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O AVC não me matou, mas mudou tudo, por Eli Lopes

Nada parecia nos abalar. Eu estava no controle. Até Deus me mostrar que o controle é Dele e não meu

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  • Autora Eli Lopes teve um AVC isquêmico em janeiro de 2024 e passou 20 dias no hospital.
  • Sua filha de 13 anos a socorreu quando ela desmaiou em casa, ligando para o irmão que a levou ao hospital.
  • Autora enfrentou desinformação sobre o AVC e teve uma experiência difícil na fisioterapia após a recuperação.
  • Depois da doença, ela se sente grata por ter conhecido quem são os verdadeiros amigos e familiares que a apoiaram.
O AVC Não Me Matou, Mas Mudou Tudo, por Eli Lopes | Foto: Reprodução // Magnific

Por: Eli Lopes

Dia 28 de janeiro de 2025

Parecia um dia como outro qualquer.

Acordei cedíssimo, como sempre, preparei café pra mim e meu filho, vi o telejornal com as notícias do dia, vi mensagens do WhatsApp, acordei meu filho, tomamos café. Estava feliz. Se a rotina seguia como todo dia, era sinal de que estava tudo bem, apesar das notícias da guerra no jornal. Nada parecia nos abalar. Eu estava no controle. Até Deus me mostrar que o controle é Dele e não meu.

O dia seguiu normal. Fui pra TV trabalhar, depois pra Sesapi, meu outro trabalho. Entre risadas e brincadeiras com os colegas de trabalho, o dia avançava. Fui ao supermercado pra minha mãe e, no final do dia, peguei meu filho no reforço da escola.

Em casa, temos um horário pra dormir por causa do João, meu filho.

Nos preparamos pra dormir, mas antes assisti a um filme. De repente, levantei para tomar água e desmaiei do lado da minha cama. Como moro só com meu filho, ele me socorreu. Tentei me levantar do chão várias vezes, sem sucesso: não tinha força nas pernas e nem nos braços. Mas não entendia o motivo. Eu não sabia que estava tendo um AVC e precisava ser socorrida rápido. Meu filho foi rápido. Pegou meu celular e ligou pro meu irmão. Um garoto de 13 anos fez a diferença entre a vida e a morte com a mãe dele.

Conseguimos chegar ao hospital e fui vítima de mais uma desinformação sobre o AVC. Quem me atendeu inicialmente no hospital achou que eu estava bêbada.

Depois do equívoco, chegou-se ao AVC isquêmico. Fui entubada e passei 20 dias brigando com a morte e com os enfermeiros.

Não sou uma paciente fácil, como também sou boa de briga. Saí de lá sã e salva.

Sequelada, mas viva.

Mal sabia eu que a guerra que eu vi na TV era pequena perto da que eu iria enfrentar dali pra frente. Uma guerra contra meu próprio corpo.

O AVC é considerado pelos médicos como um dos maiores assassinos do Brasil. Um serial killer com requintes de crueldade. Se não te mata, literalmente, te deixa vivo, mas com um corpo que é o seu de sempre, mas que não te obedece mais. Rouba a sua vida e te deixa como espectador do velório. Você vive um luto de você mesmo. Uma vez fora do hospital, começa a guerra pra não enlouquecer com o que restou. A batalha na fisioterapia pra ensinar seu corpo o que ele tem que fazer de novo é insana. E não existem garantias de que não pode acontecer de novo. O seu organismo se revolta contra você. Às vezes, te pune por maus hábitos ou é apenas herança genética. Nada que você tenha feito poderia ter evitado.

Hoje, mais de 1 ano e seis meses daquela noite terrível, eu ainda estou de luto por mim, mas grata por tudo que presenciei.

Sim. Tem um lado bom em tudo isso. A doença faz uma seleção natural das pessoas ao seu redor. Hoje eu sei com quem eu posso contar de verdade. Quem era de mentira já se afastou. E a Roberta Miranda tá certa: vá com Deus.

Quem ficou, eu não deixo se afastar nunca mais. Deus também ficou mais perto e me mostrou que eu não preciso ter o controle de nada. Já entreguei de volta a chave do carro pra Ele e seguimos a viagem, mas agora só com quem é de fato importante. Confio cegamente no motorista e a viagem tem tudo pra ser inesquecível.

Todo voo longo tem turbulência, mas, como o avião não caiu, é porque o piloto tem tudo sob controle. Na hora certa, chegaremos ao destino.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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