Uma onda de protestos antigoverno se espalha pelo Irã há pelo menos duas semanas e representa o maior desafio ao regime iraniano em anos. As manifestações começaram por causa da alta dos preços, ganharam dimensão nacional e já atingiram mais de 100 cidades, levando o governo a restringir o acesso à internet e às comunicações telefônicas em meio ao aumento da tensão.
Os atos começaram nos bazares de Teerã, tradicional centro comercial do país, com protestos contra a inflação e o aumento repentino do custo de produtos básicos. Itens como óleo de cozinha e frango tiveram aumentos expressivos de preço em um curto período, e alguns chegaram a desaparecer das prateleiras.
A situação foi agravada após o banco central encerrar um programa que permitia a determinados importadores acessar dólares a um valor mais baixo. A medida provocou novos reajustes, fechamento de lojas e levou os comerciantes, conhecidos como bazaaris, a iniciarem as manifestações.
Expansão e repressão
As manifestações se espalharam rapidamente por diversas regiões do país, incluindo as províncias de Ilam e Lorestão, no oeste do Irã. Em algumas cidades, manifestantes entoaram palavras de ordem contra o líder supremo, Ali Khamenei, em um desafio direto à autoridade máxima do país.
Organizações de direitos humanos afirmam que mais de 500 pessoas morreram e cerca de 10.600 foram presas desde o início dos protestos. Já a ONG Iran Human Rights Network informou que pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito crianças, morreram, além de milhares de detenções. Os números não puderam ser verificados de forma independente.
A agência estatal Fars relatou que centenas de policiais e integrantes da força paramilitar Basij ficaram feridos em confrontos, principalmente nas regiões ocidentais do país.
Por que os protestos são considerados diferentes
Analistas destacam que o envolvimento dos bazaaris é um dos principais diferenciais desta onda de protestos. Historicamente aliados ao clero e à República Islâmica, os comerciantes tiveram papel decisivo em movimentos políticos do passado, incluindo a Revolução Islâmica de 1979.
Segundo o professor Arang Keshavarzian, da Universidade de Nova York, os bazaaris sempre foram atores centrais da política iraniana e vistos como um dos grupos mais leais ao regime. A adesão deles aos protestos sinaliza um desgaste mais profundo da base de apoio do Estado.
Além disso, o governo tem buscado diferenciar manifestantes motivados por questões econômicas daqueles que pedem mudança de regime, prometendo repressão mais severa contra estes últimos.
Quem governa o Irã hoje
O Irã é uma teocracia desde 1979, liderada por clérigos islâmicos. Embora Masoud Pezeshkian tenha sido eleito presidente em 2024 com um discurso mais pragmático, os principais poderes continuam concentrados nas mãos do líder supremo, Ali Khamenei.
Em pronunciamento recente, Pezeshkian afirmou que o governo não pode enfrentar a crise sozinho e já atribuiu os problemas econômicos a sanções internacionais, corrupção e má gestão. Mesmo assim, a classe trabalhadora e a classe média seguem enfrentando dificuldades.
Pressões internas e externas
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica afirmou que a preservação do regime é sua “linha vermelha” e reservou o direito de reagir aos protestos. Paralelamente, Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, declarou apoio às manifestações e convocou atos coordenados em todo o país. Em vídeos analisados por veículos internacionais, manifestantes chegaram a entoar slogans em apoio ao retorno da monarquia.
Especialistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que o regime enfrenta uma crise de legitimidade prolongada, marcada por frustração, desgaste econômico e perda de confiança da população.
Reações de Trump e Khamenei
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez alertas públicos ao governo iraniano, ameaçando ataques caso as forças de segurança matem manifestantes.
“Se começarem a matar pessoas, como costumam fazer, vamos atacá-los com muita força”, afirmou em entrevista a um programa de rádio.
Em resposta, Ali Khamenei pediu que Trump “foque nos problemas de seu próprio país” e acusou os Estados Unidos de incitar os protestos. Em discurso televisionado, o líder supremo declarou que o Irã não recuará diante do que chamou de tentativas externas de desestabilização.
A continuidade das manifestações mantém o país sob forte tensão e amplia a pressão interna e internacional sobre o regime iraniano.