- Eleitorado bolsonarista mostra indiferença às denúncias contra Flávio Bolsonaro, mesmo com evidências de corrupção.
- Voto é visto como ato emocional, não racional, com propaganda focada em clipes e músicas, não em políticas.
- Seguidores de líderes políticos da direita acreditam neles como fé religiosa, ignorando provas de irregularidades.
- Esquerda enfrenta dificuldade em mudar opinião de eleitores que priorizam crença sobre razão e evidências.
- Denúncias contra Flávio Bolsonaro não alteram intenções de voto, revelando resistência à crítica e à razão.
Por Paulo José Cunha, jornalista, professor e escritor
O voto deveria ser um ato consciente e racional, capaz de refletir com precisão o que uma maioria pensa a respeito do quadro político e, guiada por essa racionalidade, define os que decidirão seus destinos no exercício dos mandatos para os quais foram eleitos. Mas, na prática, o voto resulta mesmo é de uma decisão emocional, e não racional. Não por outro motivo, na propaganda eleitoral gratuita, ouvem-se muito mais musiquinhas que embalam clipes com pessoas risonhas do que propostas para o futuro da população. Os candidatos sabem que a captura do voto se dá no plano emocional, e não no racional.
E é por essa razão que está muito difícil para a esquerda mexer nas intenções de voto exibidas pelas pesquisas. Teoricamente, a carrada de desmandos do governo do Bolsonaro pai, associada à montanha de denúncias contra o Bolsonaro filho, seriam suficientes para mexer com o ponteiro da inclinação de voto do eleitor bolsonarista. Mas não é assim que a banda toca.
Em condições, digamos, normais, qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico se afastaria imediatamente de uma pessoa com uma folha corrida tão extensa e sólida como a de Flávio Bolsonaro. Só as ligações promíscuas com Daniel Vorcaro, o ladrão do Banco Master, com a patrimonialização dos recursos que supostamente seriam usados no financiamento do filme sobre o pai, Jair Bolsonaro, já seriam suficientes para fazer o eleitor mudar a inclinação de voto e buscar outro rumo. Isto sem falar em uma série de delitos de corrupção em que o senador está atolado. Até hoje não explicou porque destinou uma emenda parlamentar de R$199 mil para uma ONG suspeita de integrar um esquema de desvio de verbas públicas, comandado pelos irmãos Brazão — os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco. Além das “rachadinhas” na Alerj, aquele esquema em que o funcionário é contratado com o compromisso de depositar mensalmente na conta do contratante – no caso, o próprio Flávio Bolsonaro – parte do salário que recebe. Ainda outro dia estourou outro escândalo que está pertinho de cair no colo dele: um esquema bilionário de sonegação envolvendo a Refit, uma empresa do setor de combustíveis, que atinge diretamente o ex-governador Claudio Castro, que já até foi alvo de busca e apreensão.
Ou seja: o que não falta é treta. Mas sabe o que essa carrada de denúncias provoca no eleitorado dele? Nem cócegas, como comprovam as pesquisas realizadas antes e depois da divulgação das tretas. A razão para essa indiferença dos bolsoflávios é que a razão, que deveria ser o principal parâmetro a definir o rumo do voto, é simplesmente substituída por uma crença impermeável a qualquer princípio de racionalidade. Algo do tipo: “não me interessa o que digam dele ou o que provem contra ele, acredito nele e nada nem ninguém vai me arredar dessa crença”. E ponto final. Porque, para os abduzidos por essas convicções, a razão é um detalhe sem a menor importância. Suas convicções se baseiam na fé que depositam nesses líderes. Exatamente da mesma forma como funciona a fé em qualquer crença religiosa. Acima da razão. Um adepto do candomblé acredita sem discutir no resultado do despacho colocado numa encruzilhada. O cristão acredita sem questionar que Jesus Cristo está presente na hóstia consagrada. Um espírita acredita sem duvidar que um médium é capaz de incorporar o espírito de alguém que já morreu. Isso porque as religiões são baseadas na fé, e não na razão. E que fique claro: todas elas merecem o maior respeito. Seus adeptos simplesmente acreditam em seus ensinamentos, sem questioná-los. Pois o mesmo princípio, que não tem a ver com religião alguma, acontece com os seguidores de líderes políticos da extrema direita que “professam” uma crença sem questionar se o líder está certo ou errado. A crença neles está fincada nos mesmos princípios da fé religiosa.
E justamente aí reside a dificuldade de fazer esse eleitorado mudar de posição ao se deparar com denúncias tão sólidas como as que se multiplicam contra o candidato Flávio Bolsonaro. Em outras circunstâncias, o eleitor imediatamente reavaliaria seu apoio a um candidato comprovadamente corrupto. Mas, nesse caso, não. Ora, quem reza pra pneu, bebe detergente pra se purificar e vira o celular aceso pro céu pra fazer contato com ETs há muito tempo perdeu a noção de racionalidade. Essa impermeabilidade à razão é a principal dificuldade da esquerda para conquistar esse voto. E não parece existir uma fórmula capaz de mudar essa realidade. Se existir, mande dizer. Ou, como se dizia antigamente: Cartas à redação.