- El Niño pode elevar preços de alimentos in natura em até 19,9% nos próximos seis meses, segundo modelo do Rabobank.
- Impacto varia conforme intensidade do fenômeno, com preços de alimentos in natura subindo 13,4% em caso de El Niño moderado.
- Estudo analisou relação entre Índice Oceânico Niño e inflação dos alimentos, considerando temperaturas do Pacífico.
- Regiões como São Paulo e Rio de Janeiro podem sentir os efeitos mais rapidamente, enquanto Salvador e Recife terão impacto gradual.
- El Niño intenso pode elevar IPCA em 0,83 pontos percentuais, com efeito máximo observado após seis meses do fenômeno.
Devido os choques climáticos do El Niño, os alimentos podem sofrer um aumento na conta dos brasileiros em até seis meses. Os dados são de um modelo matemático desenvolido pelo Rabobank com base no histórico do fenômeno no Brasil.
De acordo com o estudo, os alimentos in natura, como carnes e hortaliças, serão os mais afetados com o fenômeno. Em um cenário de El Niño forte, os preços dessa categoria podem subir 19,9%, enquanto a alimentação no domicílio avançaria 6,32%.
Em um evento moderado, as altas seriam de 13,4% e 2%, respectivamente.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais nas regiões central e leste do Oceano Pacífico Equatorial. Ele enfraquece os ventos alísios e altera a circulação atmosférica global, provocando fortes impactos no regime de chuvas e nas temperaturas de várias regiões do planeta.
De acordo com o relatório, os efeitos do El Niño sobre os preços dos alimentos podem variar tanto em intensidade quanto em duração. Esses impactos dependem, principalmente, da intensidade do fenômeno climático, das condições das safras agrícolas e do contexto econômico.
Como o impacto foi calculado?
Para estimar os efeitos do El Niño, o estudo analisou a relação entre o Índice Oceânico Niño (ONI), indicador utilizado para medir a intensidade do fenômeno, e a evolução da inflação dos alimentos consumidos nos domicílios durante os principais episódios de El Niño registrados nas últimas décadas.
A classificação da intensidade do fenômeno considera as temperaturas do Oceano Pacífico. Quando a média trimestral supera 0,5°C, o episódio é considerado moderado. Já temperaturas acima de 1°C indicam um El Niño de maior intensidade.
Segundo a atualização mais recente da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgada em agosto, existe uma probabilidade de 26% de ocorrência de um El Niño moderado, 57% de um evento forte e 16% de um episódio muito forte.
Para os últimos meses do ano, as estimativas apontam aproximadamente 80% de possibilidade de formação de um El Niño forte.
Qual pode ser o impacto sobre a inflação?
- El Niño moderado
Em um cenário de intensidade moderada, os preços dos alimentos in natura poderiam registrar uma elevação de 13,4% em um período de 12 meses. Como esses produtos correspondem somente a uma parcela dos itens que compõem o IPCA, esse aumento teria um efeito estimado de 0,36 ponto percentual sobre a inflação.
Os alimentos semi-elaborados e industrializados também sofreriam aumentos, embora de menor magnitude. As projeções apontam altas de 0,27% e 0,5%, respectivamente.
Considerando o conjunto desses efeitos, um El Niño moderado poderia adicionar aproximadamente 0,41 ponto percentual ao IPCA.
- El Niño intenso
No caso de um fenômeno mais intenso, os alimentos in natura poderiam ficar quase 20% mais caros. Esse movimento, isoladamente, representaria um acréscimo de aproximadamente 0,53 ponto percentual ao IPCA.
Para os alimentos semi-elaborados, a estimativa é de aumento de 3,6%, com contribuição de cerca de 0,20 ponto percentual para o índice. Já os produtos industrializados poderiam apresentar alta de 1,4%, acrescentando aproximadamente 0,11 ponto percentual.
No conjunto, os efeitos dos alimentos poderiam elevar o IPCA em cerca de 0,83 ponto percentual. O impacto máximo, segundo o estudo, tende a ser observado aproximadamente seis meses depois do choque climático.
Quais regiões podem registrar maiores aumentos?
O levantamento também avaliou as diferenças dos efeitos do El Niño entre as regiões metropolitanas brasileiras.
De modo geral, os locais onde os alimentos in natura possuem maior participação no consumo ou na produção tendem a sentir os efeitos sobre os preços de maneira mais rápida e intensa. Em outras regiões, o aumento pode ocorrer de forma mais lenta, porém permanecer por um período maior.
No curto prazo, os maiores impactos sobre os preços devem ser observados em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Fortaleza e Belém.
Já Salvador e Recife apresentariam efeitos inicialmente mais limitados. Isso sugere que, nessas localidades, a transferência dos impactos provocados pelo fenômeno climático para os preços dos alimentos pode acontecer de maneira mais gradual.