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Uma carta de despedida ao comandante Dato de Oliveira: fica a saudade e o orgulho

Comandante Dato de Oliveira | Reprodução/Arquivo Pessoal

Por André Pessoa

Ele voava alto — talvez por isso tenha nos deixado tão cedo. O comandante Dato de Oliveira, um dos grandes nomes da aviação brasileira, tornou-se meu amigo por acaso em meados de 1998, em Teresina. Um encontro inusitado que marcou minha trajetória.

Nossa primeira aventura, naturalmente, foi na região de São Raimundo Nonato, um território que eu já dominava. A ideia era sobrevoar o Parque Nacional Serra da Capivara e registrar imagens impactantes da reserva, que dava seus primeiros passos no turismo. Dato estava entusiasmado: mesmo já tendo conhecido o mundo inteiro, aquela era uma novidade para ele.

O sucesso das publicações foi tão estrondoso que logo propus um novo destino: a selvagem Serra das Confusões, que na época estava prestes a se tornar Parque Nacional. E assim fizemos. Comigo representando o jornal Meio Norte e o repórter Marcelo Rocha comandando as matérias da TV, realizamos voos incríveis sobre uma região que o Piauí, o Brasil e o mundo ainda precisavam descobrir.

Eram tempos de seca brava, com muita gente passando necessidades no semiárido piauiense. Ao voltarmos com as imagens para Teresina, José Osmando e Silvio Leite ficaram encantados com a beleza da região, mas muito tristes com a pobreza da população.

Essa realidade não era nova para mim. Todo ano, eu e a repórter Tânia Martins percorríamos, para o jornal Meio Norte, os principais municípios do sertão piauiense, documentando a seca que a cada ano se expandia e criava mais e mais vítimas. Logo, Osmando e Leite decidiram criar uma grande campanha para arrecadação de alimentos, que seriam doados para as vítimas da seca.

Dato não colocava empecilhos para voar e aterrissar nos lugares mais inusitados, perigosos ou improváveis. A chegada do helicóptero com os alimentos nessas áreas era uma festa, e o seu sorriso mostrava que ele estava realizado. No pouso em Guaribas, em um velho campo de terra, a poeira encobriu as dezenas de crianças que correram com medo da aeronave.

O impacto da campanha foi gigante. Foi quando sugeri usarmos o helicóptero para acessar comunidades isoladas por terra, como a região de Guaribas — que pouco tempo depois ganharia projeção nacional como berço do Programa Fome Zero, no início do governo Lula. Sob a pilotagem segura e corajosa do comandante Dato, singramos os céus para levar mantimentos às áreas mais vulneráveis do semiárido.

Para o comandante Dato, não havia tempo ruim nem pista impossível; ele pousava nos lugares mais inusitados e arriscados. Ver o helicóptero chegar com comida era um motivo de festa para o povo, e o sorriso dele refletia o sentimento de dever cumprido. Lembro-me bem do pouso em Guaribas: em um velho campo de terra, o turbilhão de poeira levantado pela aeronave cobriu dezenas de crianças, que corriam assustadas com o gigante de ferro.

Foram anos de parceria intensa em Teresina. Voamos para o Delta do Parnaíba, cruzamos a região de Picos e Oeiras e, em Coronel José Dias, chegamos a pousar em plena BR-020 — que, na época, não passava de uma estrada de terra batida e pedreiras. A cada pouso, os moradores rompiam a rotina e corriam fascinados para perto da aeronave. Dato os recebia sempre com a mesma generosidade e atenção que lhe eram peculiares.

Estivemos juntos em São Raimundo Nonato por diversas vezes. Lá, tive a alegria de proporcionar aos amigos Barreto, Júnior e Waltercio a experiência de voar pela primeira vez ao lado daquele piloto extraordinário. Marcamos época, e Dato plantou amizades profundas por onde passou.

Hoje, no entanto, o choque me paralisou: recebi a notícia de que ele foi morto em uma tentativa de assalto em São Paulo. Ironicamente, o crime aconteceu em uma avenida colada ao apartamento da minha filha, Nina — que, nas últimas semanas, sentiu na pele essa mesma violência ao ter o celular furtado e, dias depois, suas bicicletas levadas enquanto passeava com amigos no Parque do Ibirapuera.

São Paulo perdeu o controle. Mas eu jamais poderia imaginar que um homem que sobreviveu a quatro acidentes aéreos, a um sequestro e à célebre e audaciosa façanha de passar com um helicóptero por dentro de um dos túneis da rodovia dos Imigrantes, perderia a vida dessa forma, vítima da violência urbana.

O que fica é a saudade e o orgulho gigante de termos feito história juntos no Piauí. Desbravamos cenários que hoje são o coração do turismo no interior do Nordeste, levamos esperança em forma de alimento aos que mais precisavam e, acima de tudo, dividimos sorrisos e multiplicamos alegrias entre o povo piauiense.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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