinho Moska, Ná Ozzetti e o próprio Zeca Baleiro. No show, a participação especial é de outra artista tarimbada, a querida Fernanda Takai.
Uma paixão imediata
A ligação de Patrícia Ahmaral com a obra de Torquato vem de 1998, quando foi convidada a realizar o show “Torquatotal”, para a “Primeira Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte”. Apaixonou-se tanto pela obra do piauiense que não o largou mais. “Eu amei cantar aquele repertório e me debruçar sobre aquelas letras que falavam de Brasil, de tormentos, de alegorias, de mazelas, de paisagens de dentro e de fora. Foi uma noite incrível, da qual muitas pessoas que estavam lá recordam como um dos momentos mais tocantes dentro dos movimentos culturais daquela época na cidade.
Ela agradece pelo encontro com Torquato, que entende como “um presente da vida”. Considera a participação de Torquato na “Tropicália” fundamental para o sucesso do movimento. Mas acha que o poeta é um nome que o ultrapassa. “Por isso, convidei, para me apoiar, o querido Zeca Baleiro, que já conhecia de projetos meus anteriores, e por isso saberia também imaginar esta conexão minha com as canções do poeta, que é também um artista com forte ligação com a palavra, com a poesia, e que tem uma visão profunda sobre a cultura brasileira.”
O poeta multifacetado
Foi inevitável a curiosidade de Patrícia pelos outros aspectos da atuação do poeta em áreas como o jornalismo, as artes plásticas e o cinema. “Compreendi melhor a dimensão de sua existência insurgente, de sua palavra telegráfica e urgente, que talvez seja mesmo algo seminal dentro da história”.
A poesia multifacetada de Torquato foi um dos aspectos que mais a atraíram na obra de TN. “Me encanta a maneira como ele usa a palavra de maneira telegráfica, mesmo quando lírico, e que que hoje a gente associaria talvez ao universo rapper. A capacidade de não ser em momento algum panfletário, tanto em letras, quanto em seus versos, textos, cartas. Me chamou muita atenção, quando foram se revelando para mim, as auto-citações, versos seus, em outras obras dele mesmo. A maneira como, talvez, de maneira seminal para a época, de referenciar em letras e poemas, uma cultura inteira, citando nomes de obras, versos, artistas, enfim, dando uma dimensão de sua conexão, de suas antenas, expandindo perspectivas para quem o lê, antropofagizando, no melhor sentido do termo, todo um cenário com o qual ele dialogava, percebia, consumia, admirava ou abominava.
Diante disso, só me resta lhe recomendar, leitor, que corra – agora! – para garantir seu ingresso. O quê? Ainda não foi? Tá esperando os ingressos acabarem para depois ficar reclamando, é? Huummm!