As Forças Armadas repassaram R$ 137,3 milhões ao Banco Master entre 2020 e 2026 por meio de contratos de empréstimos consignados, segundo dados do Portal da Transparência. Os valores, que correspondem a descontos feitos diretamente nos contracheques de militares, não saíram do orçamento das instituições e representam 12,6% do total de R$ 1 bilhão recebido pelo banco de órgãos públicos no período.
Como funcionam os repasses
De acordo com informações das próprias Forças Armadas, o dinheiro transferido ao banco é resultado de empréstimos contratados individualmente pelos militares, com pagamento feito por meio de desconto automático em folha. Nesse modelo, o Exército (EB), a Marinha do Brasil (MB) e a Força Aérea Brasileira (FAB) atuam apenas como intermediários, sem utilização de recursos públicos próprios.
Em nota, o Exército explicou que o Centro de Pagamento do Exército (CPEx) é responsável por operacionalizar os descontos e repassar os valores às instituições financeiras.
“Os valores envolvidos são oriundos de rendimentos particulares dos militares para o pagamento de dívidas privadas”, informou.
Crescimento das operações
Os dados mostram uma expansão significativa nas operações ao longo dos anos. Em 2020, os repasses somaram R$ 3 milhões, mas cresceram rapidamente, chegando a R$ 43,4 milhões em 2021, um aumento de mais de 1.200%. O volume continuou em alta até atingir R$ 404,8 milhões em 2025, ano em que o banco entrou em processo de liquidação.
No ranking de órgãos que mais repassaram valores ao Banco Master, o Exército aparece em segundo lugar, atrás apenas da Previdência Social, que concentra operações com aposentados e pensionistas.
Diferença para outros casos
Diferentemente de outros episódios envolvendo instituições públicas, como o caso da RioPrevidência, que é investigado, os repasses das Forças Armadas não apresentam indícios de irregularidade. Isso porque os valores não são investimentos públicos, mas sim pagamentos de dívidas privadas assumidas pelos próprios militares.
As Forças reforçam que o modelo segue regras estabelecidas em edital público e que as instituições financeiras precisam cumprir critérios legais e fiscais para atuar como consignatárias.
O que dizem as instituições
Após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central do Brasil (BC), em novembro de 2025, o Exército informou que rescindiu o contrato para novos empréstimos consignados. No entanto, os descontos e repasses referentes a contratos já firmados continuam sendo realizados, com cerca de R$ 4,3 milhões transferidos em 2026.
A FAB afirmou que os valores repassados também se referem exclusivamente a consignações e que não houve novas transferências após a liquidação. Já a Marinha destacou que não realizou repasses diretos ao banco e que atua apenas como intermediária nos descontos de servidores civis.
Contexto do banco
O Banco Master ampliou sua atuação no mercado de consignados após ser adquirido por Daniel Vorcaro, em 2018, assumindo o controle em 2019. Antes disso, a instituição não tinha forte presença nesse segmento.
Os dados reforçam que o crescimento das operações com órgãos públicos esteve ligado à expansão do crédito consignado, modalidade amplamente utilizada por servidores e militares devido às taxas reduzidas e maior facilidade de pagamento.