A capacidade de armazenagem de grãos no Brasil deve registrar em 2026 o maior déficit da série histórica. A estimativa é da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que projeta um déficit de 135,4 milhões de toneladas em relação à produção esperada de 353,4 milhões de toneladas.
De acordo com cálculos da entidade, baseados em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os armazéns brasileiros terão capacidade para estocar apenas 61,7% da safra total prevista,o menor índice em duas décadas.
Em comparação internacional, o cenário brasileiro mostra uma grande diferença. Nos Estados Unidos, a capacidade de estocagem chega a cerca de 130% da produção anual, o que representa um superávit de aproximadamente 30%.
Em 2006, quando o déficit brasileiro era de apenas 500 mil toneladas, a capacidade de armazenagem correspondia a 99,6% da produção. Desde então, a produção agrícola triplicou, impulsionada pela expansão das fronteiras agrícolas e por avanços tecnológicos no campo. A infraestrutura, no entanto, não acompanhou o mesmo ritmo.
Crescimento da produção e infraestrutura defasada
Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro ampliou significativamente sua produtividade com investimentos em maquinário, sementes e novas áreas de cultivo.
Apesar disso, a infraestrutura logística e de armazenagem avançou mais lentamente. Como resultado, produtores enfrentam dificuldades para guardar a produção e administrar melhor o momento de venda dos grãos.
Especialistas apontam que, em um cenário de margens pressionadas no campo, ampliar a capacidade de armazenagem poderia ajudar a comercializar melhor as safras recordes e reduzir gargalos logísticos.
“Armazéns sobre rodas”
A falta de silos e estruturas de estocagem faz com que muitos produtores precisem escoar a produção logo após a colheita. Nesse contexto, caminhões acabam funcionando como uma espécie de “armazém sobre rodas”.
Sem espaço para estocar os grãos, agricultores são pressionados a vender rapidamente, o que aumenta a demanda por transporte e sobrecarrega portos, ferrovias e rodovias.
Entre os principais fatores que limitam novos investimentos em armazenagem estão:
- juros historicamente elevados;
- custo alto para construção de silos;
- dificuldade de acesso a crédito;
- foco dos produtores em investimentos imediatos na produção.
Menor poder de negociação
Outro impacto da falta de armazenagem é a redução do poder de negociação dos produtores diante das grandes tradings, responsáveis pela compra e exportação de grãos.
O mercado global é dominado por multinacionais como Cargill, Bunge, Louis Dreyfus Company e COFCO.
Sem estrutura para armazenar a produção e esperar melhores preços, muitos agricultores acabam vendendo os grãos imediatamente após a colheita, em condições menos vantajosas.
A situação ocorre em um momento delicado para o setor, marcado por juros elevados, custos de insumos em alta e preços mais baixos de commodities como soja e milho. Analistas também alertam que tensões geopolíticas envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel podem aumentar ainda mais os custos de produção.
Falta de crédito e alto custo
Pesquisa realizada pela CNA em 2023 mostra que o alto custo de construção é o principal obstáculo para novos armazéns no país.
Entre os produtores entrevistados:
- 63% apontaram o custo das estruturas como principal barreira;
- 35% disseram que as linhas de crédito disponíveis são pouco atrativas.
Especialistas defendem políticas públicas e financiamento mais adequado para ampliar a capacidade de estocagem, especialmente em regiões de grande produção agrícola.
Cooperativas ampliam investimentos
Algumas cooperativas têm investido na expansão da capacidade de armazenagem para reduzir esse gargalo.
A Coamo Agroindustrial Cooperativa, por exemplo, possui atualmente capacidade para armazenar 6,5 milhões de toneladas de grãos em suas unidades e planeja ampliar esse volume para 7 milhões de toneladas até 2027.
O volume representará cerca de 70% dos 10 milhões de toneladas de grãos comercializados anualmente pela cooperativa, que reúne cerca de 33 mil associados e registra receita anual de R$ 28,7 bilhões. A empresa também atua em setores como produção de etanol, biodiesel, óleo de soja, café, margarina e ração animal.
Produtores dependem das tradings
Mesmo com iniciativas de cooperativas, muitos produtores brasileiros ainda dependem fortemente das grandes tradings para comercializar sua produção.
Segundo especialistas do setor, essa dependência ocorre principalmente em regiões onde a infraestrutura logística é mais limitada.
Para produtores que não têm acesso a cooperativas ou silos próprios, a falta de armazenagem dificulta a gestão financeira e reduz a margem de lucro, levando muitos a priorizar investimentos diretos na produção em vez da construção de estruturas de estocagem.