- A Bolívia enfrenta nova fase da crise política após acordo entre governo e COB e aprovação do estado de exceção.
- Bloqueios de rodovias diminuíram de 80 para 12 pontos, indicando redução nas mobilizações.
- Acordo prevê 90 dias para implementação de compromissos, incluindo não criminalização dos protestos.
- Estado de exceção amplia poderes do governo, que acusa bloqueios de serem parte de uma estratégia de golpe.
- Alguns movimentos sociais mantêm protestos, exigindo renúncia de Rodrigo Paz e criticando o governo.
Após quase dois meses de paralisações e protestos, a Bolívia vive uma nova fase da crise política que atinge o país. O número de bloqueios em rodovias caiu significativamente depois do acordo firmado entre o governo do presidente Rodrigo Paz e a Central Operária da Bolívia (COB), na sexta-feira (19), e da aprovação do estado de exceção pelo Parlamento, na madrugada deste domingo (21).
A medida autoriza o governo a decretar toque de recolher em áreas específicas e mobilizar as Forças Armadas para conter manifestações, após 50 dias de protestos contra políticas classificadas por movimentos sociais como "neoliberais".
Bloqueios diminuem após negociações
Segundo a Administradora de Estradas Bolivianas (ABC), o país chegou a registrar mais de 80 bloqueios simultâneos em diferentes regiões. Na manhã deste domingo, eram 31 pontos de interdição em departamentos como La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz.
Ao longo do dia, o número caiu para 12, indicando uma redução das mobilizações.
Para a doutoranda em Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Alina Ribeiro, o desgaste provocado por quase dois meses de protestos contribuiu para esse cenário.
"As mobilizações custaram vidas e paralisaram cidades inteiras. A negociação com o governo surge como uma alternativa que pode beneficiar ambos os lados, ainda que não garanta a renúncia de Rodrigo Paz", avaliou.
Crise política se intensificou após nova lei
Os protestos ganharam força desde janeiro e se intensificaram em maio e junho, após a promulgação de uma lei de terras criticada por organizações camponesas.
Desde então, diversos grupos passaram a exigir a renúncia do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o cargo há sete meses, encerrando quase duas décadas de governos de esquerda na Bolívia.
Segundo Alina Ribeiro, o bloqueio de rodovias é uma estratégia histórica dos movimentos sociais bolivianos.
"É uma forma muito eficaz de pressão porque paralisa cidades inteiras, mas também exige dedicação integral e grande sacrifício dos manifestantes", explicou.
Acordo prevê 90 dias para implementação
Na sexta-feira, o governo e a Central Operária da Bolívia firmaram um acordo que estabelece um período de 90 dias para implementação e avaliação dos compromissos assumidos.
O presidente da COB, Mario Argollo, pediu que outros grupos suspendam os bloqueios para favorecer a pacificação do país.
"Agora a bola está do lado do governo. Se ele cumprir os compromissos estruturais, o povo reconhecerá. Caso contrário, voltará a cobrar", afirmou.
Entre os principais pontos do acordo estão:
- não criminalização dos protestos;
- garantia de que lideranças sindicais e sociais não serão perseguidas;
- criação de uma comissão para analisar a situação de manifestantes presos;
- compromisso de não privatizar empresas públicas estratégicas nem transferir recursos nacionais para interesses privados.
Em publicação nas redes sociais, Rodrigo Paz comemorou o entendimento.
"Vamos fortalecer a mineração estatal e a geração de empregos, sem privatizações e com coordenação permanente com a COMIBOL", escreveu.
Estado de exceção amplia poderes do governo
Um dia após o acordo, o presidente decretou estado de exceção, medida que vinha sendo preparada pelo governo nas últimas semanas e que exigiu a aprovação de uma nova legislação pelo Parlamento.
Ao anunciar a decisão, Paz voltou a afirmar que os bloqueios fazem parte de uma estratégia de desestabilização do governo e os associou ao narcotráfico, sem apresentar provas.
"O que a Bolívia enfrenta hoje é uma tentativa de golpe de Estado promovida pelo narcoterrorismo", declarou.
O governo também responsabiliza o ex-presidente Evo Morales pela articulação dos protestos. Morales, por sua vez, nega participação direta e afirma que as mobilizações são conduzidas por professores, mineiros, indígenas, camponeses e outros movimentos sociais independentes.
Parte dos movimentos mantém protestos
Apesar do acordo com a COB, algumas organizações anunciaram que continuarão mobilizadas até que Rodrigo Paz deixe o cargo.
Entre elas está a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas "Bartolina Sisa", que realizou uma manifestação na província de Ingavi, em La Paz, defendendo a manutenção dos bloqueios.
Em comunicado, a entidade afirmou que as decisões são tomadas "junto ao povo" e criticou o governo por, segundo a organização, desrespeitar direitos populares e favorecer interesses estrangeiros.
A dirigente Virgínia Antiñapa também denunciou mortes de manifestantes e perseguição a lideranças durante os protestos, rejeitando as acusações de vínculo com Evo Morales.
"Nossa luta é por reivindicações históricas. O governo tenta politizar o movimento dizendo que apoiamos o MAS, mas essa é uma mobilização legítima e independente", afirmou.
Segundo a pesquisadora Alina Ribeiro, a diversidade de grupos envolvidos torna mais difícil uma decisão conjunta sobre o fim das mobilizações.
"Existe um elevado grau de divisão interna entre as organizações, o que torna mais complexo definir uma posição unificada sobre a continuidade ou não dos bloqueios", concluiu.