- Varejo norte-americano fechou quase 3,2 mil lojas em 2024, alta de 24% em relação a 2023.
- Family Dollar lidera fechamentos com 620 unidades, seguida por Rue21 e 99 Cents Only Stores.
- Pressão sobre farmácias: CVS Health, Rite Aid e Walgreens Boots Alliance também fecharam centenas de lojas.
- Crise do varejo reflete mudanças no comportamento do consumidor e aumento de custos operacionais.
- Empresas eficientes continuam expandindo, enquanto outras reorganizam presença física no mercado.
O varejo norte-americano atravessou, em 2024, uma das mais intensas ondas de fechamento de lojas dos últimos anos. O gráfico elaborado com dados da Coresight Research mostra que as principais redes dos Estados Unidos anunciaram o encerramento de quase 3,2 mil unidades apenas nos primeiros meses do ano, alta de 24% em relação ao mesmo período de 2023. O movimento não representa apenas uma retração pontual: ele revela uma transformação no mercado, pressionado pela inflação, pela mudança nos hábitos de consumo, pelo avanço do comércio eletrônico e, em alguns casos, por problemas de gestão e processos de recuperação judicial. A própria Coresight registrava, posteriormente, que o número de fechamentos anunciados continuou crescendo ao longo do ano.
Entre as empresas retratadas no levantamento, a Family Dollar aparece com a maior quantidade de lojas a serem fechadas, com 620 unidades, seguida pela varejista de moda Rue21, com 543, e pela 99 Cents Only Stores, com 371. A lista também evidencia a forte pressão sobre o setor de farmácias: CVS Health aparece com 315 fechamentos, Rite Aid com 165 e Walgreens Boots Alliance com 77. A 99 Cents Only, por exemplo, decidiu encerrar todas as suas 371 lojas nos Estados Unidos após entrar com pedido de recuperação judicial, citando inflação, mudanças na demanda e aumento das perdas de estoque como fatores que prejudicaram o negócio.
O caso da Family Dollar é particularmente representativo. A controladora Dollar Tree anunciou o fechamento de centenas de unidades consideradas pouco rentáveis, em um momento em que consumidores de menor renda estavam sendo pressionados pela inflação e pela redução do poder de compra. A estratégia demonstra uma contradição importante do varejo americano: mesmo as redes voltadas para preços baixos não estão imunes ao ambiente econômico adverso. Ao mesmo tempo, empresas mais eficientes e com modelos considerados mais adequados ao novo comportamento do consumidor continuaram abrindo unidades.
Outro destaque é a Rue21, que aparece com 543 fechamentos no gráfico. A empresa entrou em processo de recuperação judicial e anunciou o encerramento de todas as suas lojas, eliminando milhões de pés quadrados de espaço comercial. O movimento se soma a uma série de dificuldades enfrentadas por varejistas tradicionais, especialmente nos segmentos de moda, produtos para casa e lojas de departamentos.
A relação também inclui nomes conhecidos como 7-Eleven, Express, Macy's, The Body Shop, Foot Locker, Burlington Stores, Carter's, Abercrombie & Fitch e H&M. O dado mais importante, porém, não está apenas na quantidade de portas fechadas, mas na mudança estrutural por trás delas. O consumidor americano passou a ser mais seletivo, enquanto os custos operacionais, aluguéis, mão de obra e estoques aumentaram. Empresas que não conseguiram adaptar suas lojas, preços e estratégias de venda passaram a cortar unidades para reduzir despesas e concentrar investimentos nos pontos considerados mais rentáveis.
O fenômeno também mostra que falar simplesmente em “crise do varejo” seria uma simplificação. Enquanto milhares de lojas foram fechadas, algumas redes continuaram expandindo. Dados da Coresight mostram que Dollar General e Dollar Tree, por exemplo, estavam entre as companhias que planejavam abrir centenas de novas unidades em 2024. No fim do ano, entretanto, o número de fechamentos anunciados superou o de inaugurações em cerca de 1,4 mil lojas, sinalizando uma reorganização da presença física das marcas nos Estados Unidos.
Em termos econômicos, portanto, o mapa de fechamentos representa menos o desaparecimento das lojas físicas e mais uma seleção natural dentro do varejo. Pontos pouco rentáveis são eliminados, redes endividadas reduzem suas estruturas e empresas mais competitivas ocupam espaços deixados pelos concorrentes. A Coresight chegou a estimar, em setembro de 2024, que os fechamentos anunciados já representavam quase 89 milhões de pés quadrados de área comercial.
O cenário reforça uma tendência que deve continuar influenciando o varejo americano: não basta vender barato; é preciso operar com eficiência, entender onde está o consumidor e integrar a loja física ao ambiente digital. A onda de fechamentos de 2024, nesse sentido, funciona como um retrato de uma economia em transformação, na qual inflação, juros, comportamento do consumidor e tecnologia estão redefinindo quais redes conseguem permanecer competitivas no mercado americano.