- Roberto Sánchez lidera disputa presidencial no Peru com 50,022% dos votos válidos.
- Keiko Fujimori está em segundo lugar com 49,978%, mas a diferença é mínima e o resultado ainda está em aberto.
- A virada na contagem de votos ocorreu às 14h58 (horário de Brasília), conforme a autoridade eleitoral peruana.
- Analistas consideravam provável uma recuperação de Sánchez nas regiões rurais, que costumam ser contabilizados por último.
Com 93,9% das urnas apuradas, o candidato de esquerda Roberto Sánchez passou a liderar a disputa presidencial no Peru e ultrapassou Keiko Fujimori na contagem de votos do segundo turno.
Segundo os dados da apuração, Sánchez alcançava 50,022% dos votos válidos, contra 49,978% de Keiko. A diferença mínima entre os dois mantinha o resultado em aberto. Após horas em que a candidata conservadora aparecia à frente, a virada ocorreu às 14h58 (horário de Brasília), conforme a contagem oficial da autoridade eleitoral peruana.
Embora as pesquisas de boca de urna apontassem vantagem para Keiko Fujimori, analistas já consideravam provável uma recuperação de Sánchez na reta final da apuração, devido ao seu desempenho mais forte nas regiões rurais, cujos votos costumam ser contabilizados por último. No primeiro turno, Keiko, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, obteve 17,2% dos votos válidos, enquanto Sánchez somou 12%.
A votação foi encerrada às 17h no horário local (19h em Brasília) e transcorreu sem registros significativos de problemas. O cenário contrastou com o primeiro turno, marcado por falhas operacionais e acusações de irregularidades.
Primeiro turno pulverizado
A eleição ocorreu em meio a um quadro de forte fragmentação política. Ao todo, 35 candidatos disputaram a Presidência, número recorde na história recente do país.
Para o cientista político Lucas Berti, pesquisador do Peru no Observatório Político Sul-Americano e coordenador-executivo do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global, o resultado reflete um processo mais amplo de desgaste institucional.
“É um sintoma de um processo de deslegitimação institucional que vem acontecendo nos últimos anos no país. E isso, na medida em que os presidentes eleitos não conseguem governar”, afirmou.
Instabilidade política
Nos últimos dez anos, o Peru teve nove presidentes, apesar de os mandatos presidenciais terem duração de cinco anos. Em um cenário de estabilidade, apenas dois chefes de Estado deveriam ter ocupado o cargo nesse período. Na prática, porém, sucessivas crises políticas provocaram trocas frequentes no comando do país, com alguns governantes permanecendo no poder por poucos dias.
Segundo Berti, a gestão mais duradoura desse ciclo recente foi a de Dina Boluarte, que permaneceu no cargo por quase três anos.
“Nestes anos, a liderança que mais durou foi a de Dina Boluarte, que ficou no poder por quase três anos. Mas, ao desagradar a oposição liderada pela coalizão fujimorista de Keiko no Congresso, também caiu”, diz Berti.
Outro elemento apontado como fator de instabilidade é o artigo 113 da Constituição peruana, que permite a destituição do presidente por “incapacidade moral ou física permanente”. A avaliação sobre a existência dessa condição cabe ao Congresso, mecanismo que tem sido alvo de debates e controvérsias na política peruana.