- O juiz Tom Alexandre Brandão condenou o médico Bruno Santiago Jacob por culpa médica por imperícia e negligência.
- A perícia apontou que o implante continha substâncias não aprovadas pela Anvisa, incluindo gestrinona e metformina.
- Dois outros casos relataram complicações graves após uso de implantes hormonais, incluindo tromboses e lesões hepáticas.
- O especialista Raymundo Paraná apontou padrão de risco e falta de controle sobre os implantes hormonais.
Uma sentença da 2ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), assinada em agosto de 2025, concluiu que um implante hormonal causou um infarto renal na paciente Ana Karina Porto Oliveira, que ficou internada por dias sob risco de perder o único rim. (Com informações do Portal g1)
O juiz Tom Alexandre Brandão reconheceu culpa médica por imperícia e negligência, condenando o médico Bruno Santiago Jacob e sua clínica ao pagamento de indenização.
Substâncias do implante e agravamento do quadro
A perícia apontou que o implante continha gestrinona, testosterona, estradiol, estriol e metformina — medicamento indicado para diabetes, condição que a paciente não possuía. Cerca de 45 dias após o procedimento, a paciente apresentou trombose e infarto renal, além de ganho de peso acelerado e acne intensa.
Na Justiça, o médico alegou que o problema teria sido causado por uma dissecção arterial espontânea e falta de acompanhamento da paciente. A perícia, no entanto, rejeitou esses argumentos, e o juiz destacou que o dever de informar riscos é anterior ao procedimento.
Complicações continuaram após alta hospitalar
Mesmo após a alta, a paciente enfrentou novas complicações, como hemorragias uterinas e necessidade de cirurgia. Durante um procedimento, sofreu edema pulmonar agudo e chegou a parar de respirar, sendo levada à UTI. A sentença reconheceu danos morais e estéticos, incluindo virilização, alteração da voz e mudanças físicas permanentes.
Após a repercussão, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) informou que abriu investigação sobre o médico. O processo corre sob sigilo.
Outros casos reforçam alerta sobre implantes hormonais
Outras duas mulheres relataram complicações graves após uso de implantes hormonais. A paciente Gabriela Cabral, portadora de uma doença hepática rara, desenvolveu toxicidade no fígado após uso de testosterona. O diagnóstico foi feito pelo hepatologista Raymundo Paraná, que apontou contraindicação do tratamento para o caso.
Uma terceira paciente, em Salvador, apresentou abscesso, coceiras intensas e alterações hepáticas graves, com necessidade de biópsia e acompanhamento prolongado.
Especialista aponta padrão de risco e falta de controle
Segundo Raymundo Paraná, há um padrão recorrente de efeitos adversos graves, incluindo:
- Tromboses
- Lesões hepáticas
- Alterações hormonais severas
Ele destaca ainda a ausência de um sistema eficaz de farmacovigilância e dificuldade de rastrear a composição dos implantes.
Falta de regulação preocupa especialistas
A decisão do TJSP aponta que esses implantes:
- Não têm aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso estético ou terapêutico comum
- São manipulados sem bula oficial
- Não permitem controle preciso da dose liberada
Além disso, substâncias como a gestrinona não são reconhecidas por entidades médicas como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
O aumento de complicações associadas a esses implantes preocupa especialistas, que destacam a necessidade de maior controle, transparência e responsabilização médica no uso dessas terapias.
Veja a íntegra da entrevista do médico Bruno Jacob
“Por respeito ao sigilo médico e às normas éticas da profissão, não posso comentar detalhes clínicos ou circunstâncias específicas de um caso individual. Em relação à decisão judicial mencionada, como em qualquer área da medicina, é importante reconhecer que desfechos clínicos podem ser multifatoriais e nem sempre permitem estabelecer relações causais de forma absoluta.
De forma geral, os implantes hormonais são recursos terapêuticos dentro de uma gama de patologias, que não possuem restrição de uso pela Anvisa dentro das suas indicações, avaliação individualizada e acompanhamento contínuo. Assim como qualquer tratamento na medicina, não são isentos de riscos. Minha prática é pautada pela individualização das condutas e pelo compromisso com a segurança do paciente, respeitando sempre a individualidade, as queixas e o desejo de cada paciente.”
