SEÇÕES

Assessor de Trump admite que vitória democrata nas eleições foi “grande demais para ser fraudada”

Aliados do presidente não esperam contestação ampla dos resultados após avanço expressivo dos democratas nas Midterms

Ver Resumo ▼
  • Assessores de Trump reconhecem que resultados das eleições de meio de mandato foram favoráveis aos democratas, sem expectativa de contestação ampla.
  • Trump e aliados prepararam terreno para questionar resultados, mas ações judiciais foram rejeitadas, incluindo tentativa de impedir certificação em estados-chave.
  • A vitória democrata, chamada de "onda azul", superou expectativas, garantindo controle da Câmara e do Senado, apesar de divisões internas no partido.
  • Críticas às políticas de Trump crescem com aumento de custos de vida, guerra e tarifas, que afetaram especialmente eleitores de estados republicanos.
  • Voto latino e imigração influenciaram resultado, com eleitores hispânicos descontentes com políticas que impactaram sua economia e segurança.
O presidente dos EUA Donald Trump | Foto: Mehmet Eser/Anadolu via Getty Images
Siga-nos no

Assessores do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconhecem, em caráter reservado, que o resultado das eleições de meio de mandato (chamadas de midterms) realizadas na terça-feira (3), foi tão favorável aos democratas que não esperam uma contestação ampla dos votos por parte do governo, se é que haverá alguma tentativa nesse sentido.

“Foi, essencialmente, uma vitória grande demais para ser fraudada”, afirmou um assessor de Trump à CNN, em referência a uma das expressões frequentemente utilizadas pelo presidente para defender sua vitória eleitoral em 2024.

Antes da votação, Trump e aliados haviam preparado o terreno para possíveis questionamentos aos resultados. O presidente tem colocado repetidamente em dúvida a integridade do sistema eleitoral americano e, nos últimos meses, voltou a afirmar, sem apresentar provas, que as eleições no país são marcadas por fraudes.

O Departamento de Justiça chegou a entrar com uma ação judicial no Alasca para tentar impedir a certificação dos resultados no estado caso o senador republicano Dan Sullivan não fosse reeleito. A preocupação envolvia a presença de outro candidato com o mesmo nome na cédula de votação.

Na Califórnia, Trump também tentou impedir a contabilização de milhares de votos que, segundo o Departamento de Justiça, poderiam ter sido registrados por pessoas que não são cidadãs americanas. A Suprema Corte, no entanto, rejeitou a medida na segunda-feira (2).

O que explica a onda azul nas midterms?

A chamada “onda azul”, expressão utilizada para descrever o avanço democrata, superou as expectativas mais otimistas do partido. Candidatos da oposição a Trump conseguiram manter posições em estados disputados e conquistar cadeiras suficientes para garantir o controle da Câmara e do Senado.

Apesar do resultado expressivo, os democratas ainda enfrentam o desafio de conciliar diferentes alas do partido, que apresentam visões distintas sobre os rumos da legenda. Ainda assim, a vitória representa uma demonstração de força para um grupo político que, em 2024, chegou dividido à disputa presidencial e não conseguiu impedir o retorno de Trump à Casa Branca.

Rejeição às políticas de Trump

As derrotas republicanas também podem ser interpretadas como uma manifestação de insatisfação de parte do eleitorado com as políticas adotadas pelo presidente.

Em 2024, Trump foi eleito com promessas de melhorar a economia e conter a inflação, que havia marcado o governo de Joe Biden. Desde então, porém, os Estados Unidos entraram em disputas comerciais e conflitos que ampliaram as pressões sobre o custo de vida.

Embora a economia americana mantenha um ritmo de expansão, com crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 3%, os juros elevados e os preços de produtos essenciais, como alimentos e gasolina, continuam pesando no orçamento das famílias.

As eleições de meio de mandato costumam funcionar como uma avaliação do desempenho do presidente após os dois primeiros anos de governo. Durante a campanha, o próprio Trump pediu que os eleitores votassem como se ele também estivesse na disputa, argumentando que isso ajudaria os candidatos republicanos.

Com a popularidade do presidente em baixa, chegando às midterms com média de 32% de aprovação nas pesquisas, o resultado também pode ser visto como um reflexo da insatisfação de eleitores com o governo e com promessas que, na avaliação desse grupo, não foram cumpridas.

Guerra e tarifas pressionam custo de vida

A guerra com o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, somados às tarifas e às disputas comerciais, afetaram especialmente eleitores de áreas rurais e estados tradicionalmente republicanos. Em locais como Iowa e Kansas, candidatos democratas conseguiram superar a força histórica do partido adversário e conquistar cadeiras no Senado.

Além da pressão sobre o orçamento das famílias, o crescimento da fortuna da família Trump e de aliados do presidente, como o bilionário Elon Musk, também foi explorado pelos democratas durante a campanha.

No Texas, James Talarico, que será o primeiro senador democrata do estado desde 1988, concentrou parte de seu discurso na desigualdade econômica. O candidato afirmou que a divisão nos Estados Unidos não ocorre apenas entre direita e esquerda, mas também entre o topo e a base da pirâmide social.

Talarico criticou o adversário republicano Ken Paxton por receber apoio financeiro de grandes doadores, entre eles Musk, que investiu centenas de milhares de dólares na disputa.

Voto latino e imigração influenciaram resultado

O Texas também evidencia o peso do eleitorado latino nas eleições. Se, em 2024, eleitores latinos e hispânicos contribuíram para a vitória de Trump, a perda de apoio entre esse grupo aparece como um dos fatores relacionados ao desempenho dos republicanos nas midterms.

Assim como outros segmentos da população, os eleitores latinos foram afetados pelo aumento dos custos de vida e pelas consequências das tarifas e da guerra no Oriente Médio. A comunidade hispânica também tem participação importante na cadeia de produção de carne dos Estados Unidos, setor pressionado pela concorrência e por subsídios estrangeiros.

Além disso, trabalhadores latinos ocupam uma parcela significativa dos postos de trabalho na agropecuária e na construção civil. O temor de operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) levou parte desses profissionais a evitar o deslocamento para o trabalho, provocando impactos em diferentes setores.

As ações da polícia migratória também foram alvo de críticas. Parte da população considera que os métodos utilizados pelo ICE foram excessivamente agressivos e que as operações ultrapassaram os limites necessários para o controle da imigração.

Votação antecipada favoreceu democratas

O recorde de participação na votação antecipada também aparece entre os fatores que contribuíram para o resultado democrata. Mais de 58 milhões de votos antecipados foram registrados até o dia da eleição, entre democratas, republicanos e independentes. O número ainda pode aumentar com a chegada de cédulas enviadas pelo correio.

Segundo dados da CNN, da Associated Press e da Catalist, os democratas tiveram vantagem de 13 pontos percentuais sobre os republicanos entre os eleitores que votaram antecipadamente. A diferença foi registrada em estados que tiveram papel importante na chamada onda azul, como Iowa, Maine, Ohio e Carolina do Norte.

Em diversos estados, os votos antecipados começam a ser contabilizados antes ou logo no início do dia da eleição. Esse modelo contribuiu para que a vantagem democrata aparecesse nas primeiras etapas da apuração e na divulgação dos resultados.

Tópicos

VER COMENTÁRIOS

Carregue mais
Veja Também
ACESSE NOSSO
CANAL NO ZAP