As políticas de repressão a imigrantes nos Estados Unidos, intensificadas desde o início do atual mandato de Donald Trump, têm provocado impactos diretos e indiretos na vida de brasileiras que vivem no país. Mesmo longe de operações ostensivas do ICE, elas relatam medo constante, mudanças de comportamento e a necessidade de orientar filhos sobre como agir diante de possíveis abordagens.
“Mesmo quando o ICE não está presente, o medo está”
Vivendo há mais de duas décadas nos EUA, Nicole*, brasileira documentada, afirma que a conversa sobre deportação sempre existiu entre imigrantes, mas nunca com a intensidade atual. Moradora de Minneapolis, ela diz que o clima de tensão se espalhou após notícias de prisões e mortes durante protestos contra o ICE. “Hoje, sempre conversamos sobre como agir ou quem vai cuidar dos nossos filhos se alguma coisa acontecer”, relata.
Nicole conta que precisou orientar as filhas, de 13 e 8 anos, sobre procedimentos básicos em caso de abordagem policial.
“Mesmo tendo dupla cidadania, vivo com um sentimento de insegurança. Passei a ter uma cópia do meu passaporte comigo e dei outra cópia para a minha filha. Ensinei a ela que, se acontecer qualquer coisa, precisa gritar seu nome completo e que é cidadã americana”.
Racismo e imigração agravam o medo
Entre brasileiras negras, o receio é ainda maior. Patricia*, de 26 anos, que vive há sete anos em Nova York, afirma que as políticas migratórias atingem de forma mais dura pessoas que não são consideradas brancas nos Estados Unidos.
“As políticas de imigração do Trump são muito voltadas para pessoas que não são consideradas brancas. Se dois cidadãos americanos morreram durante protestos, imagine o que pode acontecer com uma mulher negra imigrante latina”, afirma.
Ela se refere às mortes de Renée Good e Alex Pretti, ocorridas em janeiro durante manifestações em Minneapolis, episódios que reforçaram o sentimento de vulnerabilidade entre comunidades imigrantes.
Impactos mesmo longe dos centros de repressão
No interior de Ohio, a brasileira Simone, de 32 anos, afirma não ter contato direto com agentes do ICE no dia a dia, mas sente os efeitos da repressão. Ela e o marido, ambos empregados em empresas sediadas nos EUA, foram desaconselhados a renovar os vistos de trabalho no fim do ano passado, diante do aumento de negativas em processos migratórios.
Apesar do receio, o casal decidiu seguir com a renovação. Os vistos foram aprovados, mas após entrevistas que Simone descreve como mais tensas do que as realizadas antes do retorno de Trump à presidência, em janeiro de 2025.
Mudanças na rotina e no comportamento
A repressão também alterou hábitos cotidianos. Simone conta que passou a evitar chamar atenção em locais públicos.
“Lembro de estar no mercado, falando alto, e meu marido pedir para falar mais baixo, porque eu estava falando em português. Temos cuidado de não chamar atenção para nós”, diz.
Os relatos mostram que, mesmo sem uma abordagem direta, o clima de insegurança imposto pelas políticas migratórias tem afetado a saúde emocional, a rotina familiar e a sensação de pertencimento de brasileiras nos Estados Unidos.
*Nomes foram alterados para preservar a identidade das entrevistadas.