A definição de qualquer terapia hormonal deve ser baseada em avaliação clínica individualizada, logo considerando as queixas de desejo sexual hipoativo, ressecamento íntimo, calorões (entre outros descritos pela paciente) associado exames laboratoriais e radiográficos e levando em conta o desejo da paciente por fazer essa reposição pela via de implantes hormonais, foi optada por essa terapia em específico.
De forma geral, nesse caso em específico, seria necessário o acompanhamento adequado nas consultas de retorno, nas quais a paciente não compareceu em nenhuma. É importante destacar que a literatura médica ainda apresenta diferentes níveis de evidência para diversas abordagens em terapia hormonal, especialmente quando se trata de formulações personalizadas. Por isso, essas estratégias exigem cautela, critério e discussão transparente com o paciente sobre riscos, benefícios e limitações.
As normas do Conselho Federal de Medicina e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária são fundamentais para orientar a prática médica e devem ser sempre respeitadas. Essas diretrizes, em geral, restringem o uso de hormônios exclusivamente para fins estéticos.
No entanto, em situações como menopausa ou transtorno do desejo sexual hipoativo (como no caso em questão), essas terapias hormonais foram indicadas e aprovadas pela paciente para finalidade terapêutica.
De forma geral, a adequação de qualquer conduta médica deve ser analisada considerando o quadro clínico específico, a indicação terapêutica, o acompanhamento realizado e o consentimento informado do paciente. Reforço que, na minha prática, todas as decisões são pautadas por critérios clínicos, e respeito às diretrizes vigentes, com foco em indicação terapêutica e não estética.
Participo de diversas atividades de educação médica continuada não apenas na área de terapia de reposição hormonal mas em outras áreas da ginecologia, sempre dentro de um contexto científico e voltado à capacitação de profissionais de saúde. Esse tipo de atividade faz parte da rotina de atualização profissional na medicina e segue as normas éticas vigentes do CFM.
Em relação à minha participação, trata-se exclusivamente de atuação educacional, pela qual sou contratado para ministrar aulas teóricas e práticas, sem vínculo com comercialização de produtos ou qualquer remuneração adicional além da atividade docente em si. Reforço que a educação médica continuada é essencial para que profissionais atuem com mais segurança, senso crítico e responsabilidade na indicação de qualquer terapia.”
Não possuo vínculo societário com farmácias de manipulação. Minha atuação é independente e pautada exclusivamente por critérios clínicos e pela melhor indicação para cada paciente.
Eventuais relações profissionais com empresas do setor, quando existentes, se restringem a atividades educacionais e científicas, como participação em cursos e treinamentos para médicos, sempre dentro das normas éticas vigentes.
Não recebo comissões, incentivos ou qualquer tipo de remuneração vinculada à prescrição da empresa Bio Meds.
De forma geral, não há evidência científica consistente que sustente o uso de implantes hormonais com a finalidade de emagrecimento, e ganho de massa muscular ou melhora de desempenho não são indicações reconhecidas na prática médica.
Na minha atuação como ginecologista, não trabalho com terapias voltadas a fins estéticos, performance ou uso de anabolizantes.
A utilização de hormônios, quando indicada, está relacionada a contextos clínicos específicos — como reposição hormonal na menopausa ou manejo de condições como o transtorno do desejo sexual hipoativo, endometriose, síndrome dos ovários policísticos — sempre com avaliação individualizada e acompanhamento criterioso.
Por questões éticas e de sigilo profissional, não é possível comentar aspectos específicos de casos individuais e respeito qualquer decisão tomada dentro da lei. Mas gostaria apenas de reforçar que a prática médica envolve não apenas a indicação de um tratamento, mas também o acompanhamento contínuo do paciente, com reavaliações periódicas e realização de exames quando indicados. Esse segmento é parte da segurança de qualquer terapia e depende da adesão às orientações médicas ao longo do tempo.
Atuo há mais de uma década na prática clínica, com formação médica completa, residência, título de especialista (RQE) e duas pós-graduações na área. Ao longo desse período, já acompanhei mais de 8.000 pacientes apenas na minha clínica em São Paulo, sempre com foco na segurança e individualização das condutas.
Intercorrências acontecem em qualquer área da medicina, mas nunca neguei suporte a nenhuma paciente, e tenho certeza que elas concordam com isso.”