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Quem está capitalizando o escândalo no STF em plena corrida eleitoral?

Em meio ao confronto entre ministros e às novas revelações do caso Master, o impacto político da crise já movimenta o cenário eleitoral

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  • Flávio Bolsonaro e Lula enfrentam crise política com denúncias envolvendo o STF, mas pesquisas mostram que o PT paga a conta do escândalo.
  • A direita acusa Alexandre de Moraes de ser esquerdista, mesmo que ele tenha histórico ligado à direita e ao PSDB.
  • Os indecisos, que são muitos, podem decidir o pleito de outubro, mas tendem a se inclinar para a direita em um eventual segundo turno.
  • Esquerda precisa mobilizar redes sociais e manifestações para reverter a polarização e evitar que o escândalo fortaleça a direita.
  • Analistas acreditam que ações contundentes e a presença do povo nas ruas podem romper a couraça ideológica da direita.
Ministros do STF | STF
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Por Paulo José Cunha, jornalista, professor e escritor

Ao fim e ao cabo, no meio desse imbróglio todo em que a figura central do esgoto a céu aberto é o STF,  quem está capitalizando eleitoralmente o escândalo? A resposta mais rápida seria: a esquerda, claro. Afinal, as ligações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro são tão evidentes que nem dão espaço para contraditório. Mas por absurdo que pareça, não é o candidato da direita, e sim Lula e o PT que estão pagando a conta, conforme indicam os resultados de todas as pesquisas. Num país minimamente educado para a política, o impacto de denúncias tão avassaladoras envolvendo Flávio Bolsonaro já teriam derretido sua candidatura. Mas não é isso o que vem ocorrendo. Daqui a um mês os eleitores irão às urnas, mas sequer a camada de indecisos, que não é pequena, foi convencida a tomar um caminho à margem do escândalo. Pior: os poucos que se movimentaram, conforme as pesquisas, estão se inclinando à direita, Algumas das constatações acima derivam de conversas com colegas da área acadêmica onde opero, particularmente na Comunicação e na Ciência Política da UnB. A explicação que os colegas das duas áreas me dão é: há três anos, desde que Alexandre de Moraes decidiu punir exemplarmente os arruaceiros bolsonaristas que participaram da intentona golpista de 8 de janeiro, que Moraes foi ideologicamente carimbado na testa pela extrema direita como um aliado do PT e do presidente Lula. Basta fazer uma revisão das postagens e das ações da direita nas mídias sociais de lá para cá para confirmar a assertiva. E de nada vale o contra-argumento de que Moraes sempre se alinhou mais à direita do que à esquerda. Foi Secretário de Segurança de São Paulo na gestão de Geraldo Alkmin, do PSDB. E advogado de Eduardo Cunha, o artífice do impeachment de Dilma Roussef. E foi indicado ao STF por Michel Temer, o vice de Dilma que empalmou o poder por três anos depois que ela sofreu o impeachment. Portanto, que esquerdista é esse? Mas não adianta levantar esses e outros argumentos: a direita taxou Moraes de esquerdista e tá acabado. 

Por isso, seja qual for o desfecho do escândalo em que se envolveram figuras de proa do STF como o próprio Alexandre de Moraes e André Mendonça, a tendência é a extrema direita construir um discurso à base do "bem que nós avisamos", e, assim, não apenas consolidar o apoio a Flávio Bolsonaro como atrair novas adesões por força do impacto do escândalo no imaginário dos indecisos. E olha que serão eles, os indecisos, que se mantêm ainda em grande número, que terminarão decidindo o pleito de 4 de outubro.

E mais: na hipótese de um segundo turno, o eleitorado que vem manifestando apoio aos candidatos outsiders tendem a pender para a candidatura de Flavio Bolsonaro. Basta ver o corte ideológico de todos eles, fortemente inclinados à direita. Não há outsiders de esquerda. Por isso é difícil imaginar, por exemplo, que o eleitorado de um Augusto Cury ou de um Renan Santos vá pender para Lula. Aliás, Cury já adiantou que apoiará Flávio. Da mesma forma que candidatos não outsiders como Zema e Caiado, que já têm uma trajetória conhecida na vida política, num eventual segundo turno igualmente terminarão indicando o voto em Flávio Bolsonaro. 

Este é o quadro e estas são as previsões possíveis no momento. Previsões terríveis! Mas como os fatos estão ocorrendo numa sucessão vertiginosa, agora com o confronto aberto entre Moraes e Mendonça, que escalaram a crise a níveis estratosféricos, claro que muita coisa pode mudar.

À esquerda resta, neste momento, trabalhar para que os candidatos direitistas sejam identificados com o foco do escândalo. E bater forte, se quiser tentar uma neutralização da identificação do escândalo com a esquerda, por mais que ela esteja totalmente fora do epicentro do incêndio. Como o tempo é curtíssimo, a única saída é o reforço das ações junto às redes sociais concomitantemente com a adoção de inciativas radicais, como a convocação do povo para ir às ruas. Dr. Ulysses Guimarães dizia que a única coisa que mete medo em político é povo na rua. No caso, o povo na rua teria uma forte ação inibitória da direita, e poderia sensibilizar aquela fatia que ainda pode ser convencida a mudar de lado. É um trabalho difícil porque, no quadro polarizado em que nos encontramos, existe uma espécie de “impermeabilização ideológica” na direita que impede e dificulta alguma  mudança de posição. Se o leitor bem se lembra, lá atrás, quando começaram a pipocar as primeiras denúncias contra Flávio Bolsonaro pelas suas ligações com Vorcaro, o ponteiro das pesquisas nem se mexeu em reação a elas. E não ficou apor ali. Até aqui as pesquisas continuam indicando uma espécie de cristalização de tendências. E é compreensível, na opinião dos estudiosos de ciência política, A razão é que, em ambientes radicalmente polarizados, como o que vivenciamos no Brasil, a identificação partidária garante uma base de votos sólida e impermeável a mudanças, porque é infensa a argumentos e provas, mesmo os mais sólidos. Os observadores concordam, porém, que uma ação contundente na propaganda eleitoral gratuita, nos eventos de campanha, incluindo aí entrevistas e debates, acompanhadas da convocação da militância para manifestações de rua é capaz, sim, de romper a couraça e consolidar uma maioria, mesmo discreta, à esquerda. Mas enfatizam que a ação nas redes sociais é fundamental, até porque nelas a direita nada de braçada há muito tempo. E concluem que, apesar das dificuldades de momento, é possível, sim, reverter o quadro.   

Ou seja: nesta altura do campeonato, vale apostar na verdade contida na frase famosa de Magalhães Pinto, a velha raposa de Minas: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Mas é preciso... ajudar as nuvens a mudar de formato! Esperar que elas o façam naturalmente não vai dar em nada. Ou vai. E bem sabemos aonde.

*** As opiniões aqui contidas não expressam a opinião no Grupo Meio.
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