A histórica fabricante de pneus Fate anunciou nesta quarta-feira (18) o encerramento de suas operações industriais na região metropolitana de Buenos Aires. A medida deve resultar na demissão de mais de 900 trabalhadores e aprofunda o cenário de retração industrial na Argentina.
Com mais de 80 anos de atuação e capacidade instalada para produzir cerca de 5 milhões de pneus por ano, a empresa alegou perda de competitividade diante do aumento das importações no mercado interno. A companhia passa a integrar a lista de milhares de empresas que encerraram atividades no país nos últimos dois anos.
Levantamentos citados por lideranças sindicais apontam que mais de 21 mil empresas fecharam as portas no período recente, com impacto estimado em aproximadamente 300 mil postos de trabalho. O fechamento da Fate é visto como mais um símbolo da crise que atinge o setor produtivo argentino.
A decisão ocorre em meio às políticas de liberalização econômica promovidas pelo governo do presidente Javier Milei, que incluem ampliação da abertura comercial e mudanças nas regras trabalhistas.
Protestos e reação sindical
Após o anúncio oficial, trabalhadores realizaram protestos em frente à fábrica, localizada na periferia norte de Buenos Aires. Manifestantes queimaram pneus e mantiveram mobilização contra o encerramento das atividades.
A empresa informou que cumprirá o pagamento das indenizações previstas na legislação argentina. Ainda assim, sindicatos pressionam o governo a intervir para tentar reverter a decisão ou buscar alternativas que preservem os empregos.
O secretário-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores do Pneu (SUTNA), Alejandro Crespo, afirmou que a entidade buscará diálogo para restabelecer as operações. Segundo ele, ainda há possibilidade de construção de uma solução negociada.
“Vamos adotar todas as medidas necessárias para restabelecer as operações; acreditamos que há uma solução possível”, declarou o dirigente durante ato em frente à unidade industrial.
Solidariedade internacional
No Brasil, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Borracha (Sintrabor) manifestou solidariedade aos trabalhadores argentinos. Em nota assinada pelo presidente Márcio Ferreira, a entidade classificou o fechamento como medida de graves consequências sociais e econômicas.
O sindicato brasileiro também declarou apoio às iniciativas do SUTNA na busca por um diálogo tripartite que envolva trabalhadores, empresa e governo. A nota defende políticas públicas voltadas à proteção da indústria nacional diante da concorrência de produtos importados.
Segundo o posicionamento, o encerramento das atividades da Fate afeta não apenas os empregados diretos, mas também suas famílias e a economia local. A entidade destacou a importância da manutenção da produção para o fortalecimento econômico e a preservação de direitos trabalhistas.
A Federação Nacional dos Trabalhadores da Borracha (Fenabor) também subscreveu o manifesto de apoio, reforçando a necessidade de medidas que garantam a continuidade das operações industriais.
Importações e debate sobre desindustrialização
Dados da consultoria privada PxQ indicam que as importações de pneus cresceram 34% entre 2023 e 2025, enquanto os preços internos no mercado argentino registraram queda de 42% no mesmo período. A combinação desses fatores teria pressionado a rentabilidade da produção local.
A Fate atribuiu o fechamento a “alterações nas condições do mercado”, mencionando diretamente o impacto da concorrência externa. Para a companhia, o atual cenário tornou economicamente inviável a continuidade das operações.
Representantes do movimento sindical avaliam que o caso evidencia os efeitos da abertura comercial acelerada associada à flexibilização das relações de trabalho. Na visão das entidades, a política econômica atual amplia riscos para o emprego e para a indústria nacional.
O episódio reacende o debate sobre o futuro do parque industrial argentino e o equilíbrio entre competitividade internacional e proteção da produção doméstica, em um momento de forte instabilidade econômica no país.